Que efeitos tem em Minas, a neutralidade da Federação União PP na sucessão presidencial?
Desgastes de Flávio Bolsonaro e interesses políticos nos estados, liberam União e PP para alianças locais. Em Minas, o impasse é outro. A federação se prepara para desembarcar da coligação de Mateus Simões e decide entre dois caminhos

De olho na eleição de bancadas federais fortes nos estados, União e PP decidiram pela neutralidade na disputa presidencial. Assim, em cada estado, os dois partidos estão livres para alianças segundo o interesse político local: há regiões do país mais lulistas; outras mais bolsonaristas. Em cada unidade da federação, as duas legendas trilharão o caminho que melhor atenda às chapas proporcionais à Câmara dos Deputados, o que de fato importa às duas legendas, interessadas em manter grande participação na distribuição do fundo partidário e do fundo eleitoral, além do tempo de propaganda.
O PP se inclinava, em princípio, para a coligação com Flávio Bolsonaro. Mas o episódio com Daniel Vorcaro, a briga com Michelle Bolsonaro, dentre outros desgastes mais recentes como a polêmica envolvendo as urnas e novos fatos associados ao caso Master, levaram ao reposicionamento, apesar de Flávio Bolsonaro seguir como nome mais competitivo da direita para alcançar o segundo turno. O Republicanos vive o mesmo impasse no plano nacional, em que pese ainda poder rever a sua posição até 5 de agosto, prazo das convenções nacionais. Sem formalizar coligação com Republicanos e a Federação União-PP, Flávio Bolsonaro perderá cerca de 28% do tempo da propaganda eleitoral gratuita. A federação tem 20% desse tempo, sendo o seu grande ativo eleitoral.
Em Minas, a União Progressista vive outro tipo de impasse. Os dois partidos estão na base do governador Mateus Simões (PSD) e haviam firmado compromisso de compor a coligação dele à reeleição. Mas, o pré-candidato ao Senado da federação, Marcelo Aro (PP), está em choque frontal com o PSD de Mateus Simões, após a filiação do senador Carlos Viana à legenda. Viana é também candidato ao Senado. Como há duas vagas na chapa majoritária, o PSD defende lançar Aro e Viana. Mas Aro considera que a presença de Viana ameaça o seu desempenho. Por isso, exige que ele não seja referendado na convenção do PSD, que será em 2 de agosto. Se o PSD homologar em ata a candidatura de Viana, Aro se prepara para o desembarque. Não à toa, a federação adiou a própria convenção, em princípio agendada para 1º de agosto, para o dia seguinte à convenção do PSD.
Aro está em intensa articulação com o União e o PP no plano nacional e com o Republicanos no plano estadual. O caminho que irá trilhar a federação União PP em Minas dependerá do senador Cleitinho (Republicanos). Se Cleitinho for candidato ao governo, Aro trabalha para concorrer ao Senado por essa chapa. Republicanos projeta uma chapa pura, encabeçada por Cleitinho, com o vice Luís Eduardo Falcão. Nesse desenho, o PL indicaria Domingos Sávio para o Senado. E Aro seria o segundo nome da chapa. Nessa posição, Aro tentaria compensar a desvantagem que leva entre eleitores bolsonaristas, que se inclinam a dar o segundo voto ao Senado a Carlos Viana.
O PL poderá não aceitar esse desenho: em princípio, projeta a aliança com Republicanos, indicando o vice de Cleitinho, que seria Vittorio Medioli. Se não houver consenso na legenda em Minas e, no plano nacional, o PL entender que precisa de um palanque que abrace de forma mais assertiva a candidatura de Flávio Bolsonaro, poderá lançar o seu próprio nome ao governo. Nessa hipótese, o empresário Flávio Roscoe é o mais cotado.
Cleitinho ainda não anunciou a sua candidatura ao governo de Minas.
O Republicanos, que agendou a convenção partidária para este sábado, 25, espera uma confirmação. Se Cleitinho não concorrer, o segundo cenário projetado pela Federação União PP seria lançar Marcelo Aro ao governo de Minas. Como o PSD, até este momento, pretende manter Viana na chapa, será na prorrogação do jogo e na definição de Cleitinho, que a federação União PP resolverá se o balão de ensaio Aro ao governo se tornará realidade.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


