Sem abate e sem pasto: Embrapa avança na produção de carne produzida em laboratório
Processo baseia-se em técnicas de bioengenharia de tecidos e medicina regenerativa

Uma revolução silenciosa e tecnológica está acontecendo nos laboratórios da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Cientistas brasileiros estão desenvolvendo técnicas para produzir carne diretamente em laboratório, uma alternativa que elimina o abate de animais e promete reduzir drasticamente as pressões ambientais da pecuária tradicional, como o desmatamento e as emissões de gás metano.
O projeto é fruto de um esforço conjunto. Na vanguarda da iniciativa estão a Embrapa Suínos e Aves (Concórdia-SC), que já desenvolveu protótipos de filés de peito de frango, e o Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), sediado em Brasília. Paralelamente à carne, o LNANO também tem criado alimentos impressos de base 100% vegetal, como simulações de filé de salmão, caviar e anéis de lula.
Como funciona a receita da carne de laboratório?
O processo baseia-se em técnicas de bioengenharia de tecidos e medicina regenerativa — as mesmas utilizadas para recuperar órgãos humanos lesionados. A produção segue quatro etapas principais:
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A biópsia: uma pequena amostra de células é retirada de um animal vivo, sem causar danos a ele.
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O isolamento: no laboratório, os cientistas separam as células que formam o tecido (musculares, de gordura e conjuntivas) e selecionam o tipo exato que desejam multiplicar.
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O cultivo: essas células são mergulhadas em um meio líquido aquecido, rico em oxigênio e nutrientes essenciais (como glicose, aminoácidos e sais minerais), onde começam a se duplicar aceleradamente.
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A estruturação (ancoragem): para virar "carne" de verdade, as células musculares precisam se fixar em alguma superfície para crescer de forma organizada. É aí que entra a grande inovação da Embrapa.
O segredo está nos andaimes invisíveis
Para guiar o crescimento das células, a Embrapa desenvolveu suportes biológicos (chamados de scaffolds) e microcarreadores esféricos feitos a partir de proteínas vegetais.
A olho nu, essas estruturas parecem pedaços finos de papel. Sob o microscópio, no entanto, revelam-se malhas porosas nanométricas que imitam a matriz natural de um organismo vivo. À medida que as células se espalham e se agarram a esses "andaimes" comestíveis, elas ganham a forma, a firmeza e a textura adequadas, garantindo que o produto final tenha a percepção mastigatória de uma carne convencional.
O uso de insumos vegetais reduz consideravelmente a dependência de compostos de origem animal em todo o ciclo de fabricação.
Próximos passos e o mercado no Brasil
Os cientistas também trabalham no desenvolvimento de uma película comestível vegetal para servir como invólucro (tripa) para embutidos cultivados, como linguiças. A expectativa é que esse ativo tecnológico chegue à vitrine de inovações da Embrapa até meados de 2027. A partir daí, o projeto deve abrir espaço para parcerias com a iniciativa privada para viabilizar a produção industrial e a comercialização.
A corrida pela carne cultivada já movimenta grandes agroindústrias e startups no Brasil. O setor conta com respaldo legal desde 2023, quando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou a Resolução RDC nº 839, estabelecendo o marco regulatório para esses alimentos no país. Com isso, o Brasil se posiciona ao lado de pioneiros globais como Singapura, Estados Unidos, Israel e Austrália, que já possuem aprovações comerciais e regulatórias para o consumo de proteínas de laboratório.
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