A inteligência artificial pode encarecer sua conta de luz

Imagine abrir a conta de energia e descobrir que parte do aumento tem a ver com uma tecnologia que você mal usa. Parece absurdo que uma pergunta ao ChatGPT, uma imagem gerada por computador ou um agente digital trabalhando do outro lado do mundo mexam no preço da eletricidade que chega à sua casa. Mas nos Estados Unidos isso já deixou de ser uma discussão de engenheiros e virou tema econômico e político. A IA, vendida como promessa de produtividade e corte de custos, tem um lado que pouca gente enxerga: quanto mais a usamos, maior a infraestrutura física necessária para sustentá-la. E alguém vai pagar por ela.
Nesta semana, a OpenAI lançou o Grid Protectors Program, um programa para que seus futuros centros de processamento reduzam o consumo de eletricidade quando a rede estiver sob pressão, em ondas de calor, frio extremo ou emergências. O piloto será o campus que a empresa planeja em Effingham, na Geórgia, com 3,2 gigawatts de capacidade: ali, a concessionária local poderá cortar até mil megawatts nos horários de pico, o equivalente ao consumo simultâneo de centenas de milhares de residências. A empresa também diz que pagará integralmente a infraestrutura necessária para atender o projeto. O detalhe importante não é o número, mas o gesto: uma das empresas-símbolo da revolução da IA admitindo, em público, que sua expansão esbarra nos limites da rede elétrica.
O problema não é só quanto esses computadores consomem, mas a velocidade com que a demanda cresce. Um software tradicional roda em servidores modestos; os modelos de IA mais avançados dependem de milhares de chips especializados trabalhando ao mesmo tempo, que gastam muita energia, esquentam e exigem refrigeração pesada. E não se trata apenas de treinar novos modelos, um esforço concentrado em certos períodos. Trata-se de manter milhões de sistemas funcionando o tempo todo, respondendo perguntas, lendo documentos, produzindo vídeos e escrevendo código.
A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo dos data centers no mundo vai mais que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 terawatts-hora por ano, pouco mais do que o Japão inteiro consome hoje e algo próximo de 3% da eletricidade do planeta. A conta inclui data centers de todo tipo, não só de IA, mas a IA é o principal motor desse salto. E há um agravante: essas instalações costumam se concentrar em poucas regiões. Uma rede dimensionada para uma cidade pode, de uma hora para outra, ter de absorver um complexo que consome como uma metrópole.
É aí que o problema chega ao bolso. Para atender um consumidor desse porte, a concessionária precisa construir subestações, ampliar linhas de transmissão, instalar transformadores e contratar mais geração. Se a empresa que criou a nova demanda pagar por tudo, o efeito sobre os demais é pequeno. Mas, dependendo das regras de cada mercado, parte da conta é rateada entre residências, comércio e indústria. Uma família que nunca abriu um aplicativo de IA pode acabar ajudando a financiar a infraestrutura que o faz funcionar. A pergunta, então, deixa de ser quanto custa usar a IA e passa a ser quem paga para que ela exista.
Nos Estados Unidos, essa conta já tem endereço. A PJM, operadora da maior rede elétrica do país, que atende cerca de 67 milhões de pessoas em 13 estados e em Washington, virou o epicentro da disputa. O monitor independente do mercado atribuiu aos data centers cerca de US$ 6,3 bilhões do custo do último leilão de capacidade, valor diluído entre todos os consumidores, e a própria operadora prevê falta de reserva de energia a partir de 2027. Não por acaso, a discussão passou a ser se os grandes consumidores devem pagar só pela eletricidade que usam ou também pelos investimentos necessários para que ela chegue até eles. É um debate que, cedo ou tarde, vai aparecer em outros países.
Há uma ironia nessa história. Ouvimos durante anos que a IA tornaria tudo mais eficiente, e isso continua verdadeiro: ela pode, inclusive, ajudar a operar redes elétricas, prever demanda e localizar falhas. Mas a inteligência que parece cada vez mais barata para o usuário depende de chips, servidores, galpões industriais, refrigeração, água, linhas de transmissão e usinas. Nada disso é de graça.
