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'Só morre de verdade quem nunca mais é lembrado': jornalistas esportivos comentam legado de Léo Batista

Itatiaia ouviu relatos de quem encontrou com o 'a voz marcante do esporte' durante visita dele à Juiz de Fora

Por e 
Léo Batista, de 92 anos, está internado em estado grave no Rio de Janeiro
Ícone da TV brasileira, Léo Batista estava internado desde 6 de janeiro. • Divulgação / Globo

O jornalismo brasileiro, e o esportivo em especial, perdeu uma parte viva da história neste domingo (19) com a morte de João Baptista Bellinaso Neto, o Léo Batista, aos 92 anos. No entanto, o mais antigo jornalista em atividade no Brasil deixa lembranças em quem acompanhou em algum momento da longa carreira entre rádio e TV ou o o conheceu pessoalmente.

O velório está em andamento em General Severiano, na sede do Botafogo, clube de coração do jornalista, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A cerimônia já esteve aberta ao público e agora segue apenas para parentes e amigos próximos do apresentador.

Léo Batista esteve em Juiz de Fora para participar de eventos na Universidade Federal de Juiz de Fora. E a Itatiaia conversou com pessoas que o encontraram: o professor aposentado da Faculdade de Comunicação Social (Facom), Márcio Guerra e os então alunos Eduardo Monsanto, atualmente narrador e apresentador, e Francisco Brinati, Pró-reitor de Extensão e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

Apaixonado, sim, e indignado também, com o Botafogo

O jornalista esportivo, professor aposentado e antigo Diretor de Imagem Institucional da UFJF, e atual Secretário de Bem-Estar Animal, Márcio Guerra, também conta um episódio com Léo Batista em Juiz de Fora.

"Eu tive o privilégio de participar de uma mesa de abertura de semestre na Universidade Federal de Juiz de Fora, confesso que eu não me lembro o ano precisamente, ao lado do Leo Batista. Era uma semana de recepção, os calouros, e tinham várias atrações que o Instituto de Ciências Biológicas (ICB), onde foi feito esse evento, acabou recebendo o Leo Batista. Foi de uma simpatia muito grande, uma afinidade muito grande pelo fato de nós dois sermos apaixonados pelo Botafogo".

E é justamente o amor pelo time da Estrela Solitária a lembrança de Léo Batista guardada por Márcio Guerra.

"Eu tive a oportunidade também de conviver no período que eu trabalhei no Jornal dos Esportes, nos anos de 1980 e 1981, onde nós nos encontrávamos várias vezes na tribuna de imprensa. E ele sempre muito crítico às atuações do Botafogo sempre cobrando muito. Teve um episódio que eu encontrei uma vez ele no vestiário, ele muito revoltado com uma atuação que o time tinha tido e discutindo com um dirigente do Botafogo, cobrando dele seriamente alguma providência para melhorar o time. E felizmente ele pode ver o Botafogo ser campeão da Copa Libertadores, do Brasileiro e foi descansar depois de 92 anos de um exemplo de profissional de comunicação. Um exemplo de profissional mesmo com letra maiúscula do começo ao fim".


Márcio Guerra ao lado de Léo Batista em evento na UFJF

Pioneiro e relevante em uma vida plena e produtiva

O jornalista, apresentador e narrador, Dudu Monsanto destaca que muito da história recente do Brasil, no esporte ou não, foi narrado pela voz de Léo Batista.

"É impressionante quanto coube numa vida de 92 anos. Quantas coisas incríveis o Léo Batista teve a oportunidade de presenciar, de testemunhar, de noticiar. Estamos falando de um cara que deu em primeira mão a morte de Getúlio Vargas, em 1954. Que era o cara que estava no ar para poder dar a morte do Ayrton Senna, em 1994. Ele foi um dos pilares da própria construção, do estabelecimento do jornalismo da TV Globo. Era um cara em quem o Boni, que era o diretor na época confiava muito. Não à toa, ele apresentou o Jornal Nacional, apresentou a primeira edição do Jornal Hoje. Foi o primeiro apresentador do Esporte Espetacular. O Globo Esporte foi construído em torno dele".

A carreira longeva de Léo Batista atravessou gerações. Dudu relata as lembranças como telespectador e o impacto desta perda para o jornalismo.

"O que mais me impressiona na trajetória do Léo foi a capacidade de se manter relevante até praticamente dezembro do ano passado, quando ele ainda estava trabalhando. Então foi uma vida plena, uma vida de muita produtividade, uma referência para todos nós do jornalismo esportivo. Quando eu cresci, as minhas referências eram ele e Fernando Vanucci no que diz respeito da televisão. Alvinegro, botafoguense de quatro costados, vibrou muito aí com as conquistas da Libertadores, do Campeonato Brasileiro. Uma grande figura, uma parte imensa do jornalismo esportivo e da história não só da televisão, mas também do rádio brasileiro. partem junto com o Léo, mas o legado que ele deixa é absolutamente incrível, absolutamente maravilhoso e é uma voz que nunca vai ser apagada as nossas lembranças".

