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É impossível ser feliz sozinho?

A solitude significa o “estar só”, estar bem consigo mesmo. Na verdade, mais do que um sentimento ela é a condição natural do humano. Só você, realmente está no seu corpo aí e agora.

Como você lida com a solidão? Aliás, você sabe a diferença entre solidão e solitude? Eu Sou o pe.Samuel Fidelis, do Santuário da Serra da Piedade. Fica comigo, pois esse é o tema da nossa coluna na Itatiaia, desta semana.

A solitude significa o “estar só", estar bem consigo mesmo. Na verdade, mais do que um sentimento ela é a condição natural do humano. Só você, realmente está no seu corpo aí e agora. Por mais que em alguns momentos a gente tenha a impressão de que exista alguém que consegue ser todo “com a gente”, com nossa angústia ou mesmo nossas alegrias, quem somos é algo pessoal e intransferível. Agora, a solidão é uma outra coisa. Ela tem um “que” de dor e de tristeza, entende? Ela é o: “sentir-se sozinho de forma desconfortável”. Em geral, esse sentimento nos visita quando a gente tem a impressão de que só vai conseguir viver “se estiver junto com...”.

A gente pode dizer que a solidão é não fazer o luto da solitude. Pode ser que, por insegurança, a gente se convença que temos que existir sempre a partir da validação de alguém. Aí, quando vem uma decepção, um afastamento, ou a morte fica a impressão de que, na ausência dessa pessoa, a gente vai se desfazendo.

Um dos maiores mitos associados na relação a dois, é: procure alguém que lhe complete! Sua alma gêmea...Deixa eu te contar uma coisa, você sabe que isso aí de “metades da laranja” é da mitologia grega, né? Que fomos divididos e por isso vivemos condenados a buscar quem nos complete. Eu gosto muito de mitologia, aliás, mas o olhar bíblico, não é de que o “outro” completa, mas que que transborda.

No livro do Gênesis, após criar o ser humano(adam) (Gn 2,7). Se diz que Deus percebe: “não é bom que o homem fique só”. Entenda, Adão foi criado numa condição de ser completo, não é que lhe faltasse algo “em si”. No entanto, em sendo “um inteiro”, o ser humano foi feito para estabelecer relações, para cuidar, para amar. O amor, desde o princípio é a exigência fundamental da existência humana. Somos menos “gente” sem a reciprocidade.

Daí se diz que Deus “constrói” a mulher a partir do lado (tsêla) do homem e a coloca diante dele (Gn 2,22) para ser uma “ezer-kenegdo” (uma auxiliar que lhe corresponda) (Gn 2,18). Perceba, ao dizer que não é bom que o homem fique só, a questão não é emocional ou psicológica, como se Adão tivesse que ter o que a gente busca hoje: alguém que “escolte ou preencha nossos vazios ". O que o Texto quer dizer é que, no amor entre um casal, o outro é um auxílio. Ezér, no hebraico denota auxílio, ajuda; às vezes, a partir de cima, como um socorro; nunca algo inferior. Além disso, se diz que a mulher é colocada diante do homem, isto para indicar que um relacionamento envolve reciprocidade, face-a-face, correspondência.

Daqui, podemos entender que a gente tem que procurar ser inteiro. Conhecer-se a si mesmo, ter momentos de silêncio, meditação, oração, amor-próprio...Fugir da superficialidade. Antes de se dar a alguém, seja de si, ou você vai se buscar em alguém de um jeito desajeitado. Como você se expande como pessoa? O que te preenche? Vai a bons lugares? Tem espaço no seu “dicionário” para autocuidado? A solitude é conquista que só o amor-próprio trás.

E como diz Hamlet: “sê fiel a ti mesmo, segue-se a isso, como a noite ao dia, que jamais serás falso com os outro”. Se pensar bem: para ser dois é preciso, antes, aprender a ser um. Aliás, isso é bíblico: “ama teu próximo como a ti” (Lv 19,18). O amor que a gente dá a alguém parte de uma medida sobre um “a ti”, ou seja, um eu, em posse de si, que, em estando em si, não se apequena, mas parte vai “em direção a”...

Em resumo, que lhe seja concedida a Graça Divina de não supor, por receio ou por trauma, que para viver bem é preciso sempre de estar “junto com...” para não cair no “vácuo da solidão”. Tem gente que é “por um tempo”, mas não “NECESSÁÁÁRIA...”. O outro extremo - Deus nos livre! - é ter medo de amar por causa de decepções. O amor não é idealização, mas aventura, resolução interna, aposta.

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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