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Legado de Bolão: filha faz sucesso com bar na casa onde o 'Rei do Espaguete' viveu, em BH

Vanessa não imaginava que seguiria os passos do pai que, antes de falecer, ajudou o negócio da filha a decolar

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Vanessa mantém da tradição gastronômica do pai, o 'Rei do Espaguete'
Vanessa mantém da tradição gastronômica do pai, o 'Rei do Espaguete' • Luiza Rocha/Itatiaia

No coração de Santa Tereza, bairro boêmio, histórico e cultural da Região Leste de Belo Horizonte, a memória de José Maria Rocha — o lendário "Bolão" — continua viva e com o mesmo sabor de sempre. Na própria casa onde o "Rei do Espaguete" viveu, sua filha, Vanessa Isabel Alves Rocha Caixeta, de 44 anos, lidera, ao lado do marido, Gustavo Aurélio Caixeta de Paulo, de 42 anos, o restaurante Dom Caixeta, espaço que resgata a culinária de excelência e a tradição que tornaram a família Rocha um patrimônio da gastronomia mineira.

Filha do “Rei do Espaguete”, ícone da gastronomia mineira que morreu em dezembro de 2025, aos 73 anos, Vanessa não imaginava que seguiria os passos do pai. Psicóloga por formação, ela começou a empreender oferecendo um café, passou a participar de eventos, mas, durante a pandemia de Covid-19, precisou mudar os planos.

“Quando eu comecei a trabalhar com um produto, comecei a vender esse produto, fazer evento com esse produto. Era um café diferente. E, de repente, veio a pandemia. A gente teve que parar de fazer os eventos”, conta.

Foi então que surgiu uma nova possibilidade. O sogro de Vanessa produzia queijo no interior de Minas Gerais, e ela passou a trazer o produto para vender em Belo Horizonte. A ideia ganhou o nome de Dom Caixeta, referência ao sobrenome da família do marido.

O projeto, porém, não convenceu de imediato o pai. Já afastado do restaurante que o tornou famoso, Bolão acompanhava a movimentação da filha com uma mistura de preocupação e desconfiança. “Ele perguntou se eu estava ficando doida”, lembra Vanessa. “Ele falou: ‘Você tá ficando doida, filha. Mexe com isso não’.”

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Conselho do pai virou receita de sucesso

Apesar da resistência inicial, Bolão acabou sendo um dos principais incentivadores do novo negócio. E foi dele que Vanessa recebeu uma sugestão que ajudaria a alavancar o negócio. “A gente começou a trabalhar com o queijo e ele teve a ideia de acrescentar o pernil ( no pão de queijo), que sempre no Natal, minha família, toda a família, adorava fazer”, conta.

A recomendação era simples: levar a combinação para os eventos. “Ele falava: ‘Vanessa, vai pros eventos, põe o pão de queijo com o queijo e faz um pernil. Vai vender muito’.”

Deu certo. O pão de queijo recheado com queijo e pernil passou a fazer parte do cardápio, com o preparo da carne contando com a ajuda do próprio Bolão. “Ele ajudava a temperar, a gente colocava na casa dele e levava para os eventos”, lembra Vanessa.

Hoje, o Dom Caixeta funciona justamente na antiga casa de Bolão, no coração de Santa Tereza. O endereço, que carrega parte importante da história gastronômica de Belo Horizonte, ganhou uma nova vida sem abandonar as raízes. Vanessa, inclusive, tem planos de fazer o 'cantinho' do Bolão, um memorial com fotos, a camisa do Atlético autografada por Diego  Tardelli, as facas que o pai ganhava de integrantes da banca Sepultura, livros e com outros objetos que fazem parte da história do Rei do Espaguete.

Pratos tradicionais e até rodízio

Pratos tradicionais e novidades fazem parte do cardápio do Dom Caixeta • Luiza Rocha/Itatiaia
Pratos tradicionais e novidades fazem parte do cardápio do Dom Caixeta • Luiza Rocha/Itatiaia

O cardápio do Dom Caixeta inclui o Rochedão (arroz, feijão, batata, bife, ovo e espaguete), o pão molhado, a chapa de ancho grelhado, além de outros pratos criados pelo Rei do Espaguete. “Hoje tem o espaguete do Bolão, que não pode faltar. Ele me ensinou a fazer o molho. Então, assim, é o molho original, lá da origem de quando ele começou”, explica Vanessa.

Às sextas-feiras, o espaço recebe um rodízio de petiscos e pizzas. Entre as opções estão torresmo, pastelzinho, palmito e pizzas preparadas com massas artesanais.

O segredo do famoso molho

Manter o espaguete do Bolão significava preservar também um dos maiores segredos da família: o molho que conquistou gerações de clientes.

Gustavo Caixeta de Paulo, de 42 anos, marido de Vanessa, foi quem recebeu a missão de aprender a receita. No início, porém, Bolão não queria revelar o segredo. “Ele ensinou o segredo do molho e, no primeiro momento que a gente pediu para ele, falou assim: ‘Não, não vou ensinar’”, conta Gustavo.

Com insistência e paciência, Vanessa conseguiu convencê-lo. Gustavo passou a preparar o molho e levá-lo para o sogro experimentar. “Eu fazia, levava para ele experimentar, aí ele ia falando os pontos que ele queria que mudasse.”

