Lula e Trump em momento sensível para ambos
Pauta de minerais críticos tem impacto direto em Minas Gerais, estado mais rico do mundo em recursos totais de nióbio, o terceiro em grafita, o quinto em reservas lítio; há também, em Poços de Caldas e no Alto Paranaíba, grandes depósitos de terras raras

Tanto para Donald Trump quanto para Lula trazer uma agenda positiva é o principal propósito do encontro. Politicamente é um momento sensível para ambos. Os dois países estão em ano eleitoral. Em meio à guerra do Irã, que empurrou a economia mundial para um cenário inflacionário, um choque de energia e incertezas geopolíticas, Donald Trump enfrenta 62% de desaprovação, a maior taxa em seus dois mandatos, segundo levantamento do Washington Post-ABC News-Ipsos. Já Lula tem o desempenho reprovado por metade da população.
Nos Estados Unidos haverá eleições legislativas de meio do mandato. O Partido Republicano de Trump enfrenta perspectivas difíceis: vão ser eleitos os 435 parlamentares da Câmara e um terço dos assentos do Senado e a tendência é, neste momento, de formar uma maioria democrata na Câmara, em condições de barrar parte da agenda de Trump. Já Lula enfrentará a sucessão presidencial com índices de desempenho que colocam as perspectivas de vitória em zona de incerteza: as pesquisas apontam situação de empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Nesse contexto tudo indica que o encontro entre os dois presidentes, - segundo a agência Reuters, mediado pelo proprietário da JBS, Joesley Batista - , deverá evitar pautas ideológicas, focando temas econômicos e de segurança pública. Mas, mesmo nessas pautas, há pontos de tensão. Do ponto de vista da segurança pública, Trump quer classificar as organizações PCC e Comando Vermelho (CV) como terroristas, o que tem consequências econômicas, porque pode haver sanções para investimentos, além de consequências políticas, já que dá margem legal para intervenções americanas em território brasileiro, colocando a soberania nacional em risco. Lula quer evitar isso. Chega ao encontro com uma proposta de acordo bilateral de combate ao crime organizado.
Em relação à agenda econômica, são temas que devem entrar na pauta a política tarifária e não tarifária, data centers, big techs e terras raras. A Câmara dos Deputados aprovou nessa quarta-feira proposta que cria regras e busca incentivar a indústria nacional na exploração dos minerais chamados críticos. Esse é tema prioritário norte-americano e são conversas que interessam Minas Gerais de perto: é o estado mais rico do mundo em recursos totais de nióbio, o terceiro em grafita, com grande maioria das minas ativas localizadas no extremo nordeste do estado e sudeste da Bahia. Minas é também o quinto estado em reservas globais de lítio, com mais de 90% da produção e depósitos localizados no Médio Jequitinhonha - o chamado Vale do Lítio. Embora não seja líder em terras raras no país, estão em Minas grandes depósitos principalmente na região de Poços de Caldas e no Alto Paranaíba.
O encontro envolveu uma preparação minuciosa, com gestões diplomáticas sigilosas de alto nível e também, apoio de empresários com interesses nos dois países. Embora a expectativa seja de uma agenda positiva, a imprevisibilidade sempre entra no cálculo em se tratando de Donald Trump. Que o digam o ucraniano Volodymyr Zelensky e o sul-africano Cyril Ramaphosa. Vamos acompanhar se a “excelente química” descrita por Trump em relação a Lula segue em alta.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


