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Da violência à paz nas escolas: é preciso cuidar do clima!

O que você faz para construir a paz nas escolas?

Não, esse artigo não vai tratar sobre as mudanças climáticas, tema tão importante e atual para a humanidade. O foco, aqui, é o clima escolar. Se você não é profissional da educação, possivelmente nunca ouviu esse termo. Mas, fique sabendo, tem muito conhecimento produzido sobre esse tema, que influencia nos modos como as crianças, os adolescentes e os adultos que estão na escola vivenciam o dia a dia, se relacionam, ensinam e aprendem.

Os casos de violência contra as escolas no Brasil aumentaram nos últimos meses. Parte deles protagonizada por pessoas de fora da escola, outra parte por alunos ou ex-alunos. Diante dessa escalada de casos, o medo tomou conta de todos nós e, principalmente, da comunidade escolar. É preciso, então, cuidar. Mas cuidar do que, exatamente?

Vale deixar claro: esse é um problema relativamente novo - pelo menos no Brasil - e complexo. Se é novo, significa que ainda estamos aprendendo a lidar com ele. Se é complexo, quer dizer que provavelmente não há uma única ação necessária para combater. Trago para nossa conversa alguns elementos importantes para pensarmos sobre violência contra as escolas:

Primeiro, cabe lembrar que a escola é parte da sociedade, assim como hospitais, praças e estádios de futebol. Na escola estão as mesmas pessoas que passeiam nos parques, frequentam igrejas, vão a shows, andam de ônibus, vão ao supermercado. Tudo aquilo que elas sentem e pensam, seus interesses, visões de mundo, valores e tantas outras coisas chegam na escola. Se estamos identificando relações deterioradas no contexto escolar, é porque esse problema existe no contexto social como um todo.

Depois, precisamos reconhecer que há muitas formas da violência se expressar na escola. Por exemplo, aquelas geradas pelos preconceitos diante das diferenças entre as pessoas, como o racismo e a homofobia. Tais violências acontecem entre os adultos (diretores, coordenadores e professores), deles com os alunos, entre alunos, das famílias etc. E tem a violência que pula os muros da escola: causada por um sujeito que não faz parte da comunidade escolar, mas acessa a escola para executar crimes.

Para lidar com esse universo de possibilidades, há muitas ações importantes. Não vou, aqui, propor uma lista de ações necessárias para combater a violência. Afinal, muito já se tem

falado a respeito. Autoridades, gestores das escolas, famílias e a sociedade como um todo têm tratado desse ponto com seriedade. Ainda bem.

Mas escolhi um aspecto para conversar com você nas próximas linhas: o clima escolar. O que é isso? Trata-se de criar um ambiente que leve estudantes, professores e todos os demais a se sentirem bem na escola. A perceberem que suas vidas são valorizadas. Que seus interesses, gostos, valores, características, ideias, conhecimentos, pontos de vista são igualmente importantes e respeitados. A compreenderem que as diferenças de todo tipo, tais como as relacionadas à raça, visão de mundo, crenças, sonhos e projetos para a própria vida e para o coletivo, podem conviver e precisam ser respeitadas. Cuidar do clima da escola passa por promover o encontro digno entre as pessoas e por construir pertencimento, noção de coletividade. Esse é um passo essencial para a construção de uma verdadeira cultura da paz.

Quem é o/a responsável por construir um bom clima na escola? Todos os que dela são parte, inclusive você! Por isso, trago, para finalizar, um ponto para sua reflexão e ação: como a sua família (você, seu esposo/sua esposa, seu pai/sua mãe, seu filho/sua filha, seu avô/sua avó, seu neto/sua neta…) pode contribuir para a promoção de um bom clima escolar, em conjunto com os profissionais que estão na escola?

Paulo Emílio Andrade é presidente do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É mestre e doutor em educação, pesquisador do Núcleo de Novas Arquiteturas Pedagógicas da USP e professor da PUC Minas.
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