Ouvindo...

Times

Jovens, envelheçam

Na semana da comemoração do dia dos idosos e dos avós, precisamos nos perguntar: por que passamos a ter medo de envelhecer?

Uma das mentiras da sociedade atual é que é proibido envelhecer. Diferentemente de tudo o que veio antes, agora, “a coisa” só vale ser for nova, de última geração, inovadora, pulsante. Já reparou que excluímos da nossa cultura o “velho”?

Bom, se significa que ganhamos um senso de inovação. Se a gente está sempre à procura de progresso, “tá de boa!”. Mas se a gente acha que o que é antigo tá ultrapassado. Se até as pessoas se tornam descartáveis. Se quem chegou aqui antes, neste Kaos chamado vida, não tem nada a ensinar. Talvez, não...

Uma árvore sem raízes não fica de pé. Na semana da comemoração do dia dos idosos e dos avós, precisamos nos perguntar: por que passamos a ter medo de envelhecer?

Particularmente, para a fé judaico-cristã, o “antigo” não tem o sentido de “ruim”. O nome de Deus revelado a Moisés é: “Eu sou o Deus de vossos pais” Ex 3,6. Isso significa que YHWH (Adonai, o Senhor) se revela na história dos patriarcas e das matriarcas. Ele age por compromisso que transgride às leis do tempo, que passa de geração em geração. Nessa perspectiva, fé e cultura só dão certo como herança, transmissão e transformação.

Podemos pensar que essas três são um tripé sem o qual nenhuma sociedade se sustenta. Herança, pois a gente vira uma sociedade ansiosa demais se quer inventar a roda. Tem coisa que só vó ensina. Sabedoria prática, não aquela de quem dá “cursos sobre como vender cursos”. Coisa que vem com o tempo e com o cabelo pintado de caju. Como diz o dito oriental: a vantagem dos velhos é que eles não têm pressa.

Transmissão. Tá aí uma palavra com a qual a precisamos nos reconciliar. Qual o legado que você quer deixar para quem vem depois de ti? Já parou para pensar que o mundo pode ser diferente pelo simples fato de você mudar a vida de uma criança? Essa é a magia dos avós. São pais melhorados. Sem as preocupações, próprias da rotina, sobra tempo para amar no detalhe, na fala mansa, na cozinha. Afeto que tem cheiro, voz calma, rugas no rosto, traduzindo os sinais de um amor que nunca se cansa.

Transformação. Aquilo que se conserva não é uma mera repetição, um “medo do novo”. O que se mantém, permanece por seu valor atual, no presente. Ao mesmo tempo em que a Bíblia fala de “guardar a memória dos pais”, ela convida a perceber que Deus só se comunica conosco no “hoje”, em que o passado não é um entrave, ou a “custódia das cinzas”, mas se atualiza no “agora” (Dt 5,3). Deus é do Deus dos vivos, não dos mortos (Lc 20,38).

É preciso aprender de Agostinho de Hipona. Em sua juventude, viveu intensamente a síndrome do nosso tempo: novidade, prazer máximo, glórias sem sentido... Seu coração só encontra paz quando declara Deus como beleza tão “antiga e tão nova”.

Eu diria, então, que nada é tão antiquado e catastrófico para uma cultura de “eterna juventude” do que ter medo do velho. Quando perguntaram a Nelson Rodrigues sobre que conselho daria aos jovens ele disse: “jovens, envelheçam...”.

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
Leia mais