Centenário de Milton Santos: os Brasis que ainda não se encontraram

Em junho de 2001, eu era estudante do ensino médio em Itaguara quando dona Letícia, a professora de Geografia, entrou na sala de aula desolada.
Disse que aquele era um dia muito triste para o Brasil. Nosso país havia perdido Milton Santos, um dos maiores geógrafos do mundo e um dos grandes intérpretes brasileiros do século XX. Eu já havia ouvido aquele nome, mas ainda não compreendia inteiramente o seu tamanho.
Algumas semanas depois, ela levou para a aula uma entrevista de Milton Santos concedida ao Roda Viva, exibida pela TV Cultura em março de 1997. Vimos em fita VHS, numa televisão de tubo instalada diante da turma. Na tela, aparecia um homem sereno, elegante e muito firme. Não elevava o tom de voz em nenhum momento. Falava devagar, mas sem hesitar. Sabia o que falava. Autoridade de quem não pensava para agradar, mas para compreender o mundo com autenticidade intelectual.
Essa cena voltou à minha memória nesta semana, quando se celebram os 100 anos de nascimento de Milton Santos.
Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, negro, filho de professores e neto de homem escravizado, construiu uma das obras mais originais do pensamento social brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1948, mas encontrou na Geografia o campo de sua elaboração intelectual mais profunda.
Foi jornalista, professor, pesquisador, concluiu doutorado em Geografia na Universidade de Estrasburgo, na França, em 1958, foi preso após o golpe de 1964, viveu 13 anos de exílio e lecionou em universidades da França, dos Estados Unidos, do Canadá, da Venezuela e da Tanzânia. Em 1984, ingressou como professor titular de Geografia Humana na Universidade de São Paulo.
A biografia impressiona, mas não explica sozinha a sua grandeza. Milton Santos legou-nos uma obra que olha o Brasil a partir do território vivido, das desigualdades inscritas na terra, dos lugares aos quais a modernidade chega como promessa incompleta.
Não observava o país da varanda dos vencedores, mas a partir das ruas, das periferias, dos circuitos populares da economia, das cidades partidas, das regiões tratadas como fornecedoras de riqueza e destinatárias de abandono.
Santos mudou o modo de pensar o espaço. Para ele, o território não é cenário, suporte físico ou simples superfície geográfica. Em A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção, publicado em 1996, formulou uma de suas ideias centrais: o espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Estradas, escolas, hospitais, portos, satélites, redes digitais, bairros, centros financeiros e periferias não podem ser compreendidos separadamente das empresas, do Estado, dos trabalhadores, dos planejadores, dos consumidores e das populações que disputam esses objetos. O espaço não está fora da sociedade, mas constitui uma das principais formas pelas quais ela se organiza, se hierarquiza e se revela.
Milton Santos permanece extremamente atual 25 anos depois de sua morte. O Brasil fala de desigualdade quase sempre a partir da renda, do emprego, da educação, da violência ou do acesso aos serviços públicos. Tudo isso é importante, mas ele acrescenta uma pergunta anterior: onde essas desigualdades se materializam? Em que bairro, município, região, periferia, área rural, metrópole, zona minerária ou fronteira agrícola elas se tornam experiência cotidiana?
A desigualdade brasileira não mora apenas no contracheque, mas no tempo de deslocamento entre a casa e o trabalho, na distância até o hospital, na ausência de saneamento, na escola sem estrutura, na cidade sem capacidade técnica, no território tratado como depósito de problemas ou fonte de extração.
Em O espaço dividido, publicado no final da década de 1970, Milton Santos analisou os dois circuitos da economia urbana nos países subdesenvolvidos. O circuito superior reúne atividades modernas, capitalizadas, tecnológicas, ligadas aos bancos, às grandes empresas, aos serviços sofisticados e às formas concentradas da economia. O circuito inferior reúne pequenos comércios, serviços populares, trabalho intensivo, baixa capitalização, informalidade e estratégias de sobrevivência. Esses circuitos não existem como mundos separados, mas convivem, dependem um do outro e expressam uma urbanização profundamente desigual. O circuito inferior não é o atraso pitoresco, mas parte funcional da cidade brasileira.
Basta olhar ao redor. O entregador por aplicativo atravessa a cidade entre condomínios fechados, restaurantes caros e periferias distantes. O pequeno comércio sustenta bairros inteiros enquanto o crédito, a terra urbana e a infraestrutura seguem concentrados.
O trabalhador informal ajuda a cidade a funcionar, mas quase nunca aparece como sujeito central das políticas públicas. O Brasil moderno depende do Brasil precário, embora finja não vê-lo.
