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Terras raras: Minas Gerais tem o minério. Mas quem ficará com a riqueza?

Projetos avançam no Sul de Minas, o capital estrangeiro chega e o país ganhou uma política nacional para minerais críticos. A oportunidade é real, mas os primeiros acordos já mostram onde o valor tende a ser capturado. E isso ainda pode mudar.

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Mineração é oportunidade estratégica em Minas Gerais
Mineração é oportunidade estratégica em Minas Gerais

Minas Gerais está novamente no centro de uma grande transformação mineral. Desta vez, o interesse vai além do ferro e do ouro. O mundo está de olho nas terras raras, um grupo de elementos essenciais para motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, tecnologias de defesa e produtos industriais de alto desempenho.

A movimentação já é concreta. Em outubro de 2026, a australiana Lynas, maior produtora de terras raras fora da China, anunciou um acordo para adquirir a Meteoric Resources, dona do Projeto Caldeira, no Sul de Minas, em uma operação avaliada em 968 milhões de dólares australianos (R$ 3,5 bilhões), ainda sujeita a aprovações societárias, judiciais e regulatórias. Em Goiás, a Serra Verde, única produtora brasileira de terras raras em escala comercial, passou ao controle da norte-americana USA Rare Earth em setembro de 2026. E, em Lagoa Santa, um laboratório-fábrica do SENAI já desenvolve e produz ímãs de terras raras em escala piloto.

Uma pergunta torna-se inevitável, estamos diante de uma nova oportunidade de industrialização ou de mais um ciclo mineral em que a maior parte do valor será construída fora do Brasil?

A resposta depende de decisões que estão sendo tomadas agora.

O minério é importante. Mas não apresenta-se como objetivo final.

O Brasil tem a segunda maior reserva estimada de terras raras do planeta, atrás apenas da China. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) aponta cerca de 21 milhões de toneladas em equivalente de óxidos, diante dos 44 milhões atribuídos à China.

A produção brasileira, por sua vez, foi estimada em apenas 2 mil toneladas em 2025, contra 560 toneladas em 2024. O volume de 2025 corresponde a aproximadamente 0,5% da produção mundial estimada em 390 mil toneladas. A distância entre reserva e produção é o dado que importa. E o próprio USGS lembra que números de reserva dependem de critérios técnicos e econômicos. Vale a menção de que os rankings servem-nos de referência, não se prestam a nós como garantia.

Há uma diferença decisiva entre possuir recursos minerais e transformá-los em produtos de alto valor. As terras raras não saem da mina prontas para fabricar motores. Precisam passar por concentração, tratamento químico, separação dos elementos, purificação e, conforme a aplicação, conversão em metais, ligas e ímãs. Cada etapa exige tecnologia, capital, energia, profissionais especializados e compradores capazes de absorver a produção.

É aí que está uma das maiores assimetrias da economia mundial. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China ainda respondia por cerca de 85% do refino de terras raras utilizadas em ímãs em 2025, abaixo dos mais de 90% de 2023 graças a novas plantas nos Estados Unidos e à ampliação da produção na Malásia. Na fabricação de ímãs permanentes sinterizados, a participação chinesa alcançava 94% em 2024.

Em outras palavras, ter o minério não significa, nem de longe a capacidade de se controlar a indústria.

O relatório de 2026 revela um dado especialmente importante para o Brasil. Até 2035, a produção de terras raras deverá crescer mais rapidamente do que a capacidade de transformá-las em produtos industriais. Fora da China, as refinarias planejadas conseguirão processar apenas cerca de dois terços da produção mineral prevista. Na fabricação de ímãs, a situação é ainda mais crítica. A capacidade projetada será suficiente para aproveitar apenas cerca de um terço desse volume. 

Isso significa que abrir novas minas não será suficiente para reduzir a dependência mundial da China. Será necessário investir também nas indústrias que separam, refinam e transformam esses minerais. 

É justamente nessa diferença, entre extrair o minério e transformá-lo em produtos de maior valor, que surge uma das maiores oportunidades para o Brasil.

Da extração ao refino e aos imãs • IA
Da extração ao refino e aos imãs • IA

Minas pode oferecer muito mais do que novas jazidas

Minas Gerais combina tradição mineral, indústria metalúrgica, instituições de pesquisa, engenharia, infraestrutura energética e proximidade de grandes mercados consumidores.

