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'Depois da tempestade, a esperança': empreendedora relata processo de reconstrução após as chuvas em Juiz de Fora

Maior tragédia climática que atingiu Juiz de Fora, chuvas de fevereiro atingiram espaço de 30 mil CNPJ's e solidariedade digital foram aliadas durante a emergência

Por, Juiz de Fora
Gabi Gonçalves Maria Buzina
A empreendedora Gabi Gonçalves, da Maria Buzina, fala sobre a recuperação após ser afetada pelas chuvas em Juiz de Fora • Désia Souza

Há 25 anos, a empreendedora Gabi Gonçalves vive da sua arte. As bolsas coloridas com a lona de caminhão como matéria prima e desenhos contornados pela criatividade de quem não teve medo de assumir o próprio sonho rodam pelo mundo. Tanta beleza e sensibilidade em cada peça não foram preparadas para o que Juiz de Fora viveu na noite de 23 de fevereiro de 2026.

Mãe solo, há mais de uma década, Gabi Gonçalves havia montado o ateliê da Maria Buzina no apartamento em que morava com as filhas na Olegário Maciel. Perto da escola, perto do fervor comercial do Centro, onde encontrava a matéria prima. E justo atrás de onde estava o ateliê, uma rua inteira foi tomada pela lama que desceu do Morro do Cristo.

"A gente não imaginava o tamanho da tragédia. A gente só entendeu por volta das 23h, com o barulho de uma forte explosão. Eu fui no meu quintal e estava tudo enlamaçado, com pedra, um jato de lama em cima da gente", relembra.

A maior tragédia climática que Juiz de Fora viveu nos últimos tempos matou 66 pessoas, deixou mais de 8.000 desabrigados e um legado de destruição em ruas, encostas, vias importantes e uma ferida aberta na vida das pessoas. Naquela semana, o fervor da cidade polo da Zona da Mata, historicamente pioneira em tantos setores, foi silenciado.

Em cada comércio fechado, a história de alguém que perdeu alguém – ou que pelo menos conhecia – a impossibilidade de se deslocar pela falta de estrutura que a chuva causou. O barulho do progresso foi substituído por sirenes, helicópteros e também pelo silêncio de quem não sabia o que estava por vir. Mas se teve algo que não se silenciou foi a solidariedade das pessoas.

"Eu estava sem casa e sem ateliê. E aí eu pensei, vou gravar um vídeo e postar na rede social da Maria Buzina, para avisar para os meus clientes o que é que está acontecendo e eles saberem que eu vou demorar um pouco mais para entregar os produtos. E na hora eu pensei, a única maneira que as pessoas podem me ajudar é comprando, sabendo que eu vou demorar para entregar, porque eu ainda não tenho estrutura, minha estrutura está instável, né? As pessoas começaram a entrar em contato e começaram a comprar", afirma. 

Cratera aberta no Morro do Cristo durante as chuvas de fevereiro • PJF/Divulgação
Cratera aberta no Morro do Cristo durante as chuvas de fevereiro • PJF/Divulgação

Solidariedade e união de entidades comerciais na reconstrução da cidade

Em uma chuva que afetou mais de 30 mil CNPJs, as redes sociais foram aliadas nesse primeiro momento de emergência. Uma parceria entre a prefeitura e diversos setores ligados ao comércio, entre eles o Sindicomércio, culminou na criação do Valorize JF. O grupo de WhatsApp envolveu empreendedores dos mais diversos setores, que faziam anúncio de seus produtos e serviços diariamente, em busca de clientes. O grupo chegou a quase 1000 pessoas ativas.

Outra iniciativa para atender os empreendedores foram aberturas de linhas de créditos especiais, orientadas pela Sala do Empreendedor e direcionadas para quem se encontrava no mapeamento de risco criado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo, como explicou, à época, o secretário da pasta, Ignácio Delgado. 

"A Sala do Empreendedor, junto com o cadastro imobiliário da Prefeitura, pegaram os dados da Defesa Civil sobre áreas de risco hidrológico e geológico em Juiz de Fora, em que empresas potencialmente estariam sob risco  junto ao Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal. Cerca de 30 mil CNPJs estão nas áreas de risco, mas as beneficiadas são as que realmente foram atingidas", explica.

Gabi Gonçalves em seu novo ateliê, em São Pedro • Désia Souza
Gabi Gonçalves em seu novo ateliê, em São Pedro • Désia Souza

'Quase o tempo de uma gestação'

De 23 de fevereiro pra cá, já são quase nove meses, quase o tempo de uma gestação. Depois da tempestade, a esperança. Gabi Gonçalves continua colorindo os looks pelo mundo com as bolsas da Maria Buzina, mas longe da Olegário, da escola e do centro comercial.

Por trás de um portão vermelho, cercado de árvores e um grande quintal, agora ela retoma a vida no bairro São Pedro e, na nova realidade, se reconecta com seu processo criativo, sem esquecer da força daqueles primeiros dias, quando a solidariedade das pessoas que compraram sem se preocupar com o prazo de entrega, garantiu o sustento dela e das filhas por três meses. 

"Foi tipo um abraço muito forte. Eu acho que foi a coisa mais importante que aconteceu, sabe? Naquele momento, as pessoas me fizeram não me sentir sozinha. Eu comecei a sentir esperança, comecei a perceber que eu era querida, que eu era ouvida, que eu era importante, sabe? E que a minha vida não ia acabar ali, naquela hora".

Ouça a entrevista na íntegra

Por

Désia Souza é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde também cursou pós graduação em “Mídia e Cidadania” e mestrado em “Comunicação e Poder”. É coordenadora de jornalismo na Itatiaia Juiz de fora, onde também atua como âncora e repórter.

 

 

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