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BH na China: como a gastronomia belo-horizontina tem sido recebida em feira em Macau?

Festival reúne 48 cidades de 24 países em Macau; além de Belo Horizonte, Paraty (RJ), Florianópolis (SC) e Belém (PA) representam o Brasil na feira gastronômica internacional que ocorre em Macau até domingo (29)

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Feijão/ Divulgação

De Belo Horizonte para a China, com muito tempero e sotaque mineiro: pratos típicos da capital fazem sucesso do outro lado do planeta e conquistam o paladar de Macau - e do mundo. Com bolovo, feijão tropeiro e pudim, BH foi uma das quatro cidades brasileiras que integram International Cities of Gastronomy, que ocorre nesta semana.

O Pirex, representando a nova geração; o Feijão Malleta, o almoço do dia a dia; e o Café Palhares, a tradição de mais de 80 anos de história, embarcaram para experimentar o gosto da culinária local -  onde o apimentado, o doce e o salgado se misturam - e apresentar o torresmo com pão de queijo à la mineira.

Esta é a terceira edição do evento, que reúne lugares reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Cidades Criativas da Gastronomia - título que BH tem desde 2019. Paraty (RJ), Florianópolis (SC) e Belém (PA) completam o time brasileiro, junto com outras 44 cidades de 24 países, em uma valorização das identidades.

Com o fuso horário 11 horas à frente da capital mineira, os representantes conversaram com a Itatiaia sobre a escolha dos pratos, a receptividade e as diferenças e semelhanças culturais.

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• Feijão/ Divulgação
• Feijão/ Divulgação

Caldo de feijão sabor feijoada

O Feijão, conhecido pelo self-service sem balança, culinária simples, farta e caseira, na varanda da Avenida Augusto de Lima, no Centro, escolheu a culinária com foco, claro, em pratos à base de feijão - em referência ao próprio nome.

“A gente queria trazer a feijoada, que é o prato mais famoso com feijão e que já rendeu um prêmio para a gente em 2025, mas achamos pesado servir a versão completa. Então, fizemos um caldinho de feijão preto com sabor de feijoada”, explicou Fernanda Abdallah, uma das sócias, destacando que foi necessário adaptar as receitas ao formato do evento. A ideia foi apostar em versões mais leves e práticas, já que o público opta por experimentar pequenas porções em diferentes estandes.

Entre as opções salgadas, não podia faltar o tropeiro. Para o doce, a escolha foi inspirada no clássico Romeu e Julieta, adaptado para os ingredientes de lá. “Como ia ficar mais complicado trazer o queijo. Levamos a goiabada e fizemos um creme de queijo com produto local para representar essa combinação.” A experiência mineira é completada com café coado na hora.

Fernanda conta que as diferenças entre as duas gastronomias chamam atenção: os pratos asiáticos não costumam ser nem muito salgados nem muito doces, mas frequentemente combinam os dois elementos. A maioria dos pratos “salgados” tem um toque de doce, é bem agridoce e bastante apimentada.

Para quem está acostumado à base tradicional da culinária brasileira, com alho, sal e cebola, a experiência pode causar estranhamento inicial. “Dá uma enjoada, sabe? Mas é gostoso. É diferente”, afirmou. As particularidades também aparecem nos hábitos do dia a dia, como no café da manhã. “No hotel tem sopa todos os dias, macarrão, arroz, feijão… É uma baita refeição logo cedo”, contou.

Bolovo marinado no shyu

• Pirex/ Divulgação
• Pirex/ Divulgação

Vitor Velloso, um dos proprietários do Pirex, criado em 2021, contou que ser escolhido é “parecido com a sensação de ser convocado pra jogar uma Copa”.

O Pirex buscou unir seus pratos populares do badalado bar Galeria São Vicente, na Raul Soares, ao paladar asiático. “Demos alguns pequenos toques para oferecer um ponto de encontro entre as culturas para os clientes da feira. É o caso do nosso bolovo, que aqui ganhou uma marinada de shoyu, muito usual na Ásia. Ou no gergelim que entrou no pão de queijo com doce de leite, fazendo contraponto ao dulçor.”

Macau, como o Brasil, foi colônia portuguesa e tem mais em comum do que muita gente pensa. “Então as semelhanças saltam aos olhos em vias calçadas com pedras portuguesas, nas ruas com nomes em português… às vezes até esquecemos que estamos tão longe do Brasil. Também na gastronomia, a herança portuguesa nos une”, contou. Já a maior diferença fica por conta do grau de picância.

Ele contou que, ao abrir o estande nos últimos dias, já havia pessoas esperando para comprar pão de queijo, moela e bolovo. “Temos tido dificuldade em atender toda a demanda. Isso tem sido motivo de muita alegria (e muito trabalho também) para nossa equipe”, disse.

Prexeca e pudim

 

• Bernardo Cançado/ @oncevaibh
• Bernardo Cançado/ @oncevaibh

André Palhares representa o avô, o pai e o tio como terceira geração do tradicional e clássico Café Palhares, fundado em 1938, conhecido pela KAOL - que dispensa apresentações.

“Nós não podíamos levar o KAOL porque é um prato muito grande, com seis ingredientes diferentes e que demandaria muito trabalho”, explicou. No lugar, foram selecionados três pratos: o pudim de leite condensado - que tem sido um sucesso, de acordo com André -, o sanduíche de pernil e o bolinho de carne.

“Escolhemos o sanduíche de porco, já tradicional no Palhares, porque o público local gosta muito desse tipo de carne. Também levamos o bolinho de carne, o ‘prexeca’, mas com uma adaptação: em vez de carne bovina, usamos um blend de porco para agradar o paladar macaense e representar a linguiça do KAOL, feita diariamente na casa.”

Ele contou que o clima por lá é de festa e muita troca. “Há uma união muito grande, com troca de experiências e conversa. Ao fim de cada dia, quem costuma ficar junto, tomando uma cerveja e conversando, são os latino-americanos. Outros países, como China, Tailândia e Benin, também participam, mas, por diferenças culturais e de idioma, essa troca não é tão forte quanto entre brasileiros e latino-americanos” contou.

Como chegaram até lá? 

O presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte  (Belotur), Eduardo Cruvinel, que também embarcou para Macau, destacou que é a segunda participação da capital mineira e ocorreu por meio de uma chamada pública lançada pela organização, aberta aos locais que integram a rede Cidades Criativas da Gastronomia  e se candidatam às vagas disponíveis.

''No caso de Macau, houve ainda uma estratégia de valorização de cidades com herança cultural portuguesa, o que favorece a seleção de destinos que compartilham vínculos históricos, gastronômicos e linguísticos. Essa diretriz também se reflete no formato do evento, que é realizado em três idiomas: cantonês, inglês e português", disse.

No primeiro fim de semana a  comida de belo-horizontina foi destaque, com pratos esgotados."O tempero marcante e a forma acolhedora de interação com os visitantes contribuíram para o sucesso das operações, com os pratos se esgotando antes mesmo do encerramento diário da feira",contou.

O International Cities of Gastronomy 2026 começou no dia 20 de março e termina no próximo domingo (30).

• Oncêvai/ Bernardo Cançado
• Oncêvai/ Bernardo Cançado
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Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.