No Planalto de Poços de Caldas estão dois dos projetos mais avançados do estado, ambos associados a argilas portadoras de terras raras: Caldeira, em Caldas, e Colossus, da Viridis, em Poços de Caldas. Os dois obtiveram licença prévia do do órgão ambiental em dezembro de 2025. 

O estudo definitivo de viabilidade do Caldeira prevê investimento de aproximadamente US$ 498 milhões. O cronograma de implantação depende da obtenção das licenças seguintes, do financiamento e da decisão final de investimento, sem data definitiva assegurada para o início da produção comercial.

Mineração, pesquisa e indústria em Minas Gerais • IA
Mineração, pesquisa e indústria em Minas Gerais • IA

O Colossus, por sua vez, concluiu seu estudo de viabilidade em agosto de 2026, com investimento inicial estimado em US$ 449 milhões e expectativa empresarial de produção no segundo semestre de 2028. A decisão final de investimento estava prevista para o último trimestre de 2026, condicionada à conclusão do financiamento, dos contratos comerciais e das autorizações necessárias.

A ponta industrial também existe. O CIT SENAI ITR, em Lagoa Santa, é apresentado pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) como o primeiro laboratório de ligas e ímãs de terras raras do Hemisfério Sul. A unidade possui capacidade instalada declarada de até 100 toneladas anuais de ímãs sinterizados de neodímio-ferro-boro e integra o projeto MagBras, que reúne empresas, startups e instituições científicas. 

Em 2026, recebeu um lote experimental de carbonato de terras raras produzido a partir de argila mineira. Apesar da capacidade instalada, a produção ainda está associada ao desenvolvimento tecnológico e à demonstração de processos, longe de representar uma cadeia comercial consolidada.

Os elos existem. O que ainda não existe é a ponte industrial entre eles. E as negociações comerciais mostram para onde parte do produto mineiro poderá seguir. O Caldeira prevê produzir carbonato misto de terras raras, e a Lynas indica que ele poderá abastecer sua refinaria na Malásia, embora também tenha manifestado interesse em estudar possibilidades de processamento adicional no Brasil.

O Colossus assinou uma carta de intenções com a Solvay para o fornecimento de matérias-primas à unidade industrial de La Rochelle, na França, a partir de 2028. A parceria ainda depende de um contrato definitivo. A Solvay já possui capacidade industrial de separação de terras raras e anunciou novos investimentos para ampliá-la.

Não há nada de irregular nisso. É o desenho comercial de quem precisa garantir compradores e viabilizar o financiamento da mina. Mas também significa que, caso prevaleçam essas rotas, a separação individual dos elementos que corresponde a uma das etapas mais complexas e estratégicas da cadeia, infelizmente acontecerá fora do país. 

Estudos apresentados em 2026 no debate nacional sobre minerais críticos alertam para a baixa captura de valor nas etapas primárias e recomendam uma verticalização gradual e seletiva, com atenção especial à separação e ao refino.

Não se trata de produzir em Minas tudo o que a cadeia oferece, mas identificar onde existem vantagens reais e construir competências que permaneçam no estado. Isto permitiria agregar valor à cadeia retornar vantagens diversas ao estado.

A riqueza mineral ganha significado estratégico quando se transforma também em conhecimento, indústria e capacidade produtiva.

O desenvolvimento começa antes da primeira tonelada

Nenhum grande empreendimento mineral se sustenta apenas com geologia favorável e interesse de investidores. Entre a jazida e a operação há engenharia, licenciamento ambiental, direitos minerários, infraestrutura, financiamento e relação com o território. 

No Brasil, essas frentes correm em processos administrativos separados, e uma empresa pode avançar na pesquisa mineral ainda sem certeza sobre água, energia ou rota de processamento adequados para que tal projeto se concretize.

Planejamento minerário e monitoramento ambiental • IA
Planejamento minerário e monitoramento ambiental • IA

Seria simplista atribuir os atrasos às exigências ambientais. O processo de licenciamento prévio do Caldeira foi formalizado em maio de 2024 e aprovado em dezembro de 2025, cerca de 19 meses depois. Este é um bom resultado para um projeto pioneiro no aproveitamento desse tipo de depósito no país. Entretanto, boa parte do cronograma dos empreendimentos também depende da maturidade dos estudos, do financiamento e da coordenação entre empresas e órgãos públicos.

