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Páscoa é passagem

Vale a pergunta: em sua vida há espaço para que a Páscoa aconteça? Quais são as travessias necessárias? Quais são as situações de desânimo?

Há alguns dias celebrávamos a Páscoa. Essa festa mais ou menos sequestrada pelos shoppings centers e pelo comércio. Coelho, chocolate, feriado, entusiasmo... Para nós, cristãos, no entanto, a Páscoa é festa que se dilata. Não se trata de um “momento”, ou de euforia, mas de um “acontecimento” que muda para sempre a humanidade. Você entende a diferença: entre o que é um “momento” e o que é um “acontecimento”? O momento é o pontual, o recorte, o breve, a sensação, já o acontecimento é a marca, é o fato, o evento.

A Páscoa é Sagrada e doce. Em sendo doce, seduz o instante, produz serotonina, enamora com o prazer e com a calma. Em sendo Sagrada, a Páscoa transforma. Seu acontecer, embora tenha se iniciado no passado, atualiza-se a cada ano para quem se deixa alcançar. Por isso, vale a pergunta: em sua vida há espaço para que a Páscoa (pessach, passagem no hebraico) aconteça? Quais são as travessias necessárias? Quais são as situações de desânimo? Onde estão sombras? Quais são os túmulos?

A Páscoa é, por vocação, um acontecimento da passagem. Já no Antigo Testamento, o Senhor visita Israel para arrancar-lhe das garras do Faraó (Ex 3). O texto diz que Adonai, o Senhor Deus, passa e faz o povo sair (Ex 12). Perceba: Deus atravessa as dores dos israelitas, visita o seu povo e no meio da noite lhes faz passar. O Escrito faz notar que a passagem é na direção de uma “terra onde corre leite e mel” (Ex 3,8), mas a travessia tem sabor de ervas amargas (Ex 12,8). Gosto de pensar aqui naquela frase de Wiliam Blake, cuja sinceridade é lapidar: “O prazer engravida, mas é o sofrer que faz parir”. Há sempre algo de amargo, de desafio de “desinstala-dor” num processo de mudança, numa Páscoa, numa passagem.

A Páscoa é, por vocação, um acontecimento da passagem. Jesus faz a sua passagem. E o faz por amor e no amor por cada um de nós (Jo 13,1). Sua Paixão e sua cruz, são deserto (êxodo, saída como a de Israel) (Lc 9,31) e escândalo (1 Cor 1,23). Vemos, nos relatos da ressureição que o primeiro e maior desafio de Cristo é converter os próprios discípulos (Lc 24,25). Eles tinham uma lentidão para compreender que a dor aquilata, a angústia traz parto, o sofrer, quanto ressignificado com a Graça de Deus, aconselha.

A Páscoa ensina que o desafio da vida é a saída. Nossa tendência natural e humana é nos instalarmos. A gente se acostuma com pouco, se habitua com o mínimo, teme menos a rotina do que a ousadia. Como outrora aos discípulos, Jesus nos encontra no caminho (Lc 24). Esse da via do desconforto, da quebra das expectativas, da superação do aparente fracasso. Jesus quer te encontrar, lá onde a Cruz é necessária para que haja glória e ressureição. Como outrora aos discípulos o Ressuscitado, agora, te interroga sobre suas portas fechadas pelo medo (Jo 20,19). Esse sentimento que paralisa e angustia. Escute a Sua voz que diz “a Paz esteja...”, a paz reine, seja, te acalme, te arrebate.

A Páscoa ensina que quem procura encontra. Como Maria Madalena (Jo 20, 11-18) todos temos nossas decepções, lágrimas e sepulcros. Todavia, basta abrir-se à aventura da busca do Senhor. Desejar sua presença seja nossa meta permanente. Temamos perder Jesus, nos afastarmos de sua face. Perdê-lo nos lança em buscas sem sentido. Ser por Ele e amado e amá-lo, será a maior das realizações. Seu amor é verdadeiro, lança fora todo o medo (1 Jo 4,18). Ele te chama, me chama pelo nome, uma vez alcançados por sua voz que consola, sua palavra que dá vida, seu olhar que nos reergue, será páscoa, passagem. Depois do encontro com o Ressuscitado ficar parado diante do túmulo é uma questão de escolha...

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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