O mais apegado à tradição da geração de músicos que despontou na década de 70, Paulinho da Viola nem por isso deixou de inovar em sambas como “Roendo as Unhas”, “Para Ver as Meninas” e “Sinal Fechado”, hino contra a ditadura militar no auge da censura, que ganhou uma interpretação emblemática e deu nome a disco de Chico Buarque, lançado em 1974.
Filho de César Faria, histórico violonista do conjunto de choro Época de Ouro, Paulinho, desde cedo, reverenciou o passado em suas composições, sem perder de vista o olhar para o presente. Como ele mesmo diz: “Meu tempo é hoje”. Em 1965, ele participou de discos com Araci Cortes, Clementina de Jesus e os conjuntos Rosa de Ouro e A Voz do Morro, já chamando a atenção dos bambas de outrora para o talento do jovem rapaz com sua viola. Tanto que o compositor Batatinha nomeou Paulinho da Viola o “Ministro do Samba”.
Em 1966, Paulinho da Viola gravou, com Elton Medeiros, o disco “Samba na Madrugada”, que já trazia futuros clássicos da música brasileira, como a confessional “14 Anos”, em que Paulinho falava da relação com o pai. Na sequência, ele lançou o seu primeiro disco solo e, em 1970, estourou com “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”.
Portelense apaixonado, a música era uma reconciliação com a escola de seu coração, depois que, a pedido de Hermínio Bello de Carvalho, ele criou a melodia de “Sei Lá Mangueira”, sucesso de 1968 na voz de Elza Soares. Era só o início de uma carreira de sucessos, marcada por um estilo que não abria mão da simplicidade para impor sua sofisticação. Considerado um filósofo da música brasileira, atento às coisas essenciais, Paulinho da Viola nunca pecou pelo excesso, ao contrário, e sua discografia enxuta e pontual é prova disso.
Entre os inúmeros hits de sua carreira, destacam-se músicas como “Timoneiro”, “Argumento”, “Coração Leviano”, “Pecado Capital”, “Onde a Dor Não Tem Razão”, “Dança da Solidão”, “No Pagode do Vavá” e tantos outros, numa mistura única de samba, choro e MPB. Paulinho também se habituou a registrar versões impecáveis para clássicos de Nelson Cavaquinho, Cartola, Monarco, Lupicínio Rodrigues e tantos outros, que ele sempre reverenciou.
Aos 80 anos, esse mestre discreto e humilde da música brasileira segue sem pressa, trabalhando suas composições com o mesmo cuidado e zelo da marcenaria e do jogo de sinuca, outras de suas paixões, que ensinam que a métrica e o ritmo são o caminho certo para chegar ao essencial.