O caminho mais inteligente não se limita a escolher entre produzir e preservar, mas sim criar condições para que bons projetos sejam avaliados com rigor, previsibilidade e eficiência.

Para as terras raras, isso pesa ainda mais. Nas argilas iônicas, determinadas rotas de extração empregam sais de amônio para liberar os elementos retidos na argila. Na China, experiências históricas de lixiviação in situ envolveram elevado consumo de sulfato de amônio, com registros de contaminação de solo e água por amônio e sulfato, além de alterações nas propriedades geotécnicas dos materiais e riscos de instabilidade. 

Os projetos mineiros em discussão propõem processamento em planta, não a reprodução direta da lixiviação in situ chinesa. Ainda assim, consumo de reagentes, efluentes e rejeitos continuam sendo variáveis centrais.

No Planalto de Poços de Caldas faz-se indispensável entendermos o contexto local. O Ministério Público Federal questionou aspectos do licenciamento dos dois empreendimentos e recomendou estudos e providências adicionais. Entre as preocupações apontadas estão a proximidade do Projeto Caldeira com a Unidade de Descomissionamento de Caldas, das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), e os possíveis efeitos sobre recursos hídricos regionais.

No caso do Colossus, o MPF mencionou a previsão de supressão de 98 nascentes na área do Aquífero Alcalino de Poços de Caldas e solicitou aprofundamento dos estudos hidrogeológicos. Também foram levantadas questões relacionadas à consulta a comunidades tradicionais e à avaliação dos impactos cumulativos dos empreendimentos.

A presença natural de urânio e tório em determinados sistemas geológicos da região exige caracterização radiológica específica. A empresa responsável pelo Caldeira apresentou avaliações próprias de segurança, enquanto o MPF solicitou manifestações e esclarecimentos de autoridades competentes sobre possíveis efeitos dos projetos e sua interação com estruturas existentes. A Fundação Estadual de Meio Ambiente também apresentou respostas técnicas às recomendações.

São questões que precisam ser enfrentadas com transparência, estudos verificáveis e critérios técnicos claros, sem presumir que todos os depósitos apresentem riscos radiológicos equivalentes ou que a simples presença desses elementos inviabilize a exploração.

Há também uma perspectiva econômica nesse debate. Tecnologia que melhora a recuperação dos elementos, reduz perdas de reagentes ou reaproveita água pode diminuir impactos e custos ao mesmo tempo. Nem toda inovação produz esse resultado, e cada solução precisa demonstrar sua viabilidade. Mas um princípio merece atenção: responsabilidade ambiental e competitividade não precisam ocupar lados opostos da decisão econômica. 

Compradores internacionais que procuram alternativas à China também valorizam rastreabilidade e desempenho ambiental. Engenharia ambiental bem feita, nesse mercado, pode ser traduziedo em excelente argumento comercial.

O que ficará para as cidades?

Talvez a pergunta mais importante não esteja nas cotações internacionais nem no volume de reservas. Está sim é nas cidades que receberão os investimentos.

Uma nova operação gera empregos, arrecadação e contratos, e esses efeitos não devem ser minimizados. Mas desenvolvimento duradouro exige olhar além da implantação. Empresas locais conseguirão entrar na cadeia de fornecimento? Haverá formação de profissionais especializados? A infraestrutura servirá a outras atividades? O território estará mais preparado quando o ciclo mineral terminar?

Formação profissional e desenvolvimento das cidades • IA
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Essa perspectiva muda a forma de avaliar um investimento. Infraestrutura não deve ser entendida somente enquanto necessidade operacional. Qualificação profissional pode se transformar em vocação e legado regional. Pesquisa aplicada pode gerar aplicações industriais que sobrevivam à vida útil da jazida.

Isso não significa transferir às mineradoras toda a responsabilidade pelo desenvolvimento regional. O papel das empresas deve ser compatível com suas atividades, obrigações legais e capacidade econômica. Porém, significa reconhecer que governos, universidades, investidores e comunidades precisam organizar melhor as oportunidades que surgem ao redor dos empreendimentos. 

E ninguém melhor que o dono do projeto, quem domina todas as informações estratégicas do negócio, para orientar como otimizar políticas acessórias. Afinal, em torno daquela oportunidade, deve-se buscar maximização do ganho econômico para as comunidades afetadas, assim como minimizar os impactos negativos para humanos e ambientes naturais.

Uma região não se desenvolve por traz de um grande investimento. Desenvolve-se quando consegue transformar esse investimento em novas capacidades econômicas e sociais.

