Para a maioria dos profissionais de Hollywood, o Oscar é o ápice do reconhecimento. No entanto, ao longo de quase um século, um grupo seleto de artistas decidiu que suas convicções valiam mais do que o prestígio da estatueta dourada. Essas recusas não foram meros caprichos, mas manifestos que abalaram as estruturas da indústria.
O primeiro “não” da história não veio de um ator, mas do roteirista Dudley Nichols, em 1935. Vencedor por O Delator, ele se recusou a aceitar o prêmio ou comparecer à cerimônia por uma questão de lealdade.
Como um dos fundadores do Sindicato dos Roteiristas (WGA), Nichols estava em meio a uma greve e uma disputa ferrenha com a Academia por direitos trabalhistas. Ele devolveu a estatueta, aceitando-a retroativamente apenas em 1938, após o reconhecimento oficial do sindicato.
George C. Scott
Em 1971, George C. Scott fez história como o primeiro ator a rejeitar o prêmio de Melhor Ator por sua atuação em Patton, Rebelde ou Herói. Scott já havia avisado à Academia que não queria ser indicado e que não participaria da competição.
Sua justificativa foi ácida: ele descreveu a cerimônia como um “desfile de carne de duas horas”, criticando o suspense artificial criado para fins comerciais. Enquanto seu nome era anunciado como vencedor, Scott estava em casa assistindo a uma partida de hóquei. A estatueta foi devolvida à Academia no dia seguinte.
Marlon Brando: o protesto que parou o mundo
O caso mais emblemático ocorreu em 1973. Marlon Brando, vencedor por viver o icônico Vito Corleone em O Poderoso Chefão, utilizou sua vitória para dar voz a uma causa humanitária.
Em vez de comparecer, Brando enviou Sacheen Littlefeather, uma ativista nativa americana. No palco, ela recusou tocar na estatueta e leu um manifesto denunciando o tratamento degradante dado aos povos indígenas pelo cinema e citando o cerco de Wounded Knee. O momento gerou uma mistura de vaias e aplausos, mudando para sempre o tom político das premiações.
Ausências famosas e resistências tardias
Nem toda recusa é um protesto direto, algumas são questões de princípio ou estilo de vida. Peter O’Toole inicialmente recusou um Oscar Honorário em 2003, afirmando que “ainda estava no jogo” e queria vencer um prêmio competitivo. Só aceitou após a Academia insistir que a honraria não significava aposentadoria.
Jean-Luc Godard, o mestre da Nouvelle Vague, ignorou o prêmio honorário em 2010, afirmando que a estatueta não significava nada para ele.
Já Katharine Hepburn e Woody Allen possuem uma relação peculiar com o prêmio. Hepburn (4 vitórias) e Allen (4 vitórias) nunca recusaram as estatuetas, mas detestavam a cerimônia. Hepburn nunca foi buscar seus prêmios, e Allen prefere manter sua rotina de tocar clarinete em um bar em Nova York nas noites de premiação.
O destino das estatuetas rejeitadas
Você já se perguntou o que acontece com o troféu quando alguém diz “não”? O prêmio não vai para o segundo colocado. Ele retorna para o acervo da Academia. Desde 1950, os vencedores são proibidos de vender suas estatuetas. Caso queiram se desfazer delas, devem oferecê-las de volta à Academia pelo valor simbólico de US$ 1,00. Isso evita que o prêmio mais cobiçado do cinema acabe em leilões.