'Quem empreende no Brasil, vence em qualquer lugar', analisa o investidor-anjo João Kepler
Líder da Bossa Invest destaca que o parceiro estratégico aporta mais que capital e revela por que busca empreendedores com desapego ao dinheiro

"O ecossistema brasileiro ensina a empreender sob condições extremas, e quem vence aqui está pronto para qualquer mercado global". A tese é de João Kepler Braga, um dos principais nomes do ecossistema de inovação e investimentos do país. À frente da Bossa Invest, maior investidora-anjo da América Latina em número de negócios, o escritor e palestrante compartilhou sua visão com a Itatiaia. Com uma bagagem que soma mais de 1.800 empresas investidas, Kepler mapeou a maturidade de quem abre um negócio no Brasil, destacou o papel transformador da Inteligência Artificial (IA) no agronegócio e no meio urbano, e revelou que os critérios para fechar uma rodada hoje vão muito além das planilhas de lucro.
Para Kepler, o Brasil vive uma transição geracional na forma de criar empresas. Se no passado o motor do mercado era o "empreendedorismo por necessidade" (focado em gerar renda imediata para pagar boletos), o cenário atual é ditado pela identificação técnica de dores de mercado.
"Hoje, um problema virou oportunidade. Os aplicativos que usamos diariamente no celular, como WhatsApp, iFood e Waze, nada mais são do que ferramentas desenvolvidas para resolver a dor dos outros. Você ganha dinheiro resolvendo o problema da sociedade, e não o seu", pontua.
O investidor exemplifica de forma prática: "Se você abrir uma loja de sapatos comum, enfrentará uma concorrência brutal. Mas se focar na dor de quem calça tamanho 45 ou mais e tem dificuldade de encontrar modelos, você cria um negócio de nicho. Basta achar os sapatos, enviar por WhatsApp, receber por Pix e mandar entregar. A tecnologia é a camada que escala a solução de um problema real."
Papel do Investidor-Anjo: 'é um casamento'
Empreender, segundo Kepler, costuma ser uma jornada solitária. É nesse gargalo que entra o investidor-anjo — alguém que já trilhou o caminho do mercado, possui capital e, principalmente, conhecimento. O especialista enfatiza que o aporte financeiro é apenas uma parte do processo, já que conexões estratégicas e know-how de mercado costumam valer mais do que o dinheiro em si.
No entanto, ele alerta que o investimento na fase inicial (early stage) exige cautela de ambas as partes. "Investimento é um casamento, tem que ter química e empatia. É preciso analisar o caráter e a postura antes de empenhar dinheiro e tempo. Eu invisto quando o negócio é bem pequenininho, quando ninguém ainda acredita ou dá bola", revela.
Para quem está do lado do investidor, Kepler aponta que o erro mais comum dos iniciantes é o excesso de emotividade. "O maior erro é se apaixonar pelo negócio ou pelo empreendedor. O investidor precisa de razão. A intuição é importante e vai sendo aguçada com os anos de estrada, erros e acertos, mas a razão deve imperar para que você não deixe de ver problemas estruturais que deveriam ter sido checados antes".
IA no campo, conexão e resiliência das startups
Questionado sobre as transformações tecnológicas recentes, João Kepler destacou o impacto divisor da Inteligência Artificial. Segundo ele, a IA não deve ser vista como uma ameaça isolada, mas como um acelerador de eficiência. "A Inteligência Artificial impulsiona negócios bem preparados e atrapalha os que já estão atrapalhados. Uma fazenda tradicional que adota IA no gerenciamento do campo, por exemplo, transforma-se em um negócio escalável e atrativo para o investidor-anjo", afirmou.
Essa evolução tecnológica tem pressionado o ecossistema de startups de software tradicionais. Muitas empresas de tecnologia que faziam "mais do mesmo" estão perdendo espaço porque ferramentas gratuitas de IA agora permitem que os próprios empresários resolvam suas demandas cotidianas. De acordo com Kepler, as startups mais resilientes e promissoras hoje são aquelas capazes de diagnosticar problemas complexos que o próprio cliente nem sabe que tem.
Nos últimos cinco anos, contudo, o critério mais disruptivo adotado por Kepler na análise de fundadores vai além das planilhas: envolve o nível de consciência e o desapego financeiro do empresário.
"Mudou muito o quão o fundador é conectado espiritualmente e o seu desapego ao dinheiro. Se o cara quer apenas dinheiro, ele deve ir ao banco, não precisa falar comigo. Quando ele busca o dinheiro como consequência de um propósito maior, trazendo conhecimento e querendo construir algo coletivo, a minha vontade de investir aumenta. Consigo enxergar a energia por trás daquela oportunidade", concluiu.
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