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Apple apresenta primeiro iPhone dobrável após 19 anos de design tradicional

Empresa revela smartphone com ecrã flexível que abre como livro, marcando mudança profunda no formato do iPhone e teste crucial para novo CEO John Ternus

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Imagem meramente ilustrativa • Reprodução | Redes Sociais.

A Apple prepara-se para revelar aquele que poderá ser o seu primeiro iPhone com ecrã dobrável. O equipamento representa a mudança mais profunda no design do aparelho desde o lançamento do modelo original, em 2007.

O smartphone deverá utilizar um ecrã flexível que abre e fecha como um livro, permitindo que o telefone seja fechado para ocupar menos espaço e aberto para proporcionar uma superfície de visualização maior. A apresentação acontece num momento particularmente importante, uma vez que John Ternus assumiu na semana passada o cargo de diretor executivo da empresa.

Por que esta mudança de design representa um marco histórico

Desde 2007, o iPhone manteve uma característica fundamental: um equipamento retangular, com ecrã de vidro na parte da frente e estrutura traseira em vidro ou metal. A Apple tornou o aparelho mais fino, alterou as extremidades, aumentou os ecrãs e eliminou o botão principal, mas nunca abandonou verdadeiramente esse formato.

O lançamento de um iPhone dobrável representará, por isso, uma mudança muito mais significativa do que qualquer atualização anterior. O equipamento deverá funcionar como um livro, permitindo que o telefone seja fechado para ocupar menos espaço e aberto para proporcionar uma superfície maior.

A mudança coloca a Apple perante um desafio que vai muito além da engenharia do aparelho. Os smartphones dobráveis estão disponíveis comercialmente desde 2018, mas continuam a representar uma parcela reduzida do mercado mundial de telemóveis.

O desafio de transformar tecnologia de nicho em produto popular

A Apple raramente é a primeira a apresentar uma determinada ideia ao mercado, mas construiu ao longo dos anos uma reputação assente na capacidade de transformar tecnologias existentes em produtos mais refinados. A estratégia combina design apurado, marketing forte e produção em grande escala.

Os primeiros modelos de smartphones dobráveis chegaram ao mercado com preços elevados e enfrentaram problemas relacionados com o software e a resistência dos componentes. A Samsung apresentou em 2019 o Galaxy Fold, com abertura vertical semelhante à de um livro. A Motorola lançou em 2020 o Razr, com sistema de abertura horizontal inspirado nos antigos telemóveis de concha.

Nos anos seguintes, mais fabricantes de eletrónica de consumo começaram a apostar neste segmento. A Google apresentou o Pixel Fold em 2023. Apesar da multiplicação de propostas, a procura continua relativamente limitada quando comparada com o conjunto do mercado de smartphones.

De acordo com dados da Counterpoint Research, empresa especializada no acompanhamento do mercado de telemóveis, os fabricantes de eletrónica venderam no ano passado quase 20 milhões de smartphones dobráveis. O número correspondeu a menos de 2% de todas as unidades de smartphones enviadas para o mercado.

Expectativas de vendas e penetração no mercado

A expectativa para a Apple é bastante mais ambiciosa do que o desempenho histórico dos smartphones dobráveis. A Counterpoint prevê que a tecnológica possa enviar mais de 12 milhões de iPhones dobráveis no próximo ano.

Esse volume equivaleria a cerca de 5% de todas as unidades de iPhone que a empresa deverá comercializar. Trata-se de uma projeção significativamente superior à penetração atual dos dispositivos dobráveis no mercado global.

Bob O'Donnell, fundador da empresa de investigação TECHnalysis Research, considera que a Apple tem conseguido resultados extraordinários sem, contudo, criar novas categorias de produtos nos últimos anos. Segundo o analista, "a empresa tem-se saído incrivelmente bem, mas, no fim de contas, não criou novas categorias", acrescentando que um iPhone dobrável mostraria "um lado da Apple que não vemos há muito tempo".

O obstáculo do preço e o impacto no comportamento de compra

A principal barreira à adoção do novo iPhone poderá estar no preço. David Vogt, analista do banco de investimento UBS, estima que a versão base do dispositivo deverá custar pelo menos 2.000 dólares. O valor resulta sobretudo da maior complexidade e do custo dos componentes necessários para fabricar um smartphone dobrável.

O preço colocaria o equipamento muito acima da atual gama premium da Apple. O iPhone Pro começa nos 1.099 dólares, o que significa que um eventual dobrável poderá custar quase o dobro do modelo topo de gama convencional.

O valor poderá também limitar um dos efeitos comerciais que normalmente beneficiam a Apple quando lança um novo iPhone. Segundo Vogt, existe habitualmente um efeito halo: um consumidor entra numa Apple Store para comprar um iPhone e acaba também por adquirir outros produtos, como AirPods ou um Apple Watch.

