Ar-condicionado deixa de ser luxo e impulsiona novo ciclo de crescimento no Brasil
Roberto Yi, presidente da Daikin, explica que o ar-condicionado passou a ocupar espaço na rotina e fala sobre o potencial de crescimento do mercado

O mercado brasileiro de climatização vive um momento de transformação. Com avanço tecnológico, maior eficiência energética e mudanças no comportamento do consumidor, o ar-condicionado passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante na rotina de residências, empresas e indústrias.
No Itatiaia Negócios Cast, Roberto Yi, presidente da Daikin Brasil, explica como o setor evoluiu nos últimos anos, detalha os desafios da produção nacional, comenta o crescimento acelerado do mercado e analisa o impacto da tecnologia inverter no consumo de energia.
Ao longo da entrevista, o executivo também fala sobre qualidade do ar, regulamentação do setor, liderança global, gestão de pessoas e os desafios de equilibrar tecnologia, eficiência e custo-benefício no mercado brasileiro.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Olá, eu sou Leonardo Bortoletto. Você está no Itatiaia Negócios Cast, plataforma de comunicação criada pelo grupo Itatiaia para poder levar até você o mundo dos negócios de maneira simplificada e inteligível. Hoje aqui comigo, Roberto Yi, presidente da Daikin no Brasil. Roberto, muito obrigado pela sua presença.
Roberto Yi: Muito obrigado. Eu que agradeço o convite. Acabo de chegar de São Paulo diretamente para dar esta entrevista.
Leonardo Bortoletto: E você está sendo muito bem recepcionado. Obrigado por passar primeiro na Itatiaia para se apresentar ao mercado mineiro.
Roberto Yi: O Itatiaia é um canal muito importante, com uma audiência muito grande. Hoje vamos ter um evento de inauguração. Então, nada melhor do que, nesse intervalo de tempo, passar aqui, dizer um oi e explicar um pouco da nossa empresa.
Leonardo Bortoletto: Explica para quem ainda não conhece a Daikin e por que ela está em Minas Gerais hoje.
Roberto Yi: Somos uma empresa japonesa, com tecnologia japonesa. Completamos 100 anos no ano passado e somos uma empresa que fabrica ar-condicionado residencial, comercial e industrial. Vou dizer que somos líderes mundiais de faturamento no setor de climatização. Nós dedicamos 95% dos nossos negócios à fabricação de soluções de climatização. Os outros 5% envolvem química e metalurgia, mas não são o nosso grande foco hoje. Estou em Belo Horizonte porque vamos inaugurar um centro de treinamento. O ar-condicionado não é apenas um aparelho que você liga na tomada. Ele precisa de uma boa instalação. Então, esse centro vai treinar técnicos de Belo Horizonte e Minas Gerais para que o serviço seja executado com a qualidade que o consumidor merece.
Leonardo Bortoletto: Falando sobre liderança global, queria entender sua formação e sua trajetória antes da Daikin.
Roberto Yi: Apesar de falar português, eu sou coreano. Vim para o Brasil com 7 anos de idade. Depois da universidade, resolvi voltar para a Coreia para conhecer melhor a terra dos meus pais. Lá entrei em uma multinacional coreana do setor de climatização e trabalhei por 20 anos. Inclusive, fui enviado ao Brasil pela empresa durante alguns anos. Também trabalhei na Argentina, Panamá e em outros países da América Latina. Depois desses 20 anos, fui chamado pela Daikin porque eles buscavam uma pessoa com experiência na América Latina para ajudar a empresa a crescer no mercado brasileiro.
Leonardo Bortoletto: Como funciona hoje a composição da Daikin globalmente?
Roberto Yi: Hoje a Daikin é uma empresa listada no Japão e está entre as maiores multinacionais japonesas. A marca é muito forte em regiões como Europa, Ásia, China e Estados Unidos. No Brasil estamos há 15 anos. Nosso foco também sempre foi muito forte na área comercial e industrial. Então, ainda estamos trabalhando para ampliar a exposição da marca junto ao consumidor brasileiro.
Leonardo Bortoletto: E qual é o público consumidor da Daikin hoje?
Roberto Yi: Todos os segmentos. Temos produtos residenciais fabricados em Manaus, em uma fábrica com quase 20 mil metros quadrados. Já os produtos comerciais e industriais vêm de outras unidades globais da Daikin, como Japão e Itália. Nossa liderança é mais forte no setor comercial e industrial, mas sabemos que o mercado residencial brasileiro tem enorme potencial. Hoje a penetração do ar-condicionado no Brasil gira em torno de 20%, mas mesmo assim já é um dos maiores mercados do mundo, com mais de 6 milhões de aparelhos vendidos por ano.
Leonardo Bortoletto: Apenas 20%?
