''O Agente Secreto’’ conquistou o público e virou um dos filmes brasileiros mais comentados dos últimos tempos, ajudando a levar o cinema nacional para o mundo. Premiado em Cannes e no Globo de Ouro e apontado como um dos favoritos do Brasil para o Oscar 2026, o longa dirigido por Kleber Mendonça Filho conta com
Natural de Pirapora, às margens do Rio São Francisco, na Região Norte de Minas Gerais, Fred Burle foi um dos coprodutores de “O Agente Secreto”. Formado em arquivologia pela Universidade de Brasília, seu foco inicial foi conservação e restauração fílmica.
Ele passou a gravar curtas-metragens e documentários em matérias optativas de outros cursos, mas a carreira como produtor foi construída na Europa, onde vive há 15 anos.
“Veio a oportunidade de me mudar para Berlin, na Alemanha. Tive que aprender o alemão. Fui para lá porque eu queria estudar, especificamente, produção. Ali eu fui fazendo outros curtas-metragens, veio o primeiro longa como conclusão de curso na Academia de Cinema Alemã, e pronto”, relatou Burle à Itatiaia, que hoje é cofundador da empresa One Two Films.
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Reencontro com as próprias raízes
Ele contou que sua participação em “O Agente Secreto” partiu de uma conversa com um amigo durante o Festival de Berlin de 2024.
“Um grande amigo que é coprodutor francês do filme me contou sobre o projeto e disse que eles estavam procurando um terceiro país para adicionar na estrutura de financiamento. Eu disse imediatamente que tinha interesse, que conhecia todos os trabalhos do Kleber. E deu tudo certo. Estou muito honrado em fazer parte desse projeto”, declarou.
Ele contou que essa é a primeira que tive a oportunidade de fazer uma coprodução com o Brasil. “Então não só é um filme importante, uma história e um roteiro incríveis, mas, pra mim, pessoalmente, significa a volta às raízes, me reconectar com minha essência. É um filme que fala sobre nosso país, é um retrato do que é o Brasil. Que bom que as pessoas estão dando visibilidade e fazendo conexões com os dias de hoje”.
Corrida contra o tempo para Cannes
Burle surpreendeu ao relatar que, apesar da grandiosidade e do alcance do filme, os desafios enfrentados ao longo do desenvolvimento foram mínimos.
“Não tivemos tantos obstáculos. Foi uma produção tranquila. A maior correria foi mais perto de Cannes para poder terminar o filme a tempo. Lembro que a gente entregou o material pronto uma semana antes do festival”, contou.
A obra teve sua estreia mundial no dia 18 de maio de 2025, na França, onde foi ovacionada por 15 minutos. No Brasil, o lançamento ocorreu em 6 de novembro e segue nas salas de cinema após mais de dois meses.
Ele também elogiou a direção de Kleber Mendonça Filho: “Gosto de definir o filme como um mosaico do país porque é um filme cheio de detalhes, extremamente meticuloso. O Kleber foi muito preciso em suas pesquisas junto com toda a equipe, direção de arte, figurino, foi todo mundo muito cuidado nas escolhas para ser fiel ao seu tempo. Kleber tem uma forma de contar história que eu não vejo em outras pessoas. É só dele e isso faz o filme ser diferente. Ele é muito merecedor”.
‘Novo boom’ do cinema brasileiro
Para Fred, o audiovisual brasileiro está em um dos seus melhores momentos, assim como foi na década de 70 e, depois, na retomada, com Central do Brasil (1998), de Walter Salles, por exemplo.
“A gente está voltando agora. Isso prova que um governo democrático, que dá valor à cultura, é tão importante. Voltamos a fazer um cinema que não deve nada para ninguém”, brincou.
Ele mencionou que o sucesso de “Ainda Estou Aqui” (2024), também de Walter Salles, vencedor de grandes premiações no ano passado, abriu portas para o reconhecimento do cinema e da história do Brasil.
“Ele pavimentou o caminho para que as pessoas acordassem para a qualidade do cinema. É inegável a contribuição que aquele filme deu para o cinema brasileiro. A gente precisa batalhar muito para ter essa visibilidade”, destacou.
“O cinema brasileiro é o momento, mas nenhum filme é o momento por si só. É sempre um monte de filmes juntos. O cinema é coletividade”, refletiu Burle ao citar outras obras nacionais, entre elas, “O Último Azul” (2023), de Gabriel Mascaro; “MANAS” (2024), de Marianna Brennand Fortes; “Oeste Outra Vez” (2023), de Erico Rassi; e “Homem com H” (2024), de Esmir Filho.
De olho no Oscar
Pela trajetória sólida em festivais e premiações internacionais, o coprodutor também comentou sobre a possibilidade de “O Agente Secreto” chegar ao Oscar 2026.
Vale lembrar que a produção é a candidata para representar o Brasil na cerimônia, que terá as indicações reveladas no dia 22 de janeiro. Segundo ele, é importante agir com cautela e otimismo neste momento.
“Um dia de cada vez e cada dia é um trabalho novo de divulgação do filme. É muito importante que os membros votantes assistam. A vitória no Globo de Ouro ajuda muito porque traz mais visibilidade. Tomara que a Academia e mais pessoas assistam e votem na gente”, ressaltou.
“Já estamos no lucro. Tudo que a gente quer quando fazemos filme é que o filme seja visto, e isso já está acontecendo. Tô na torcida, como toda a equipe está. Estamos muito felizes”, concluiu Burle.
Elenco mineiro
Não é só nos bastidores que os mineiros marcam presença. No elenco, os veteranos Carlos Francisco e Wilson Rabelo, além de Laura Lufési, que faz sua estreia no cinema, contracenam com Wagner Moura em um elenco primoroso.
Em outubro do ano passado, a Itatiaia conversou com os três, quando o filme ainda nem havia sido lançado.