O verdadeiro desafio está na coordenação

Minas já tem projetos minerais, um laboratório-fábrica de ímãs, centros de pesquisa e infraestrutura. O problema é que esses ativos ainda não funcionam como uma cadeia industrial plenamente integrada. 

Os projetos minerais negociam o fornecimento de carbonato para o exterior. O laboratório desenvolve tecnologias e processa lotes experimentais, e a capacidade comercial de separação que poderia conectar essas etapas ainda precisa ser desenvolvida no país.

Governança e coordenação do desenvolvimento • IA
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É nesse ponto que a governança faz diferença. Organizar a oportunidade exige muito mais do que acompanhar cada empreendimento isoladamente. É preciso saber quais projetos têm maturidade técnica, quais dependem de infraestrutura, quais têm maior potencial industrial e onde a articulação entre eles geraria ganhos compartilhados.

No Sul de Minas, a concentração de projetos torna urgente discutir planejamento territorial, monitoramento ambiental, qualificação e oportunidades industriais de forma conjunta. Não por acaso, o próprio MPF pediu uma Avaliação Ambiental Estratégica ou Integrada para o Planalto de Poços de Caldas. 

Quando a necessidade premente de uma visão de conjunto aparece tanto no debate sobre desenvolvimento quanto nas preocupações ambientais, fica evidente a insuficiência em se tratar todos os efeitos de forma exclusivamente individual. O objetivo não nunca deve ser criar privilégios regulatórios nem dispensar responsabilidades, mas sim reduzir a fragmentação, melhorar a informação disponível e permitir decisões mais consistentes.

O país deu um passo institucional relevante. A Lei nº 15.506, de 16 de setembro de 2026, instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, com atribuições relacionadas à política industrial, à definição de prioridades e ao desenvolvimento da cadeia.

A legislação também prevê instrumentos de financiamento, um fundo garantidor e créditos fiscais de até 20% dos dispêndios elegíveis com beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana. Entre 2030 e 2034, o limite global previsto para esses créditos é de R$ 1 bilhão por ano, condicionado às regras de habilitação, seleção e execução orçamentária.

Agora começa a parte mais difícil. Os créditos fiscais estão previstos para o período de 2030 a 2034, enquanto os primeiros acordos comerciais e decisões de investimento estão sendo estruturados agora. 

Transformar diretrizes em projetos competitivos, tecnologia em capacidade industrial e investimento em resultado concreto é uma corrida contra esse descompasso.

Uma oportunidade que precisa ser construída

Minas Gerais conhece o valor da mineração. Sua história está ligada à exploração de recursos naturais, à transformação industrial e aos ciclos de crescimento que essas atividades produziram. As terras raras oferecem a chance de escrever um novo capítulo.

Mas a natureza da oportunidade mudou. O mundo não procura somente jazidas. Procura segurança de suprimento, capacidade tecnológica, materiais de alto desempenho e parceiros industriais confiáveis. Isso abre espaço para que Minas amplie sua participação em cadeias internacionais e desenvolva competências próprias, e impõe escolhas difíceis sobre investimento, tecnologia, regulação e prioridades.

Não há garantia de que todas as reservas virarão minas, de que todos os projetos serão viáveis ou de que toda iniciativa de industrialização dará certo. O diferencial estará na qualidade das decisões, combinando capital privado, pesquisa, infraestrutura, segurança jurídica, responsabilidade ambiental e uma visão de desenvolvimento que reconheça as necessidades dos territórios.

Não se trata de quanto minério Minas Gerais conseguirá extrair, mas quanto valor será capaz de produzir e manter a partir dele.

Porque o minério pode estar debaixo da terra. Mas o desenvolvimento que ele pode gerar depende inteiramente do que formos capazes de construir na superfície.

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Por, Colunista

Filipe Horta é executivo com mais de 25 anos de experiência em governança, regulação e estratégia ambiental. Ao longo da carreira, participou do desenvolvimento de mais de 400 projetos nos setores de mineração, energia, infraestrutura, indústria e desenvolvimento urbano em todo o Brasil. Sócio-diretor da TAUPO Ambiental, também possui ampla atuação institucional em conselhos e entidades do setor e dedica-se à Inteligência Ambiental Aplicada, com foco no uso estratégico da informação ambiental para apoiar decisões de empresas e instituições.

 

 

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