Ouça a rádio

Compartilhe

Pesquisa indica que oxímetros de dedo são racistas 

Dispositivos superestimam níveis de oxigênio em negros, latinos e asiáticos e isso pode ter custado muitas vidas em hospitais

Dispositivos oferecem resultados imprecisos dependendo da etnia do paciente

Uma pesquisa publicada no Journal of American Medical Association (Jama) aponta que medições imprecisas de oxímetros de dedo afetaram o tratamento de pacientes de covid-19 nos hospitais. Isso porque esses pequenos dispositivos que medem a quantidade de oxigênio no sangue geralmente superestimam o volume de oxigênio em pacientes negros e latinos. Em 2020, um estudo apresentado no New England Journal of Medicine (NEJM) demonstrou que, em negros, essa taxa podia ser até três vezes maior que o real.

Essas leituras incorretas levavam os pacientes negros a esperarem até uma hora a mais por atendimento que os brancos — e muitos foram informados de que não precisavam de tratamento. Os cientistas não sabem o que houve com eles, mas acreditam que essa pode ser uma das razões para que negros tenham tido resultados piores perante a doença, independentemente de fatores socioeconômicos.

O levantamento foi liderado por Ashraf Fawzy e Tianshi David Wu, pneumologistas do Johns Hopkins e Baylor College of Medicine, respectivamente. “Nós dois cuidamos de doentes críticos em UTIs de covid-19 e sempre ficávamos surpresos com a variação e a diferença entre as medições do oxímetro e a gasometria arterial” diz Wu.

Os oxímetros de dedo são dispositivos simples de usar que, colocados no dedo do paciente, permitem monitorar sua evolução. Já a gasometria arterial, que é mais precisa, requer o uso de sangue retirado do pulso — um procedimento bem dolorido — e o tempo necessário de processamento da amostra. A cada nova avaliação do doente, é preciso retirar sangue novamente. Os oxímetros, então, oferecem um certo grau de precisão e têm a facilidade de uso a seu favor.

A pesquisa publicada no Jama coletou dados de mais de 7 mil pacientes de covid-19 que passaram pelo Sistema de Saúde Johns Hopkins, em Baltimore. Para cerca de mil deles foram usados dados de oxímetros e de gasometria. Os pesquisadores notaram o quão imprecisos são os dados do oxímetro de dedo e criaram um modelo para estimar o quão erradas as medidas estavam para os demais 6 mil pacientes.

Ficou claro que, para doentes brancos, os resultados do oxímetro eram precisos, mas para negros, latinos e asiáticos um erro de 1% a 2% era frequente. Embora pareça pouco, Wu diz que isso é crítico. 

Para um paciente ser classificado como covid ou covid severa a diferença pode ser justamente um ponto percentual — na saturação entre 93% e 94%. “Quando as recomendações de tratamento são baseadas nesses limites, esse ponto de inflexão pode abranger muitas pessoas em nível populacional, já que o número total de doentes nos EUA foi muito alto”, diz Wu. “Em termos do número de afetados, isso foi bastante amplo.”

Necessidade de tratamento não identificada

A partir dos dados, fica claro que 451 dos 7.126 participantes precisavam de tratamento, mas os médicos não identificaram a necessidade à época. A maioria deles era composta por negros (55%), seguidos de latinos (27%). Por outro lado, apenas ⅕ dos pacientes brancos enfrentaram demora no diagnóstico.

A explicação está, provavelmente, na forma como os oxímetros de dedo funcionam. Eles fazem luz atravessar a pele para analisar o sangue, mas há muitas variáveis envolvidas nessa técnica. “A pigmentação da pele, a cor do esmalte nas unhas, qualquer fator que possa mudar a absorção das ondas de luz afeta a precisão do aparelho,” explica Wu.

Essa falha é conhecida pela comunidade científica. Em 2020, a Administração de Alimentos e Medicamentos (Food and Drug Administration – FDA) dos EUA publicou um alerta sobre o assunto. Isso não impediu, entretanto, que muitos comprassem um oxímetro de dedo durante a pandemia — eu mesma comprei um —, muito menos fez os médicos pararem de usá-los ou indicá-los.

Para Wu, isso não foi divulgado ao público em geral. “Não apenas a imprecisão, mas o preconceito, que insiste em dizer a alguém que negros e minorias étnicas e raciais são mais saudáveis do que pensam. Isso realmente mascara a gravidade subjacente da doença nessa situação.”

A solução deve ser tecnológica

Se está claro que o oxímetro de dedo superestima os níveis de oxigênio para certos grupos, os médicos não poderiam compensar? Wu destaca que muitos sugeriram isso, mas ele não acredita que essa “correção racial” deveria existir em uma medição quantitativa de uma ferramenta de diagnóstico. “A solução real é tecnológica”, pondera. “Deixamos para as empresas de dispositivos descobrirem como projetar uma solução.”

A Co.Design procurou vários fabricantes de oxímetros de dedo para saber quais são as metodologias de teste para esses dispositivos e se elas são validadas igualmente entre raças e etnias. Apenas a Medtronic respondeu: a companhia aponta que a FDA exige que apenas 15% dos participantes dos testes tenham pele escura para validar os dispositivos, mas que, para produtos futuros, a empresa já reconsidera essa abordagem.

A fabricante indica que nos testes para a nova versão de seu dispositivo Nellcor, foram incluídos até 40% de pacientes com pigmentação de pele escura. “Para garantir que nossa tecnologia funcione conforme pretendido para todas as populações”, ressalta Frank Chan, presidente de monitoramento de pacientes da Medtronic. 

Wu atualmente trabalha em um estudo de acompanhamento para verificar se aqueles que tiveram o tratamento de covid-19 atrasado ou foram informados de que não precisavam de atendimento especializado tiveram resultados piores de saúde.

Fonte: Fast Company

Leia Mais

Mais lidas

Ops, não conseguimos encontrar os artigos mais lidos dessa editoria

Baixar o App da Itatiaia na Google Play
Baixar o App da Itatiaia na App Store

Acesso rápido