Isso não quer dizer que data center seja sinônimo de conta mais cara. Um grande consumidor pode até baratear a tarifa média, ao usar uma infraestrutura já existente e dividir custos fixos com mais gente. Contratos bem desenhados podem obrigá-lo a bancar o que exige. O resultado depende de capacidade disponível, localização, fontes de geração, horários de consumo e regulação. O problema não é a existência desses complexos. O problema é quando o lucro fica com poucas empresas e o custo da infraestrutura é espalhado por toda a sociedade.
O Brasil deveria prestar atenção. Temos atrativos reais para receber data centers, como uma matriz elétrica com forte participação de renováveis e espaço para expandir a geração. Mas isso não significa energia barata e transmissão sobrando em qualquer lugar do mapa. Nosso sistema tem encargos, tarifas de uso da rede e regras próprias de rateio. Esses projetos podem trazer investimento, empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico, desde que haja planejamento para que obras feitas sob medida para poucos não virem custo para muitos. Não há evidência de que a IA já esteja encarecendo a conta de luz no Brasil. Justamente por isso, o momento de discutir é agora, antes que a demanda cresça.
A questão também é estratégica. Durante décadas, a capacidade de gerar energia definiu onde nasciam fábricas, siderúrgicas e grandes cidades. Agora pode definir onde a inteligência artificial será produzida. Países com energia competitiva e rede confiável vão atrair investimentos bilionários. A corrida da IA, portanto, não será disputada só por cientistas e empresas de tecnologia, mas também por geradoras, concessionárias, fabricantes de equipamentos elétricos, governos e reguladores.
Talvez subestimemos tudo isso porque usar IA parece simples demais: abrimos um aplicativo, digitamos uma pergunta e a resposta chega em segundos. Não vemos as máquinas, os galpões, os sistemas de refrigeração nem a energia gasta no processo. Temos a impressão de que a inteligência mora em algum lugar abstrato, numa nuvem. Mas a nuvem nunca foi uma nuvem. Sempre foi feita de computadores reais, ligados a usinas reais. A IA só está tornando essa realidade grande demais para ser ignorada.
Não defendo frear a inteligência artificial; seria abrir mão de uma tecnologia com enorme potencial econômico, científico e social. Mas também não dá para tratar sua infraestrutura como um custo invisível. Se a IA vai gerar riqueza e produtividade, é razoável exigir que pague pela estrutura que a sustenta, sem empurrar a fatura para quem não participa de seus benefícios.
Por muito tempo, a pergunta foi quanto custaria para a IA substituir o trabalho humano. Agora há outra, mais prosaica e talvez mais urgente: quanto custa manter funcionando um mundo cada vez mais dependente dela, e quem vai pagar essa conta?
Henrique Borges, empreendedor, investidor e fundador da Somos Young, empresa brasileira líder no setor educacional e uma das referências no país na aplicação de inteligência artificial para jornadas de relacionamento, CRM, captação, atendimento e geração de receita. Com formação em Publicidade e Propaganda e pós-graduação em Inovação, Henrique atua no mercado digital desde 1999, liderando projetos de marketing, transformação digital, marketing direto e growth para grandes marcas e instituições, como Petrobras, Iveco, Mondaine, Minas Arena, Governo do Estado de Minas Gerais, GoPro, Airbnb e Canais Globosat, entre outros grandes players. À frente da Somos Young, construiu uma trajetória voltada à transformação de negócios por meio de tecnologia, dados, inteligência artificial e estratégia. A empresa atua em projetos para alguns dos principais grupos de educação do país, como Unifenas, Fumec, Uniube, PUCPR e Rede Claretiano. No futebol, Henrique lidera algumas das principais iniciativas de relacionamento com torcedores baseado em IA no Brasil, com projetos desenvolvidos para clubes como Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Grêmio, Vitória, Bahia, Sport e Coritiba, entre outros. Henrique é reconhecido por defender uma visão prática e estratégica da inteligência artificial: não como uma ferramenta isolada, mas como uma nova camada de inteligência capaz de transformar operações, ampliar receitas e redesenhar companhias inteiras por meio da tecnologia. Atualmente, também desenvolve iniciativas de conteúdo e autoridade sobre o impacto da inteligência artificial nos negócios, no trabalho e na sociedade, incluindo o podcast O Último Humano, disponível no Spotify.



