Estudo aponta que indústrias brasileiras estão migrando de grandes cidades para o interior
Processo de desconcentração regional gera perda de participação de estados como São Paulo e Rio de Janeiro e avanço das regiões Sul e Centro-Oeste

Um estudo realizado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) aponta um processo de desconcentração regional da indústria de transformação brasileira entre 1985 e 2024. O levantamento mostra uma tendência de interiorização da atividade produtiva, com investimentos deixando as metrópoles em direção a cidades menores, impulsionados pela busca por custos mais baixos e melhores condições de infraestrutura.
A desconcentração industrial, no entanto, não ocorreu de maneira uniforme entre os diferentes níveis tecnológicos. Na região Centro-Oeste, a indústria ampliou simultaneamente sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) e no emprego estadual. Segundo o documento, esse avanço se concentrou principalmente em setores de baixa e média-baixa intensidade tecnológica, ligados ao processamento de matérias-primas agrícolas e minerais, como alimentos, papel e celulose e metalurgia.
A região Sul e Minas Gerais também registraram ganhos expressivos em setores de alta e média-alta intensidade tecnológica. O Sul se tornou a região de maior intensidade industrial do país, superando o Sudeste em número de empregos industriais por mil habitantes.
Apesar de ter perdido cerca de 15,9 pontos percentuais (p.p.) de participação no emprego industrial nacional ao longo de 40 anos, São Paulo permanece como o principal polo industrial do país. O estado mantém a estrutura mais sofisticada e diversificada, especialmente em segmentos como veículos, máquinas e produtos químicos.
O movimento de interiorização em São Paulo foi o mais intenso observado pelo estudo. No período analisado, a participação do interior paulista no emprego industrial do estado passou de 29,2% para 52,9%.
Fatores da interiorização
O estudo identifica diversos fatores que contribuíram para o deslocamento da atividade industrial para o interior. Entre eles estão a saturação urbana, os congestionamentos, os altos custos imobiliários e salariais e a pressão sindical nas grandes metrópoles.
A melhoria da infraestrutura e a expansão do conhecimento também favoreceram esse processo. A modernização de rodovias, com a formação de corredores logísticos, a ampliação das redes elétrica e de telecomunicações e a criação de universidades e centros de pesquisa no interior contribuíram para atrair investimentos.
Outro fator apontado são as ações estatais e a chamada guerra fiscal, com a oferta de incentivos tributários, doação de terrenos por governos locais e programas como o Pró-Álcool, além da atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A disponibilidade de recursos naturais também influenciou a interiorização da indústria, especialmente com a expansão da fronteira agrícola e a proximidade de áreas de processamento de minérios.
Benefícios socioeconômicos
De acordo com o relatório, a interiorização e a desconcentração industrial também podem gerar benefícios socioeconômicos. Entre os efeitos estão a redução da heterogeneidade regional e das desigualdades no desenvolvimento local, a geração de empregos qualificados fora dos grandes centros e o aumento da arrecadação tributária dos municípios do interior.
O processo também pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, ao reduzir a pressão sobre os grandes centros urbanos e os custos associados à vida nas metrópoles.
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), atualmente mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já atuou na Band Minas e na TV Alterosa.



