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Por que alguns atletas perdem a confiança depois de uma lesão?

Receio de sofrer outra lesão pode influenciar o comportamento do atleta durante a recuperação e no retorno às atividades

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Corredor sentindo dores ao correr
Corredor sentindo dores ao correr • Freepik/Magnific

Uma lesão pode afetar mais do que a condição física de um atleta. O período afastado das atividades e o medo de uma nova contusão também podem interferir na confiança para executar movimentos que antes faziam parte da rotina. Segundo o professor Franco Noce, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a lesão pode alterar a percepção de competência e de previsibilidade do próprio corpo.

Movimentos que antes eram automáticos podem passar a ser interpretados como ameaçadores. A dor, o medo de uma nova lesão, a perda de condicionamento físico e o tempo longe do esporte também podem reduzir a autoeficácia, que representa a confiança do atleta na própria capacidade de realizar determinada tarefa.

A literatura científica aponta que o medo de uma nova lesão e a cinesiofobia, caracterizada pelo receio excessivo de realizar movimentos por medo de sentir dor ou sofrer outra lesão, estão associados a piores resultados funcionais e de retorno ao esporte em determinadas populações lesionadas.

O corpo passa a ser visto com desconfiança

Antes da lesão, o atleta costuma executar determinados movimentos sem pensar sobre cada etapa. Depois da contusão, ações simples podem provocar dúvidas e receios.

“Antes da lesão, o atleta confiava no corpo sem pensar muito. Depois, um movimento simples pode vir acompanhado da pergunta: ‘será que vai machucar novamente?’”, explica Noce.

A mudança ocorre porque a experiência da lesão pode fazer com que o atleta associe determinados movimentos à dor ou ao risco de uma nova contusão. Assim, mesmo após a recuperação física, a confiança para executar aquela ação pode não retornar no mesmo ritmo.

A recuperação de uma lesão não depende apenas do fortalecimento muscular ou da retomada do condicionamento. A reabilitação também precisa ajudar o atleta a recuperar a segurança para utilizar o próprio corpo.

“Parte da reabilitação é devolver ao atleta evidências de que seu corpo consegue novamente realizar aquelas tarefas”, afirma Noce.

A realização progressiva dos movimentos permite que o atleta perceba, na prática, que determinadas ações podem voltar a fazer parte da rotina. Esse processo ajuda a reduzir o medo e pode contribuir para a retomada da confiança.

Medo de nova lesão pode dificultar o retorno

O receio de sofrer outra lesão pode influenciar o comportamento do atleta durante a recuperação e no retorno às atividades. A cinesiofobia pode levar à redução dos movimentos e à dificuldade para executar determinadas tarefas com a mesma segurança de antes.

Uma revisão sistemática publicada no British Journal of Sports Medicine analisou a relação entre fatores psicológicos e o retorno ao esporte após lesões musculoesqueléticas. Os resultados reforçam a importância de considerar aspectos como medo de uma nova lesão e confiança no processo de recuperação.

Por isso, o retorno ao esporte precisa considerar tanto a recuperação física quanto os aspectos psicológicos envolvidos na retomada. Recuperar a capacidade de executar um movimento é uma etapa importante, mas confiar novamente no próprio corpo também faz parte desse processo.

Quem é Franco Noce?

Franco Noce é professor associado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Psicobiologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e mestre em Ciências do Esporte pela UFMG. Graduado em Educação Física e Psicologia, coordena a Psicologia do Esporte do Centro de Treinamento Esportivo da universidade e atua na preparação psicológica de atletas de alto rendimento. Também possui experiência com seleções nacionais e equipes esportivas, além de ter ocupado cargos na Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte (ISSP) e na Associação Brasileira de Estudos em Psicologia do Esporte e do Exercício (ABEPEEx).

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Jornalista em formação pelo UniBH, com passagem por Diário do Comércio e Secretaria de Estado do Governo de Minas. Experiência em jornalismo econômico e esportivo, área pela qual é apaixonada.

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