Líder supremo do Irã diz que não concordava com acordo, mas autorizou assinatura
Foi a primeira vez que Mojtaba Khamenei se pronuncia sobre o tema, desde que o acordo foi assinado oficialmente; iraniano afirmou que Trump agiu 'por desespero' para conseguir acordo

O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, disse, nesta quinta-feira (18), que não havia, incialmente, concordado com o acordo de paz entre Teerã e Washington. Porém, deu permissão ao governo iraniano para que assinasse o documento. A declaração foi divulgada por meio de uma publicação nas redes sociais.
Foi a primeira vez que Khamenei se pronuncia sobre o tema, desde que o acordo foi assinado oficialmente, na quarta-feira (17), entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Irã, Masoud Pezeshkian.
"Em princípio, eu tinha uma opinião diferente (sobre o memorando de entendimento), mas por causa do compromisso que o respeitável Presidente (...) assumiu em nome de si mesmo e dos membros para preservar os direitos da nação iraniana e da frente de resistência, e que expressou claramente ao aceitar a responsabilidade por ele, eu concedi a permissão", declarou Mojtaba Khamenei.
O líder supremo afirmou, ainda, que Trump agiu "em desespero" para conseguir alcançar um acordo. "No caminho para chegar a esta etapa, os responsáveis, por compaixão e boas intenções, fizeram muitos esforços e foi o presidente dos Estados Unidos que, por desespero, usou todo tipo de alavancas para isso", disse.
Acordo entre Estados Unidos e Irã

Os Estados Unidos e o Irã assinaram oficialmente um acordo de paz na noite de quarta-feira (17). O presidente Donald Trump realizou a assinatura em jantar no Palácio de Versalhes, na França. O documento também recebeu a assinatura do presidente iraniano Mesoud Pezeshkian.
Os países haviam anunciado que chegaram a um entendimento no domingo (14). A informação, incialmente, foi divulgada pelo primeiro-ministro do Paquistão Shehbaz Sharif — país intermediador durante as negociações de cessar-fogo. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, viajou até o Paquistão para uma reunião com Shehbaz Sharif no fim de semana.
O memorando de entendimento entre Washington e Teerã foi assinado eletronicamente na segunda-feira (15), pelo presidente dos EUA, Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf.
Agora, os países iniciam as as negociações detalhadas, abrindo um prazo de 60 dias para discussões técnicas e complexas para pôr fim à guerra no Oriente Médio. Até o momento, poucos detalhes sobre o acordo foram divulgados oficialmente. A imprensa iraniana publicou o que, afirma, são os aspectos centrais do acordo de 14 pontos:
- A República Islâmica do Irã e os Estados Unidos, juntamente com seus aliados na guerra atual, declaram, mediante a assinatura deste Memorando de Entendimento, o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, e comprometem-se a não iniciar, a partir de agora, qualquer ação hostil um contra o outro, e a abster-se da ameaça ou do uso da força um contra o outro. O acordo final confirmará as disposições deste Artigo e dos demais Artigos.
- A República Islâmica do Irã e os Estados Unidos comprometem-se a respeitar a soberania e a integridade territorial um do outro e a abster-se de interferir nos assuntos internos um do outro.
- A República Islâmica do Irã e os Estados Unidos comprometem-se a negociar e chegar a um acordo final dentro de um prazo máximo de 60 dias, prorrogável por mútuo consentimento.
- Imediatamente após a assinatura deste Memorando de Entendimento, os Estados Unidos suspendem o bloqueio naval e impedem qualquer interferência ou obstrução contra a República Islâmica do Irã, e restabelecem o tráfego marítimo em sua capacidade total em um prazo máximo de 30 dias; o tráfego de navios será proporcional ao volume de tráfego pré-guerra por parte da República Islâmica do Irã. Os Estados Unidos também se comprometem a retirar suas forças das áreas circundantes em até 30 dias após o acordo final.
- Ao assinar este Memorando de Entendimento, a República Islâmica do Irã tomará medidas imediatas para garantir que a circulação de navios mercantes do Golfo Pérsico para o Mar de Omã e vice-versa seja retomada, dentro de 30 dias, ao volume anterior à guerra, levando em consideração a necessidade de remoção de obstáculos técnicos e neutralização de minas pelo Irã.
- Os Estados Unidos comprometem-se, juntamente com seus parceiros regionais, a criar um plano abrangente, acordado por ambas as partes, para a reabilitação e o desenvolvimento econômico da República Islâmica do Irã, garantindo um financiamento de pelo menos US$ 300 bilhões. O mecanismo de implementação deste plano, como parte do acordo final, será formulado em 60 dias.
- Os Estados Unidos comprometem-se a pôr fim, num cronograma a ser acordado como parte do acordo final, a todos os tipos de sanções atualmente impostas à República Islâmica do Irã, incluindo as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), bem como a todas as sanções unilaterais dos EUA, tanto primárias quanto secundárias.
- A República Islâmica do Irã reitera que jamais produzirá armas nucleares. A República Islâmica do Irã e os Estados Unidos concordaram que o destino do material enriquecido e o destino de todas as demais questões nucleares mutuamente acordadas, incluindo as necessidades nucleares do Irã, serão adequadamente abordados em um acordo final; o acordo final confirmará as disposições deste Artigo.
- A República Islâmica do Irã e os Estados Unidos concordam que, enquanto não houver um acordo final, manterão o status quo: o Irã manterá o status quo em seu programa nuclear, e os Estados Unidos não imporão novas sanções ao Irã nem reforçarão suas forças na região.
- Os Estados Unidos comprometem-se a que, imediatamente após a assinatura deste Memorando de Entendimento e até a data do levantamento das sanções, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitirá isenções para as exportações de petróleo bruto iraniano, produtos petroquímicos e seus derivados, e todos os serviços relacionados, incluindo serviços bancários, de seguros, de transporte e similares.
- Os Estados Unidos comprometem-se a que, tendo em conta o progresso das negociações para um acordo final, os fundos e ativos congelados ou restritos da República Islâmica do Irã sejam liberados e disponibilizados integralmente. Esses fundos, quer estejam na conta principal ou tenham sido transferidos, serão utilizados para qualquer pagamento final ao beneficiário determinado pelo Banco Central da República Islâmica do Irã e estarão totalmente disponíveis para uso. Os Estados Unidos comprometem-se a emitir todas as autorizações e licenças necessárias com base nisso.
- A República Islâmica do Irã e os Estados Unidos concordam que será estabelecido um mecanismo de implementação para supervisionar a implementação bem-sucedida e o compromisso futuro com o Acordo Final.
- Após a assinatura deste Memorando de Entendimento e mediante o recebimento de garantias quanto ao início da implementação dos Artigos 4, 5, 10 e 11 deste Memorando de Entendimento, e à continuidade da implementação dessas medidas, a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos iniciarão negociações para um Acordo Final exclusivamente com relação aos Artigos restantes.
- O acordo final será aprovado por meio de uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU.
Estados Unidos e Irã estavam em guerra desde o dia 28 de fevereiro, data em que marca o início dos ataques comandados pelos Estados Unidos, com apoio de Israel, contra o Irã. Washington e Teerã estavam sob um frágil acordo de cessar-fogo, assinado em 8 de abril.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.



