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Profissionais da área da saúde debatem sobre os tratamentos de transtornos mentais graves

Cuidados especiais precisam ser tomados em casos graves

De acordo com a organização mundial de saúde, cerca de 720 milhões de pessoas sofrem com doenças mentais em todo o mundo, algo em torno de 10% da população mundial.

Trazendo essa porcentagem para Minas Gerais, principalmente em BH, fica uma preocupação se o que é oferecido para o público consegue dar conta da demanda. Na capital mineira, após o fechamento do Centro Psiquiátrico Galba Veloso, o local de referência gratuito é o Hospital Raul Soares, que em situações mais graves tem, em média, 15 dias de internação para o paciente. O ponto de atendimento é um dos 8 centros de referência em saúde mental da cidade.

Fernando Siqueira é gerente de saúde mental da prefeitura de BH explica o atendimento nesses locais. 

“A pessoa com transtorno mental grave vai ser acolhida nos CERSAMs, podendo chegar lá, por exemplo, pelo Samu, bombeiros, polícia militar ou sendo encaminhada de uma UPA, de algum hospital ou até mesmo do centro de saúde. Ela será acolhida por uma equipe multiprofissional, incluindo psiquiatras, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos e assistentes sociais que vão avaliar o quadro da pessoa, e, a partir disso, fazer um projeto terapêutico singularizado que vai ser avaliado por essa equipe, pela própria pessoa e pela família para considerar se ela precisa ficar integralmente, ou seja, em hospitalidade noturna e permaneça durante o dia, ou ficar nas diversas modalidades de tratamento que a gente tem disponíveis, como a permanência em alguns dias da semana ou em ambulatório crise, que é quando o paciente vai 1, 2 vezes na semana para ser avaliado e checar se o quadro está melhorando ou não a partir daquele tratamento”, explica.

Na região oeste da capital existe um centro de referência para atendimento psiquiátrico que presta serviço, principalmente, no âmbito particular, mas, dependendo dos casos e da condição financeira do paciente, há também a possibilidade de tratamento gratuito. Pedro Rezende Tanajura, diretor técnico do Hospital Espírita André Luiz, fala sobre este serviço prestado ali. 

“Nós temos o hospital com o pronto atendimento, internação e com ambulatório. No pronto atendimento existe uma triagem que o enfermeiro avalia ali as necessidades de atendimento de cada paciente. De acordo com o grau de urgência, pacientes com quadros mais graves vão precisar de atendimento mais rápido. Um médico psiquiatra vai realizar esse atendimento e definir a conduta e o tratamento a ser seguido, seja medicar o paciente no pronto atendimento ou encaminhá-lo para o ambulatório ou internação”, conta.

Outro campo delicado que envolve o portador de transtorno mental, tem a ver com a esfera criminal. Esquizofrênicos e bipolares podem cometer atos violentos no rompante, desde uma ameaça até o próprio homicídio consumado. O tratamento deve ser diferenciado, a parte médica deve ser tão importante como a jurídica. Em Minas Gerais, o Tribunal de Justiça tem o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário Portador de Sofrimento Mental (PAI-PJ), uma espécie de ponte entre esses dois mundos. Romina Magalhães Gomes é coordenadora técnica do programa e explica mais sobre o projeto criado no ano 2000. 

“Essas pessoas muitas vezes são sentenciadas com medida de segurança e precisam responder à justiça pela via de um tratamento na rede pública de saúde mental. Então o PPJ tem a função de um dispositivo conector, que realiza essa conexão do sujeito ao tratamento, a cidade e a justiça. Para que uma pessoa receba uma medida de segurança, ela necessariamente tem que ter sido considerada, por uma junta de psiquiatras, como inimputável no chamado exame de sanidade mental. Às vezes, no curso do processo, a pessoa é presa e permanece até receber a sentença, quando esta é a medida de segurança, ela não pode seguir presa, ela precisa se tratar, então promovemos a inserção na rede pública de saúde mental”, ressalta.

No interior de Minas, especialistas garantem que faltam hospitais de referência e leitos, mesmo com esforço do Poder Público para amenizar a situação. De acordo com a Secretaria de Saúde, 80% dos municípios possuem leitos para a saúde mental, e uma reforma no Hospital Raul Soares, avaliada em 21 milhões de reais, aumentou de 79 para 116 leitos. 

Muita coisa ainda deve ser feita em BH, que é referência estadual para o tratamento. Paulo José Teixeira é médico especialista em psiquiatria, psicoterapia e mestre em ciências da saúde. Ele avalia o atendimento na cidade e cita as falhas ainda existentes. 

“Eu acho que faltam estruturas de internação importantes e internações breves, sejam em hospitais psiquiátricos modernos ou em unidades psiquiátricas do hospital geral. Falta entender que o doente mental custa dinheiro para tratar, você não pode priorizar, por exemplo, outras patologias em detrimento do doente mental. Os profissionais precisam ser melhor formados. As estruturas, prédios e edificações tem que ter uma qualidade adequada para atender o paciente, que muitas vezes fica em estruturas arquitetônicas completamente defasadas”, questiona.

Pedro Rezende Tanajura, do Hospital André Luiz, tem um raciocínio similar. 

“A parte de internação pode melhorar muito porque, muitas vezes, esses centros de tratamento não possuem vagas suficientes para a demanda que existe, e eu acredito que isso vem de uma política de desinvestimento em saúde mental. Como é um tema um pouco espinhoso, dado o nosso histórico em Minas Gerais, de Barbacena, é um tema que muitos grupos têm receio de abordar e, às vezes, de investir e trazer de volta uma coisa que ninguém quer que aconteça novamente”, comenta.

Ao citar a cidade de Barbacena o diretor do André Luiz dá uma dica do próximo capítulo nesta série: a luta anti-manicomial, celebrada na semana passada, ela divide opiniões e deve sim ser comentada, o que será feito amanhã. Para acompanhar o primeiro episódio da nossa série especial, clique neste link.

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