Burocracia e endurecimento das regras dificultam acesso ao crédito rural
Especialistas apontam que exigências mais rígidas e maior cautela dos bancos tornam o acesso aos recursos ainda mais desafiador para o produtor rural

De julho de 2025 a fevereiro de 2026, o Plano Safra registrou R$ 354,4 bilhões contratados no crédito rural empresarial. O montante representa alta de 7% em comparação com o mesmo período da safra anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Apesar do crescimento no volume total, as linhas tradicionais apresentaram retração.
O crédito de custeio contratado recuou 13%, totalizando R$ 106,4 bilhões, enquanto os recursos concedidos caíram 16%, somando R$ 103,4 bilhões. Para o assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Guilherme Rios, o aumento da burocracia ao longo dos anos tornou o acesso ao crédito ainda mais complexo.
“Crédito rural nunca foi fácil. Sempre foi necessário apresentar um dossiê robusto de documentos para acessar esses recursos, especialmente os do Plano Safra. No entanto, diante do endividamento do setor e das alterações em regras prudenciais, o cenário ficou ainda mais restritivo. Os bancos estão mais rigorosos do que no passado. É comum produtores receberem ofertas de crédito com limites menores do que os acessados anteriormente, além da exigência de garantias mais robustas”, explica.
Segundo Rios, o crédito é essencial para manter a atividade agropecuária e sustentar novos investimentos. Com margens mais apertadas e custos de produção elevados, o endurecimento nas exigências pode comprometer o financiamento da safra e atrasar projetos no setor.
“O custeio é o crédito destinado às atividades do ciclo produtivo. Neste momento, o produtor enfrenta aumento nos custos, como diesel mais caro e fertilizantes com cotações superiores às de safras anteriores. Isso pesa no bolso e torna esses recursos ainda mais indispensáveis. Quando há maior rigidez no acesso, o financiamento da safra acaba prejudicado”, afirma.
O especialista destaca ainda que fatores macroeconômicos também pressionam o produtor rural. Segundo ele, a dificuldade de acesso ao crédito muitas vezes obriga agricultores a reduzirem investimentos e adotarem pacotes tecnológicos mais limitados.
“Muitas vezes, o produtor precisa recorrer a pacotes tecnológicos menores do que adotaria em outros cenários. Além disso, questões macroeconômicas também afetam o acesso ao crédito, somadas à burocracia do processo. Há casos em que taxas anunciadas não correspondem ao custo efetivamente pago pelo produtor”, ressalta.

Para o professor da Fundação Dom Cabral e doutor em Administração, Vicente dos Santos Alves, a escassez de crédito não compromete integralmente o agronegócio porque o setor encontrou alternativas de financiamento ao longo do tempo.
“Hoje existem outros mecanismos de financiamento. Muitas cooperativas ampliaram sua atuação, os bancos passaram a enxergar mais valor no agro e algumas empresas já negociam diretamente em sacas. Às vezes, não é possível fechar um acordo em dinheiro devido à incerteza sobre o valor futuro da soja ou do milho. Assim, negociações em produto ajudam a destravar operações. O agro conta com apoio não apenas dos fornecedores, mas também do sistema financeiro, incluindo bancos e cooperativas, que entendem que investir no setor é um bom negócio”, relata.
Confira a reportagem completa:
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.
