Tensão com os EUA expõe divergências sobre atuação do Itamaraty
A negação de vistos a membros do governo Trump e a enfática defesa da soberania nacional pelo Itamaraty, especialmente em relação ao atraso do agrément de Daniel Perez

Diplomatas veem politização da política externa brasileira após negativas de vistos a membros do governo Trump e defesa da soberania nacional pelo Itamaraty. A postura diplomática de Brasília em relação a Washington tem causado estranhamento e levantado questionamentos sobre a interferência dos Estados Unidos. O blog Priscila Yazbek, da CNN Brasil, conversou com integrantes da diplomacia que afirmaram jamais ter visto tamanha hostilidade de Brasília com Washington.
Uma das fontes avalia que os Estados Unidos sempre tiveram uma postura intervencionista na América Latina e lembra que Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio não têm qualquer pudor em admitir isso abertamente. Mas a diferença é a forma como o Brasil está reagindo agora.
Se anteriormente a diplomacia brasileira respondia de forma mais pragmática, sem se envolver abertamente em disputas políticas, agora a postura mais ativa causa estranhamento entre alguns diplomatas.
Questionada sobre a demora na concessão do agrément de Daniel Perez — a aprovação formal do Brasil para embaixador em Brasília —, uma fonte do Itamaraty respondeu que os EUA voltaram à postura de julho de 2023 “de ingerência e tentativa de intimidação”. O interlocutor disse que o posicionamento do governo Trump não funcionou em 2023 e que neste ano a palavra está com o povo brasileiro, “que dirá se quer ser governado a partir de Washington ou se defende a soberania do Brasil diante de ataques tão grosseiros”.
A defesa da soberania nacional, discurso político que vem rendendo dividendos a Lula, tem sido evocada com mais frequência e mais ênfase agora também dentro do Itamaraty. “O Brasil não está sendo nada pragmático. Ao contrário, o governo como um todo, e o Itamaraty, estão escalando nitidamente o discurso de uma lógica mais pretensamente soberanista, com nítido interesse eleitoral”, disse um diplomata.
Uma das fontes afirma que o governo brasileiro impedir a entrada de membros do governo dos Estados Unidos representa uma mudança significativa na postura do Itamaraty.
Ela lembra que o governo Biden também interveio diplomaticamente no debate brasileiro antes das eleições de 2022. Em julho de 2022, o secretário de Defesa de Joe Biden, Lloyd Austin, se reuniu com o então ministro da Defesa de Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira, e falou sobre a expectativa americana de eleições livres, justas e transparentes. Austin também defendeu o controle civil sobre os militares e o respeito à vontade popular.
Mas, quando membros do governo Trump tentaram entrar no Brasil, seus vistos foram negados. A primeira negativa aconteceu em março de 2026, quando o governo brasileiro revogou o visto diplomático de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado dos EUA. O Itamaraty afirmou que houve “omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita”.
Beattie viajaria ao Brasil para participar de um fórum sobre minerais críticos e também pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, mas encontro não havia sido informado às autoridades brasileiras. O Itamaraty também negou vistos a dois funcionários do alto escalão do Departamento de Estado dos Estados Unidos: Riley Barnes, secretário-assistente no Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL), e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do mesmo escritório.
Segundo Lula, os dois pretendiam viajar ao Brasil “para se meter na eleição brasileira”. O Departamento de Estado negou essa versão e afirmou que se tratava de uma missão oficial de rotina para discutir democracia, direitos humanos e liberdade religiosa.
Os vistos foram negados para a viagem prevista entre os dias 27 e 30 de julho, período que coincidia com a convenção nacional do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. A Embaixada dos Estados Unidos havia informado ao governo brasileiro que os dois teriam um encontro com Flávio Bolsonaro durante a viagem.
Não há, porém, confirmação pública de que eles participariam da convenção do PL. Alguns diplomatas avaliam que o Itamaraty tem realizado uma política externa de governo e não de Estado.
Por outro lado, as fontes também ressaltam que os Estados Unidos não têm respeitado as regras da diplomacia em alguns casos. A divulgação da indicação de Daniel Pérez antes de o agrément ser concedido pelo Itamaraty, por exemplo, contraria a praxe diplomática de manter a consulta confidencial até a resposta do país que receberá o embaixador.
Um interlocutor lembrou que um agrément pode ser concedido em um dia se um país quiser fazer um afago ao outro, mas é comum a resposta demorar dois ou três meses. Portanto, a reação do governo Trump de revogar visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é vista por alguns como exagerada. Já outros afirmam que a demora do governo brasileiro tem motivos eleitoreiros e visa reforçar o discurso da soberania nacional.
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