Esse mecanismo poderá funcionar de forma diferente com um iPhone dobrável. O analista admite que o preço poderá criar um problema para o orçamento dos consumidores, descrevendo-o como uma possível "questão de carteira".

Como a inteligência artificial pressiona os custos de produção

O crescimento acelerado da inteligência artificial aumentou a procura por componentes de memória e armazenamento, pressionando os preços desses produtos utilizados por computadores, tablets e smartphones.

A Apple já aumentou, em junho, os preços de alguns Mac e iPad, justificando a decisão com o aumento dos custos dos chips de memória e armazenamento. A pressão sobre os componentes poderá, por isso, chegar também aos novos equipamentos.

Num produto particularmente complexo como um smartphone dobrável, em que o ecrã e outros componentes exigem soluções específicas, o impacto dos custos de produção poderá ser ainda mais relevante.

A Apple tem procurado, entretanto, encontrar formas de manter os consumidores ligados ao seu ecossistema mesmo perante equipamentos cada vez mais caros. Em julho, a empresa apresentou um programa que permite aos clientes alugar iPhones e outros dispositivos através de pagamentos mensais, criando uma alternativa à compra imediata do equipamento.

O verdadeiro desafio está em convencer consumidores a trocar de iPhone

Mais do que saber se a Apple consegue fabricar um iPhone dobrável, a questão central será perceber se os consumidores consideram a possibilidade de dobrar o telefone uma razão suficientemente forte para substituir o aparelho que já possuem.

Os dados de comportamento dos compradores sugerem que essa tarefa poderá não ser simples. No ano passado, cerca de dois terços das pessoas que compraram iPhones afirmaram fazê-lo porque os seus equipamentos anteriores tinham deixado de funcionar ou tinham sido danificados, perdidos ou roubados.

Apenas 14% indicaram as novas funcionalidades como principal razão para comprar um novo iPhone, segundo um inquérito da Consumer Intelligence Research Partners, empresa de investigação especializada no mercado tecnológico.

Michael Levin, parceiro da Consumer Intelligence Research Partners, sublinha precisamente essa dificuldade. Segundo o analista, os smartphones dobráveis "não fizeram assim tanta diferença" para as empresas que já os comercializam. Por isso, existe o risco de os consumidores encararem o novo iPhone como um produto "meramente vistoso" ou demasiado "de nicho".

A questão que a Apple terá de responder é simples, segundo Levin: "Porque é que a possibilidade de dobrar é a funcionalidade que faz com que as pessoas queiram atualizar?"

O que esta apresentação representa para o novo CEO John Ternus

O lançamento chega num momento simbólico para a Apple. Durante anos, os eventos de apresentação do iPhone foram acontecimentos mediáticos de grande dimensão, com público ao vivo, música e forte componente de espetáculo.

Nos últimos anos, porém, os lançamentos de outono tornaram-se apresentações de marketing mais contidas, com grande parte das demonstrações realizadas através de vídeos previamente gravados.

John Ternus, que assumiu o cargo de CEO apenas na semana passada, terá agora a tarefa de recuperar parte desse impacto. O desafio é particularmente relevante depois de anos de críticas segundo as quais a Apple perdeu parte da capacidade de surpreender o mercado e de lançar produtos capazes de criar novas categorias.

Um iPhone dobrável poderá ser precisamente a oportunidade para contrariar essa perceção. Se a empresa conseguir combinar uma tecnologia que já existe no mercado com o seu habitual nível de integração de hardware e software, forte estratégia de marketing e capacidade de produzir milhões de unidades, poderá tentar transformar os smartphones dobráveis num produto muito mais popular.

A Apple parte, contudo, de uma posição diferente da dos fabricantes que introduziram primeiro esta tecnologia. Samsung, Motorola, Google e outras empresas já tiveram vários anos para testar diferentes formatos, preços e soluções técnicas.

A aposta da Apple em diferenciar-se dos concorrentes

A Apple terá de convencer os consumidores de que vale a pena pagar significativamente mais por uma tecnologia que, até agora, permaneceu restrita a uma pequena parcela do mercado.

A apresentação poderá representar mais do que o lançamento de um novo iPhone. Será também um teste à capacidade da Apple para voltar a criar entusiasmo em torno de uma categoria de produto.

Será ainda um teste à capacidade de John Ternus para imprimir uma nova dinâmica à empresa logo no início do seu mandato. Se o dobrável conseguir ultrapassar a barreira do preço e convencer os consumidores de que oferece uma vantagem real face aos iPhones tradicionais, a Apple poderá ajudar a levar os smartphones dobráveis do segmento de nicho para o mercado de massas.

Se não conseguir, o novo equipamento poderá revelar-se sobretudo uma demonstração tecnológica cara, com impacto limitado no comportamento dos consumidores.

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