Bolão, segundo Gustavo, tinha personalidade forte e não economizava nas críticas. “Ele falava: ‘Ó, isso aqui não tá bom. Isso que tem que mudar’.” Até que um dia veio o teste definitivo. Gustavo entregou o molho para Bolão, que experimentou e não fez nenhuma observação. “Eu falei assim: ‘Opa, chegou no ponto’”, brinca.

O segredo, no entanto, continua protegido.  "É de família há 63 anos”, afirma Gustavo. “O segredo a gente não conta.”

Legado que atravessa gerações

Maria de Fátima, ogarçom Leonardo Lopes e Ana Luíza Torres • Luiz Rocha/Itatiaia
Maria de Fátima, ogarçom Leonardo Lopes e Ana Luíza Torres • Luiz Rocha/Itatiaia

O restaurante também se tornou ponto de encontro para pessoas que conheceram Bolão e acompanharam de perto a transformação do espaço. O garçom Leonardo Lopes dos Santos, de 46 anos, trabalha com a família Rocha há quase três décadas e ficou até o último dia de funcionamento da unidade do Bar do Bolão do casarão histórico da Praça Duque de Caxias, fechada em outubro de 2025.

Leonardo trabalhou por seis anos diretamente com Bolão e, depois do fechamento do tradicional restaurante, foi para o Dom Caixeta. “Estou dando sequência ao legado da Vanessa, maravilhoso”, afirma, lembrando com carinho do período em que trabalhou com o Rei do Espaguete. “Pessoa muito bacana, muito, muito tranquilo de trabalhar. Foram seis anos. Experiência muito boa que eu tive.”

Agora, ele ajuda a manter uma das principais marcas do antigo restaurante: “O espaguete continua. E esse é o espaguete que começou. Esse é o original, espaguete do Bolão mesmo”, diz o garçom, que recomenda ainda a chapa de bife ancho com fritas.

Memória também é afetiva

Maria de Fátima, de 69 anos, conheceu Bolão e foi vizinha dele. Para ela, Vanessa conseguiu transformar a memória do pai em um novo capítulo da história do bairro.

“Santa Tereza é um bairro boêmio, histórico e cultural”, afirma. “A Vanessa, filha do Bolão, tem toda uma tradição de empreendedorismo nessa área de gastronomia.”

Ela lembra que o negócio começou pequeno, com o pão de queijo, e foi crescendo. “Começou isso aqui com um pão de queijo craquelado e foi crescendo, crescendo, crescendo.”

Hoje, Maria considera que o espaço se tornou uma referência para o bairro e para a cidade. “Esse ambiente ficou maravilhoso, atende todo o bairro de Santa Teresa com uma gastronomia de excelência, eventos maravilhosos e toda a BH.”

Orgulho do pai e memórias do avô

Gustavo, Vanessa a filha Giovana • Luiza Rocha/Itatiaia
Gustavo, Vanessa a filha Giovana • Luiza Rocha/Itatiaia

Para Vanessa, uma das maiores recompensas foi ter conseguido mostrar ao pai que o negócio havia dado certo. “Ele ficou muito orgulhoso. Eu acho que, assim, a maior satisfação dele é ver que tava dando certo”, afirma. Para Vanessa, seguir na gastronomia acabou revelando uma característica que sempre esteve presente na família. “Tá no sangue aqui. Não tem como negar. Filha de peixe, peixinho é”, resume.

O legado chegou também à geração seguinte. Giovana Alves Rocha Caixeta, de 12 anos, filha de Vanessa e Gustavo, guarda lembranças do avô e de momentos vividos com ele. “Ele gostava de cantar. Ele cantava, não cantava muito bem, né, mas cantava”, conta, sorrindo.

Giovana também lembra que o avô era atleticano e gostava de cozinhar para a família. Entre todas as receitas, uma ficou especialmente marcada. “O macarrão que ele fazia era muito bom.”

Tradição que continua à mesa

Moradora de Santa Tereza e frequentadora do antigo Bolão, a administradora Ana Luíza Torres, de 39 anos, também virou cliente do Dom Caixeta.

“Nasci em Santa Tereza. Já conheço o bar do Bolão de anos e aí venho aqui agora no Dom Caixeta desde que abriu”, conta, enquanto elogia o rodízio de petiscos oferecido toda sexta-feira. “Tem os pastelzinhos, que as crianças adoram, queijo, carne. Tem o rodízio de pizza também que a gente gosta, os petiscos. Sempre sexta-feira saímos da escola e viemos para cá.”

Para Ana, a fórmula do sucesso combina três ingredientes: “Comida boa, barata e que tem tradição.”

Egberto Neri Fonseca, 50 anos, começou a frequentar o Bar do Bolão ainda jovem, especialmente no fim da noite. Agora, ele também é cliente do Dom Caixeta, desde quando o estabelecimento era apenas um café, e recomenda o prato preferido: “É o Virada Dom, que é um tutu de feijão com banana muito bom”.

Serviço: 

Endereço: Rua Tenente Freitas, 248, Santa Tereza

Segunda a segunda, no almoço, das 10h30 às 15h — somente delivery.

Atendimento ao público na casa onde Bolão viveu: quarta a sexta, das 18h à meia-noite.

Sábado, das 11h30 à meia-noite.

Domingo, das 11h30 às 17h.

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Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.

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Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, é repórter da Itatiaia desde abril de 2023, na equipe de redes sociais. Já passou pela redação do jornal Estado de Minas e assessoria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tem experiência principalmente em vídeos, podcasts e reportagens multimídia.

 

 

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