Com María Laura Silveira, em O Brasil: território e sociedade no início do século XXI, publicado em 2001, Milton Santos trabalhou com a ideia de território usado. É o território efetivamente apropriado, equipado, explorado, vivido e disputado. Nessa obra aparece a leitura dos chamados quatro Brasis: o Brasil concentrado, o Brasil do Centro-Oeste, o Brasil do Nordeste e o Brasil amazônico. A proposta não repete a divisão escolar das regiões brasileiras e procura compreender como técnica, ciência, informação, logística, finanças, infraestrutura e poder decisório se distribuem de modo desigual pelo país.
O Brasil concentrado reúne maior densidade técnica, financeira, informacional e decisória. O Centro-Oeste expressa a reorganização acelerada do território pela agricultura moderna. O Nordeste carrega desigualdades históricas, novas formas de integração seletiva e enorme potência social e cultural. A Amazônia aparece atravessada por riquezas naturais, pressões globais, conflitos territoriais, devastação ambiental e disputas sobre soberania.
A imagem dos quatro Brasis revela um país diferencialmente integrado. Alguns territórios se conectam ao mundo pelo comando, pela tecnologia, pela universidade, pela logística e pelo crédito. Outros se conectam pela extração, pela dependência, pela precarização ou pela espera.
A modernização brasileira continua seletiva. A fibra óptica pode chegar antes do saneamento. O aplicativo pode funcionar onde o ônibus não chega. A mineração pode produzir riqueza imensa e deixar no território risco, dependência e ferida ambiental. O agronegócio pode operar com tecnologia de ponta enquanto comunidades vizinhas seguem sem serviços públicos adequados. A economia pode se sofisticar sem que a cidadania se universalize. O país avança, mas avança de modo partido.
Em Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, publicado em 2000, Milton Santos distinguiu a globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade. A fábula é o discurso sedutor de um mundo integrado, veloz, competitivo e sem fronteiras. A perversidade é a realidade da concentração de riqueza, da precarização do trabalho, da submissão dos territórios às grandes corporações e do enfraquecimento da cidadania. A possibilidade é a abertura para outro uso da técnica, da informação e da política, orientado pela solidariedade e pela emancipação humana.
Milton Santos não era inimigo da técnica, da ciência ou da modernidade. Sua pergunta era mais profunda: a serviço de quem tudo isso está sendo organizado? A mesma tecnologia que pode ampliar direitos também pode concentrar poder. A mesma informação que pode democratizar conhecimento também pode manipular comportamentos. A mesma logística que pode integrar regiões também pode acelerar a exploração predatória. A mesma cidade inteligente pode melhorar serviços públicos ou apenas sofisticar desigualdades com vocabulário moderno.
Em 2026, fala-se em inteligência artificial, transição energética, cidades inteligentes, digitalização de serviços, economia verde, mineração estratégica e inovação pública. São temas relevantes. Se estivesse vivo,
hoje, Milton Santos nos obrigaria a desconfiar da superfície das palavras e interrogaria: Modernizar para quem? Digitalizar com que acesso? Produzir energia limpa impondo quais custos aos territórios? Extrair minérios deixando que tipo de passivo social e ambiental? Tornar a cidade inteligente para o cidadão ou apenas para a administração de fluxos, contratos, interesses e vigilância sobre a própria população?
Em 1994, Milton Santos recebeu o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, a mais alta distinção mundial da área, frequentemente chamada de “Nobel da Geografia”. Foi o primeiro e continua sendo o único latino-americano a receber essa honraria. O reconhecimento não decorreu apenas do brilho individual de um acadêmico excepcional. Sua obra renovou a Geografia ao articulá-la com urbanização, economia política, técnica, globalização, pobreza, cidadania e desigualdades do mundo periférico.
O geógrafo fez o pensamento brasileiro falar ao mundo sem pedir licença aos centros tradicionais e produziu uma teoria universal a partir de uma experiência situada: o Brasil, a periferia, o Sul global, os territórios submetidos à modernização incompleta.
No Roda Viva, Milton afirmou que “o intelectual existe para criar o desconforto”. Honrar sua memória não é apenas celebrar sua obra e os 100 anos de seu nascimento, mas preservar a sua pergunta incômoda sobre a sociedade, os governos e nós mesmos.
Dona Letícia sabia que apresentar Milton Santos a adolescentes do interior representava abrir uma janela para enxergar o Brasil profundo. O geógrafo fez da Geografia uma forma de lucidez pública e ensinou que o mapa, quando lido criticamente, revela muito mais do que fronteiras e caminhos: revela as desigualdades, as ausências e as formas de poder.
Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br
