Investigação aponta que EUA deportaram mais de 25 mil migrantes para países sem vínculo
Criado em maio de 2025, o Escritório de Remigração dos Estados Unidos liderou negociações globais e ofertas de auxílio financeiro a nações como Camarões, Palau e Essuatíni

Os Estados Unidos deportaram mais de 25 mil pessoas com base em acordos estabelecidos com 35 países para receber migrantes que não têm vínculos com estas nações. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (21), em uma investigação da Forbidden Stories, uma organização sem fins lucrativos.
Desde que o presidente Donald Trump assumiu o cargo em janeiro de 2025, Washington assinou acordos com países em desenvolvimento para que recebam migrantes que não podem ser enviados legalmente de volta para as próprias nações de origem.
Segundo a investigação, o governo republicano destinou US$ 410 milhões (R$ 2,1 bilhões) para entrega direta aos países receptores ou para organismos da Organização das Nações Unidas (ONU), buscando facilitar as deportações.
Pelo menos 25.447 pessoas foram deportadas para países terceiros até 31 de agosto deste ano, ainda de acordo com a Forbidden Stories. A maioria dos migrantes foi enviada para o México, enquanto as demais pessoas foram distribuídas entre outros 27 países da América Latina, África e Pacífico. Além disso, foram estabelecidos acordos com outros sete Estados.
Os acordos variam, inclusive a respeito das nacionalidades das pessoas que podem ser deportadas e se os países aceitam pessoas com antecedentes criminais.
Pressão para aceitar deportados
Uma investigação da Agence France-Presse, publicada no início do ano, revelou que Washington utiliza proibições de vistos e restrições contra países africanos para pressioná-los a aceitar deportados. Advogados informaram à agência de notícias que os deportados entram em um "limbo jurídico", retidos sem acusações em países com os quais não têm vínculos e onde contam com poucos direitos, quando têm algum.
Enquanto isso, a Forbidden Stories detalhou que 49 dos 54 países da África foram contactados para avaliar se aceitariam deportados de países terceiros.
Uma divisão relativamente desconhecida do Departamento de Estado, o Escritório de Remigração, criado em maio de 2025, conduziu a maior parte das negociações e dos pagamentos, segundo a organização. O escritório é dirigido por Christian Jove Ehrhardt, um diplomata de 41 anos que já atuou como agente de segurança.
O relatório detalha as visitas dele a Camarões, país que, em dezembro do ano passado, assinou um memorando de entendimento com os Estados Unidos para aceitar deportados. Uma semana depois, também assinou um acordo para um programa de assistência em saúde de cinco anos, no valor de quase 400 milhões de dólares (2,05 bilhões de reais).
No mês seguinte, o Departamento de Estado indicou que forneceria outros US$ 30 milhões (R$ 154 milhões) para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Camarões para "facilitar o retorno voluntário de refugiados e combater a imigração ilegal".
O primeiro avião com deportados chegou a Camarões em 14 de janeiro.
Pagamentos
Outros acordos incluem pagamentos diretos a governos. Palau, uma pequena nação insular do Pacífico com uma população de menos de 18 mil habitantes, assinou, em dezembro de 2025, um acordo para aceitar até 75 cidadãos de terceiros países em troca de 7,5 milhões de dólares (38 milhões de reais). Até o momento, no entanto, apenas três pessoas foram enviadas ao país com base no acordo.
Essuatíni, no Sul da África, recebeu 32 pessoas desde julho de 2025, de um total potencial de 160 contemplado em um acordo avaliado em mais de US$ 5 milhões (R$ 25 milhões). Segundo a investigação, o país aceitou deportados com antecedentes criminais.
Dos US$ 410 milhões (R$ 2,09 bilhões) previstos para os acordos, documentos internos do Departamento de Estado mostraram que US$ 81 milhões (R$ 416 milhões) estavam destinados aos governos signatários.
O restante estava destinado para organizações de ajuda, incluindo mais de US$ 178 milhões (R$ 916 milhões para a Organização Internacional para as Migrações (OIM) da ONU e US$ 123 milhões (R$ 623 milhões) para a Agência da ONU para Refugiados (Acnur).
As agências enfrentam críticas pela participação, mas o Acnur afirmou à organização Forbidden Stories que não é parte dos acordos bilaterais e que os fundos estadunidenses são utilizados de acordo com o mandato para fortalecer os sistemas de asilo.
Um porta-voz da Organização Internacional para as Migrações (OIM) disse à Forbidden Stories que as decisões da agência de aceitar fundos são baseadas "em uma única pergunta: se nossa participação vai melhorar a vida dos migrantes afetados. Nestes casos, acreditamos firmemente que sim".
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.
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