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Qual parcela da população o PT não entendeu?

O erro de estratégia que pode custar a eleição de Lula

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O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Ato político O Brasil pronto pra mais, em São José do Rio Preto.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. • Foto: Ricardo Stuckert.

A derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 1º turno das eleições indica que o Partido dos Trabalhadores (PT) não entendeu integrantes de uma parcela importante e majoritária da população brasileira: a classe média, que representa 61% do país, ou seja, 130 milhões de brasileiros.

Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a classe média se situa, principalmente, na Classe C, parcela com renda familiar mensal entre R$ 2.525 e R$ 10.885, e renda per capita de R$ 1.200 a R$ 5.000 mensais por morador.

Compor esse grupo, em tese, significa ter previsibilidade para além da sobrevivência imediata, capacidade de pagar contas básicas, ter acesso a crédito, consumir lazer e tecnologia e ter plano de saúde. Mas o orçamento é sensível à inflação e a imprevistos. O endividamento é uma constante.

A Classe C, que é a base da classe média brasileira, é composta majoritariamente por trabalhadores do setor de serviços, do comércio, profissionais técnicos, de vendedores e gerentes de loja, operadores de telemarketing e auxiliares administrativos, técnicos de enfermagem, eletricistas, cabeleireiros e manicures, motoristas de ônibus e de aplicativos.

Onde o PT tentou agir?

Considerando a alta carga tributária brasileira e a dificuldade dessa parcela da população em pagar as contas, o Governo Lula investiu, principalmente, no projeto de isenção do Imposto de Renda para a quem ganha até R$ 5 mil - uma promessa de campanha do petista - e nas edições do Desenrola, programa de renegociação de dívidas e prevenção do endividamento. As ações causaram um dispêndio de R$ 13 bilhões e R$ 28 bilhões, respectivamente, em 2026.

O que o governo não entendeu?

Nessa camada da população, basta puxar conversa em um transporte por aplicativo ou em um salão de beleza, existe um forte sentimento de injustiça. Principalmente entre os autônomos, que fazem sua própria carga horária, prevalece o sentimento de que para ter alguma mobilidade social é necessário muito esforço, mas existe pouco incentivo.

Uma parte dessa população, que compõe a camada trabalhadora que - teoricamente - poderia ter simpatia com um governo de pauta trabalhista, entende que paga impostos para arcar com benefícios de outra camada, mas que ela própria não tem incentivo.

Esse sentimento foi compartilhado e nutrido por candidatos à Presidência da República que mesmo não se posicionando contra o Bolsa Família - que tem 19 milhões de beneficiários/eleitores - propuseram critérios como emprego formal e formação profissionalizante para acessar o benefício. Foi o caso de Romeu Zema (Novo) que expressou o pensamento de uma parte considerável da elite brasileira.

Miopia

O comportamento do Governo Lula 3.0 pareceu configurar uma leitura miope da sociedade brasileira em que o núcleo petista enxergou melhor um eleitorado cativo - vencendo no nordeste e entre as camadas economicamente mais vulneráveis - mas teve dificuldade de alcançar um pouco mais além: no bolsão social onde está situada a maior parte da população brasileira: a classe média.

Filho do meio

Entre todos os componentes do antipetismo: ideológico, anticorrupção, regional, de costumes - um elemento mais difuso se desenhou: o da camada da população que vive entre os mais pobres e os mais ricos e na eleição se comportou como o filho do meio que, por vezes, reclama ser o esquecido.

Erro de estratégia?

Um avanço maior na redução da carga tributária sobre a renda e o consumo; ampliação do incentivo à compra da casa própria nas faixas 3 e 4 (renda de R$5 a 13 mil) ou até o estabelecimento de regras mais rígidas para programas sociais talvez dessem um percentual maior de votos a Lula.

No entanto, a dificuldade em alavancar o poder de compra e a estagnação da taxa de juros em um patamar elevadíssimo também parecem ter ditado o ritmo de um caminho que está levando o governo a um beco sem saída.

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Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.

 

 

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