Padre Samuel Fidelis | Dosimetria
O que antes era quase 'adjunto adnominal' de remédio se tornou conceito no território político, em disputa entre instituições que competem para ver quem consegue acumular mais descredibilidade

Dosimetria. Que palavra interessante. O que antes era quase um “adjunto adnominal” de remédio e agora se tornou conceito no território político, em disputa entre instituições que competem para ver quem consegue acumular mais descredibilidade, é um termo curioso. Sim, permanece válido o dito: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
Nossas colunas semanais costumam misturar humor e densidade, política e cotidiano, fé e reflexão. A proposta é essa mesma, porque, na verdade, os contornos da vida nunca são claros. Ou alguém tem dúvidas de que casamentos - não apenas os das alianças políticas - acabam por causa da “alta” dos juros? Sim. Claro. Quando um relacionamento começa a inflacionar os débitos, é sinal de que algo falta ao amor. E, segundamente, como lembra Nelson Rodrigues, “dinheiro compra até amor verdadeiro”. Compra mesmo. Não há dúvidas de que o desequilíbrio financeiro é fator determinante nas brigas de casais.
Sim, é uma questão de dose. Ou, se quisermos, em chave cristã, da virtude da temperança. Na perspectiva de Tomás de Aquino, a temperança é a virtude que modera nossos apetites, ordenando-os segundo a razão. É ela que nos ajuda a encontrar proporção, dosagem, limite.
Essa bagunça na política é fruto da desproporção, das fantasias, do apego às próprias ideologias, da sede de poder. E nós, brasileiros, ficamos para lá e para cá, oscilando entre flertes autoritários e o escárnio do preço do crime comprando veredictos.
Essa bagunça também transborda para a vida privada. Nunca fomos tão gulosos de futilidades, tão consumistas, tão iludidos de que o excesso realiza. Nunca fomos tão desproporcionais no ressentimento, dissolvendo relações genuínas - na vida conjugal, por exemplo - pela simples incapacidade de ceder.
O Narciso se excede: vaidoso, excessivo, “fora da caixinha”, seja em Brasília ou aqui.
Falta-nos hoje, talvez como nunca antes, continuidade, profundidade, direção. Ah, e desconfiança de tudo aquilo que, em nossa vida, se apresenta como excesso: seja opinião, comida, trabalho, sexo… Como lembra o texto bíblico, “um abismo atrai outro abismo” (Sl 42,7).
Vem a calhar, na busca pelo “tempero”, pela “dosagem”, pela “temperança”, o pensamento agostiniano (citando aqui também, para ficar bem com o CEO da empresa, o Papa): o erro dos homens está em amar o que não deve ser amado ou em amar mais do que se deve aquilo que deveria ser amado menos.
O amor aloprado pela ordem produz moralistas hipócritas; o amor deslumbrado pela própria autoridade fabrica tiranos; o amor desordenado pelos próprios afetos deságua num casamento insuportável.
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



