Itatiaia

O impacto dos juros na infraestrutura brasileira

Taxa selic em 14,75% pressiona investimentos, encarece crédito e afeta serviços

Por
Juros altos causam entraves para o aumento de investimentos em infraestrutura • Freepik

De acordo com o relatório “Ranking Mundial de Juros Reais”, divulgado pela MoneYou e pela Lev Intelligence, o Brasil mantém uma das maiores taxas de juros reais do mundo, ocupando a segunda posição global.

O país registra taxa real de aproximadamente 9,51%, ficando atrás apenas da Turquia (10,38%) e à frente de economias como Rússia e Argentina, ambas com cerca de 9,41%. A média global entre os países analisados é de 2,18%, o que evidencia o elevado patamar brasileiro.

Com a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) em 14,75% ao ano, definida nesta quarta-feira (18) pelo Banco Central (BC), o país enfrenta um ambiente de crédito mais caro e restrito, com impactos diretos sobre investimentos e consumo. Nesse cenário, o setor de infraestrutura está entre os mais afetados.

Jonathan de Souza Matias, PhD em Estatística, professor de economia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), afirma que juros elevados comprometem a viabilidade de projetos.

“Do ponto de vista da infraestrutura, torna-se inviável, tanto em nível nacional quanto internacional. A Selic alta sinaliza maior risco, inflação elevada e fragilidade fiscal, o que afasta o investidor externo”, explica.

Crédito e investimentos

Segundo o especialista, juros elevados mantêm o crédito restrito e encarecem os financiamentos de longo prazo, afetando diretamente a viabilidade de novos projetos e a atratividade de concessões e leilões.

Ele destaca que a análise de investimentos em infraestrutura depende, entre outros fatores, do Valor Presente Líquido (VPL), indicador que calcula o valor atual de fluxos de caixa futuros.

“Trata-se de trazer para o presente os valores projetados de arrecadação ao longo do tempo. Quanto maior a taxa de juros, menor tende a ser o VPL, o que reduz a atratividade do projeto”, afirma.

Pequenos negócios

A alta dos juros também impacta o consumo das famílias e os pequenos negócios. No segundo semestre de 2025, houve retração na demanda por obras e reformas, reflexo do encarecimento do crédito.

Segundo o especialista, quando o consumidor não dispõe do valor total para uma reforma, o custo elevado do financiamento leva ao adiamento da decisão. “Há menos investimentos em reformas. Se uma obra custa R$ 20 mil e a pessoa tem apenas metade, a tendência é esperar e poupar mais, em vez de recorrer a crédito caro”, diz.

De acordo com o Boletim da Infraestrutura, produzido pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em parceria com o FGV IBRE, em dezembro de 2025, a dificuldade de acesso ao crédito bancário se consolidou como um dos principais entraves aos negócios.

O cenário também atinge pequenos e médios empreendedores, que enfrentam dificuldades para financiar equipamentos e expandir suas atividades. Em muitos casos, as taxas tornam o crédito inviável, reduzindo o nível de investimento.

Esse movimento gera o chamado efeito de transbordamento (spillover): a redução do consumo e do investimento desacelera diversos setores da economia, como a construção civil, ampliando os impactos negativos sobre o crescimento.

Alternativas de financiamento

Diante desse contexto, o especialista em economia aponta caminhos para mitigar os efeitos dos juros elevados e viabilizar investimentos em infraestrutura.

Captação de recursos internacionais

Uma alternativa é a busca por financiamento externo. A China, por exemplo, é vista como parceira estratégica, especialmente em projetos portuários e tecnológicos, áreas em que o Brasil ainda apresenta defasagens.

“O Brasil precisa diversificar suas fontes de financiamento. Parcerias internacionais podem impulsionar investimentos em portos, logística e tecnologia”, afirma Matias.

Fortalecimento do mercado de capitais

Outra possibilidade é ampliar a participação do mercado de capitais no financiamento de infraestrutura. Embora ainda limitada, essa fonte apresentou crescimento — de quase um ponto percentual em 2025 — indicando uma tendência de diversificação.

“É um avanço ainda tímido, mas com potencial de expansão”, avalia.

Linhas de crédito específicas

A criação de linhas de crédito direcionadas, especialmente por meio do BNDES, também é apontada como alternativa. A ideia é oferecer condições mais favoráveis para setores estratégicos, compensando o ambiente de juros elevados.

O que sustenta os juros altos

Apesar de eventuais ajustes na taxa, a manutenção da Selic em patamares elevados é resultado de fatores internos e externos.

Um dos principais elementos são as expectativas de mercado, monitoradas pelo Relatório Focus. Essas projeções orientam as decisões do BC e têm se mantido acima da meta de inflação de 3%, com alterações entre 3,9% e 4,1%.

Diante desse cenário, a autoridade monetária mantém os juros elevados para conter a inflação e ancorar expectativas.

Outro fator relevante é o risco fiscal, relacionado à sustentabilidade das contas públicas. Déficits recorrentes aumentam a desconfiança dos investidores e pressionam os juros, já que o governo precisa oferecer retornos mais altos para financiar sua dívida.

Esse quadro também afeta a percepção internacional e reduz a atratividade de investimentos de longo prazo.

Por último, o especialista aponta os impactos do contexto geopolítico e os chamados choques externos ou do petróleo. “Eventos de instabilidade internacional, como conflitos no Oriente Médio e tensões entre os Estados Unidos e o Irã, são os principais geradores desses choques”, explica o especialista.

Um caso citado é o risco de interrupções no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo. Eventuais restrições podem elevar preços globais e afetar insumos essenciais para a infraestrutura, como combustíveis e materiais derivados.

Por

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), atualmente mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já atuou na Band Minas e na TV Alterosa.