Roberto Yi: Apenas 20%. Isso significa que o mercado ainda pode crescer muito. Há 15 anos, essa penetração era menor que 5%. O consumidor passou a enxergar o arcondicionado de outra forma. Hoje ele deixou de ser visto apenas como luxo e passou a ser entendido como conforto e necessidade.
Leonardo Bortoletto: O que impulsionou esse crescimento?
Roberto Yi: Muito do conforto que o equipamento proporciona. Antigamente existiam os aparelhos de janela, barulhentos e pouco eficientes. Depois vieram os splits, que trouxeram mais conforto e melhor desempenho. A partir daí, as pessoas começaram a perceber a diferença de produtividade e qualidade de vida em ambientes climatizados.
Leonardo Bortoletto: E a tecnologia inverter mudou tudo?
Roberto Yi: Mudou bastante. Antes os compressores ligavam e desligavam constantemente. Isso gerava muito consumo de energia. Com a tecnologia inverter, o compressor trabalha com frequência variável. Ele reduz a rotação quando atinge a temperatura desejada e evita aqueles picos de consumo. A Daikin foi uma das pioneiras nessa tecnologia.
Leonardo Bortoletto: É difícil equilibrar avanço tecnológico e custo acessível?
Roberto Yi: A tecnologia precisa trazer benefício real ao consumidor. Não apenas conforto, mas economia de energia e retorno financeiro. Normalmente conseguimos calcular em quanto tempo o consumidor recupera o investimento pela economia gerada na conta de energia. Geralmente isso acontece em dois ou três anos.
Leonardo Bortoletto: E a qualidade do ar?
Roberto Yi: Hoje é uma preocupação muito maior. Trabalhamos com filtros especiais, renovação do ar e tecnologias específicas para melhorar a qualidade dos ambientes climatizados. Depois da pandemia, isso ficou ainda mais evidente.
Leonardo Bortoletto: Produzir no Brasil é competitivo?
Roberto Yi: Sim, é competitivo. Claro que temos desafios relacionados à cadeia de fornecedores e aos componentes importados. Mas acredito que o Brasil ainda pode melhorar muito em competitividade e qualidade da produção.
Leonardo Bortoletto: Qual será o próximo grande movimento do setor?
Roberto Yi: A entrada de novas marcas internacionais e o crescimento acelerado do mercado brasileiro. Hoje o mercado vende cerca de 6 milhões de aparelhos por ano, mas existem estudos indicando potencial para chegar a 30 milhões nos próximos anos. Outro movimento será o aumento das exigências de eficiência energética.
Leonardo Bortoletto: Vamos ao Raio X. Tecnologia ou custo-benefício?
Roberto Yi: Os dois. A tecnologia precisa trazer custo-benefício.
Leonardo Bortoletto: Eficiência energética ou preço mais baixo?
Roberto Yi: Eficiência energética, porque ela reduz o custo ao longo dos anos de uso.
Leonardo Bortoletto: Crescimento rápido ou sustentável?
Roberto Yi: Crescimento sustentável.
Leonardo Bortoletto: Pergunta de ouro: o brasileiro olha mais o preço ou já começou a se preocupar com eficiência energética?
Roberto Yi: Ainda olha mais o preço. Talvez sete em cada dez consumidores. Mas isso vem mudando bastante.
Leonardo Bortoletto: E por que o ar-condicionado ainda parece artigo de luxo para muita gente?
Roberto Yi: Porque muitos ainda enxergam outros produtos como prioridade. Mas o arcondicionado hoje também entrega qualidade do ar e eficiência energética. Nossos produtos atuais, por exemplo, podem gastar menos energia que um ventilador elétrico dependendo do tempo de uso.
Leonardo Bortoletto: Agora temos uma pergunta enviada por Marco Túlio, presidente da Ana Gaming.
Marco Túlio: Como vocês têm trabalhado o modelo híbrido e remoto dentro da empresa?
Roberto Yi: Depois da pandemia isso ficou muito evidente. Hoje muitos profissionais já perguntam sobre home office logo nas primeiras conversas. Na Daikin adotamos um sistema híbrido e percebemos aumento de produtividade. Mas acredito que o presencial continua importante para troca de ideias, integração e desenvolvimento das equipes.
Leonardo Bortoletto: Para encerrar: dois conselhos para quem quer construir carreira em empresas globais.
Roberto Yi: Primeiro: se expor mais, apresentar ideias e não ter medo de errar. Segundo: as pessoas são o recurso mais importante de uma empresa. E, claro, falar inglês ajuda bastante para quem quer trabalhar em multinacionais.
Leonardo Bortoletto: Roberto, obrigado pela presença.
Roberto Yi: Eu que agradeço. Foi um prazer.
Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.
