Uma pesquisa de mestrado desenvolvida no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), gerido pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), buscou identificar as barreiras sociais que dificultam a adaptação de pacientes à diálise peritoneal, uma forma alternativa ao tratamento conhecido de hemodiálise.
Atualmente, a instituição atende 130 pessoas que realizam o tratamento convencional e 50 na peritoneal. Para o atendimento em casa, o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece a máquina e materiais que serão utilizados no processo.
A diálise peritoneal é uma forma de substituição da função dos rins que se diferencia do tratamento convencional, no qual o paciente precisa ir várias vezes por semana a um hospital ou clínica para que uma máquina realize o trabalho do órgão. Nesta segunda maneira, pode ser feito em casa, em horários flexíveis ao longo do dia.
De acordo com os resultados da pesquisa, foi constatado que de todos os pacientes entrevistados, mesmo os que apresentam algum tipo de dificuldade social, houve poucos índices de complicação.
Como funciona a diálise peritoneal?
O tratamento é popular em outros países, como a China e a França, porém os números dessa opção no Brasil têm caído. Atualmente, somente 3,7% dos pacientes elegíveis optam pela diálise peritoneal no país.
A Itatiaia conversou com os profissionais do Serviço de Nefrologia do HU-UFJF, o médico André Marassi e a médica Natália Fernandes, sobre os tratamentos indicados para pacientes com doença renal crônica em estágio avançado. Natália explica as opções disponíveis para quem precisa iniciar uma terapia substitutiva.
“A partir do estágio 5 da doença renal crônica, quando o rim está filtrando menos de 10%, é indicativo para começar o tratamento. A hemodiálise mais conhecida, é feita em clínicas em quatro horas. Já a diálise peritoneal, pode ser feita em casa com um cateter de silicone na barriga. O paciente introduz um líquido na abdome que absorve as toxinas, sendo depois drenado, manualmente ou com a máquina. O processo é indolor.”
Antes do início do tratamento, o paciente e a família participam de reuniões e recebem acompanhamento da equipe hospitalar, para que sejam repassadas as orientações necessárias, assim como precauções e vantagens do tratamento realizado fora da clínica.
“Realizamos uma reunião multidisciplinar com a equipe de enfermagem, nutrição, psicologia e assistência social, para orientação. Durante o procedimento, é preciso um ambiente adequado, com um quarto limpo, arejado, sem mofo ou rachaduras, e com água corrente para a higienização. O paciente também é cadastrado para receber o material, e é agendado o implante do cateter”, explica o nefrologista André Marassi.
Nefrologistas André Marassi e Natália Fernandes
Impactos emocionais
De acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia, quando o tratamento é iniciado, o paciente percebe uma melhora significativa nos sintomas que apresentava, como falta de apetite, indisposição, cansaço, náuseas, e na qualidade de vida. A profissional de nefrologia fala sobre as mudanças que podem afetar a rotina.
“Toda doença crônica traz impacto emocional. Mudanças na dieta e na liberdade de estar sozinho ou viajar são comuns. Isso não é exclusivo da doença renal. É por isso que temos uma equipe que busca dar suporte psicológico e social.”
Além disso, os profissionais destacam que o início do tratamento pode ser um momento delicado e exige atenção. “O início do tratamento é desafiador e pode causar um impacto emocional tanto no paciente quanto nos familiares. Muitas famílias se sentem inseguras em relação à adaptação ao tratamento domiciliar, por isso é fundamental oferecer apoio contínuo”, afirma a equipe do Serviço de Nefrologia.
Quem necessita do tratamento?
A Sociedade Brasileira de Nefrologia indica que o tratamento deve ser destinados a pacientes que apresentem quadros de insuficiência renal aguda ou crônica. A indicação de iniciar esse tratamento é feita pelo nefrologista, que avalia o organismo através de:
- consulta médica, investigando os seus sintomas e examinando o seu corpo;
- dosagem de ureia e creatinina no sangue;
- dosagem de potássio no sangue;
- dosagem de ácidos no sangue;
- quantidade de urina produzida durante um dia e uma noite (urina de 24 horas);
- cálculo da porcentagem de funcionamento dos rins (clearance de creatinina e ureia);
- avaliação de anemia (hemograma, dosagem de ferro, saturação de ferro e ferritina).
* Escrita por Mayara Fernandes sob supervisão de Roberta Oliveira