Pesquisa aponta caminho para recuperar elementos de terras raras a partir de rejeitos de mineração
Levantamento brasileiro investiga a estrutura geológica e o potencial mineral do Complexo Alcalino de Passa Quatro, no Sudeste do país

Toda atividade minerária gera resíduos, e é a partir desse material que uma equipe multidisciplinar de pesquisadores busca caminhos para recuperar elementos de terras raras (ETR). Publicado no Journal of Applied Geophysics, periódico internacional especializado em geofísica, o estudo investiga o potencial de aproveitamento desses elementos a partir dos rejeitos e da própria bauxita.
O trabalho tem como foco o Complexo Alcalino de Passa Quatro (CAPQ), localizado no Sudeste do Brasil, entre os estados de Minas Gerais e São Paulo, e analisa a estrutura interna dos sistemas de bauxita laterítica, sua formação e o potencial de concentração de elementos de terras raras na região.
A investigação parte de estudos realizados em outras regiões, como Gana, Indonésia e Grécia, onde já foi identificada a presença significativa de elementos como lantânio, cério, neodímio e escândio em resíduos e perfis de bauxita. A possibilidade de recuperar esses elementos em depósitos brasileiros acompanha uma tendência de aproveitamento de subprodutos da mineração, transformando materiais que seriam descartados em uma possível fonte de elementos de alto valor agregado.
Recuperação de terras raras
Um dos caminhos analisados pela pesquisa é a recuperação dos ETR a partir dos rejeitos do beneficiamento do alumínio, conhecidos como lama vermelha, ou diretamente da bauxita laterítica. O aproveitamento desses materiais pode reduzir a necessidade de abertura de novas minas para a obtenção dos elementos e, ao mesmo tempo, dar uma nova finalidade a resíduos já gerados pela atividade mineral.
De acordo com a pesquisa, o potencial identificado em Passa Quatro está relacionado à natureza alcalina do maciço, que passou por processos de diferenciação magmática. Na região, os pesquisadores identificaram uma camada de cerca de 30 metros de espessura logo abaixo da superfície das camadas de bauxita, onde processos relacionados à formação do minério podem favorecer a concentração dos elementos de terras raras.
O estudo explica que bauxita laterítica se forma a partir do intemperismo das rochas, provocado pela ação prolongada da chuva e do calor. Nesse processo, ocorre uma espécie de seleção natural dos minerais presentes no solo: parte dos materiais é alterada ou removida, enquanto outros permanecem e podem se concentrar, criando condições para a presença de elementos de terras raras.
O processo também pode favorecer a formação de depósitos de argila de adsorção iônica. Nesses depósitos, os elementos de terras raras liberados pela alteração de minerais primários ficam fracamente adsorvidos em minerais argilosos, como a caulinita, condição que pode facilitar sua recuperação.
Aproveitamento de resíduos
A pesquisa aponta, assim, para uma possibilidade de ampliar o aproveitamento dos materiais gerados pela mineração. Em vez de serem tratados apenas como resíduos, rejeitos do beneficiamento do alumínio e materiais associados à bauxita podem conter elementos de interesse econômico, como as terras raras, criando uma alternativa de recuperação sem depender exclusivamente da abertura de novas áreas de mineração.
Além do potencial econômico, o aproveitamento desses materiais pode contribuir para reduzir a quantidade de rejeitos destinados ao armazenamento e os impactos associados à geração de resíduos pela atividade mineral.
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), atualmente mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já atuou na Band Minas e na TV Alterosa.