Dudu conta que encontrou pessoalmente com Leo Batista há 25 anos. Ainda universitário e estagiário, foi encarregado de acompanhar o ilustre convidado - e com uma missão muito específica.

"No ano 2000, ele teve em Juiz de Fora para o lançamento do Sport 21, que era um programa desenvolvido pela TV Panorama na época. Eu era estagiário e lembro que a Ana Viana, que era nossa diretora de jornalismo, me pediu para fazer sala, ciceronear o seu Léo, nos momentos que antecediam o evento. E ela me pediu uma coisa que foi super engraçada, falou 'ó Dudu, o Luiz Ricardo, que é o nosso diretor, quer jantar com o Léo depois do evento. Só que o Léo adora um bingo, então só não deixa ele ir para o bingo'. E não deu outra, né? Ele chegou, me apresentei, a gente conversou, terceira ou quarta pergunta, 'garoto, onde é que fica um bingo bom aí na cidade, hein?'"

Léo Batista faleceu neste domingo (19).

Contador de história para várias gerações

A lembrança do jornalista esportivo, professor universitário e Pró-reitor de Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei, Francisco Brinati também está relacionada à visita de Léo Batista para o programa Esporte 21. Só que ele estava do outro lado, do público que assistiu à palestra. Mas teve um extra: uma bate-papo informal nos corredores da UFJF.

"Particularmente, eu tive uma experiência única com o Leo Batista, não tive a oportunidade de trabalhar com ele, né? Enfim, mas em 2000, ele foi à Juiz de Fora para poder fazer uma palestra . Após a palestra, a gente teve a oportunidade de encontrar com ele pelos corredores. Ele parou e começou a contar casos. E a gente ficou ali, uma hora e pouco, conversando. E ele contando várias daquelas histórias que enchiam os olhos de todos nós ali, que éramos estudantes de jornalismo na época e fãs admiradores de todo o trabalho dele, que com certeza marcou toda uma geração naquele momento ali. E os seguranças foram saber o que estava acontecendo porque estava demorando muito ali, mas que ele contou muito dessas experiências que ele teve nos bastidores. Nesse momento só dele parar para ouvir, conversar e contar histórias para estudantes de jornalismo, jovens jornalistas que estavam começando essa trajetória já mostram um pouquinho do que foi o Leo Batista".

Francisco Brinati reitera a importância do trabalho de Léo Batista, que atravessou diferentes momentos históricos e também da atuação do jornalismo.

"É uma figura marcante, não só para nós jornalistas, a gente que trabalha com jornalismo esportivo, mas também para todos os brasileiros. Afinal, ele participou de grandes momentos históricos do país, em épocas de pouca diversidade de fonte de informação. Eu lembro do plantão da morte do Ayrton Senna, que ele ancorou esse plantão. Ele joga para o Roberto Cabrini,que anuncia a morte do Senna e volta para ele, dando aquele ar daquele momento ali, super sério, mas também super seguro, dando informação. E também nos nossos programas esportivos, Esporte Espetacular, Globo Esporte e diversos outros programas de TV. Nessa época também de poucas, poucas fontes de informação, poucas TVs que tinham cobertura, direitos de transmissão, tecnologia ainda era muito difícil".

Ele lembra que a referência de Léo Batista passou pelas histórias de diferentes gerações de famílias, desde o gol do Fantástico e interagindo com as novas tecnologias.

"Os gols da rodada, por exemplo, dos campeonatos de futebol, a gente assistia em primeira mão com ele. A gente ouvia no rádio, mas a gente assistia à noite para ver os gols da rodada com o Leo Batista no Fantástico. Então, isso acabou trazendo o Leo Batista como uma pessoa próxima de todos nós. Afinal, foram 70 anos de jornalismo que perpassa várias gerações, as gerações dos nossos avós, nossos pais, a nossa geração, alguns dos nossos filhos também que puderam acompanhar. Esse jornalista que é uma referência para todos nós, uma pessoa sempre muito educada, um belo contador de histórias e um personagem que conseguiu se adaptar aos novos meios. Ele sempre esteve atual. Mesmo com 92 anos, quando ele se despede, ele estava completamente em diálogo constante com as novas tecnologias e se adaptando a esses novos meios. Então, sempre atual e perpassando todo esse período dessas sete décadas de jornalismo".

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Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.

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Désia Souza é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também cursou pós graduação em “Mídia e Cidadania” e mestrado em “Comunicação e Poder”. É coordenadora de jornalismo na Itatiaia Juiz de fora, onde também atua como âncora e repórter.