A gente gasta um bom tempo tecendo acordos. E, boa parte das vezes, juramentos e convicções se dissolvem com facilidade. É por isso que, mesmo entre pessoas bem-intencionadas, é sempre bom deixar tudo regulado, anotado, previsto. A convivência social é, no fundo, um grande acordo. Leis, Estado e regras existem porque todos somos capazes do pior. Basta sermos provocados.
Um bom acordo civilizacional é o da não-violência, sobretudo quando dizer respeito a não ir às vias de fato. Entre crianças, no recreio - já todo infante é meio sociopata, desaforado -, é normal que, vez ou outra, haja alguma porrada. Não podemos exigir que alguém que acabou de chegar a este mundo tenha capacidade de gerenciar afetos desagradáveis. A violência é visceral, primitiva, pulsional. Todavia, para um bom convívio social, na vida adulta, convém prensar atos violentos não são alternativas adequadas.
Já é possível entrever o assunto de nossa coluna: o destempero no último clássico do futebol mineiro. Teve até gente famosa - desse tipo “esclarecido” - réu confesso de ter se sentido entusiasmado. “A volta do futebol raiz”, dizem os eufóricos. Nada de anormal em prever que homens, num pico de adrenalina, num instinto de defesa do time (do bando), se engalfinhem.
Suspeitamos, porém, que o drama seja mais profundo. O fato de a resposta violenta ser óbvia e previsível, de gerar euforia e excitação, não faz dela algo aceitável. Há, hoje em dia, uma lógica de banalização da violência que põe em risco o tecido social. Nos tempos em que a agressão passa a engajar o outro - por sua opinião diferente, por sua visão de mundo - aquele que está no “outro time” deixa de ser adversário e passa a ser inimigo. Isso não é bom.
O buraco é ainda mais embaixo do que caberia em qualquer lição de moral. Ver homens - alguns dos quais de perfil naturalmente pacífico, homens treinados e bem pagos - brigando lança diante de nós uma dura verdade: uma grande amálgama capaz de mobilizar o indivíduo contemporâneo é o desequilíbrio da agressividade.
Em sendo meio homens, meio bicho, somos seres de pulsão agressiva. Nos termos de Freud, a agressividade é uma pulsão constitutiva da existência humana. Todavia, faz parte do pacto civilizacional conter e canalizar bem essa força.
Realidades como a do esporte, com suas regras, limites e arbitragem, são um “artifício” da engenhosidade humana para garantir que os impulsos agressivos sejam bem direcionados. Ninguém nega que sejamos, por natureza, competitivos. Isso não é salvo-conduto, todavia, para que a gente se desumanize.
Sim, a rivalidade no futebol é algo bom e compreensível. Claro que, em situações extremas, despertam em nós os “instintos” (pulsões) mais primitivos. Mas não! Não é normal que homens maduros resolvam conflitos na base do soco e da voadora. A violência, ainda que entretenha e engaje, é uma forma trágica e equivocada de indivíduos imaturos expressarem necessidades não atendidas.
Há algo de crítico nessa masculinidade em crise. É preciso despertar a consciência de que um “homem” não se faz pela força dos seus músculos. Testosterona ativa é coisa de macho. Macho, como lembrava o grande filósofo Clodovil, é o que mastiga abelha.
Ser homem pressupõe virtudes: capacidade de equilíbrio, de gerenciamento de crises. Homens maduros têm afetos equilibrados. Seu vigor não é expressão de licença para matar, mas - para usar os termos do apóstolo Paulo - de disposição para dar a vida (Ef 5,25).
Homens adultos pensam nos outros (sobretudo nos que estão em situação de maior fragilidade) antes de pensar em si mesmos. Têm a coragem de defender os que mais precisam. Se há hoje suspeitas de que o “feminismo” teria deixado os homens em crise, ver héteros se descabelando em campo leva a pensar que há motivos mais permanentes - e talvez mais normativos - para supor que exista muito “macho” por aí desequilibrado, frágil, descontrolado.