Ex-padrasto que matou adolescente confessa crime e é indiciado por feminicídio no RS
Investigações descartaram a hipótese de um vicaricídio e negaram indícios de violência sexual; vítima foi esfaqueada dentro da casa do suspeito após conflito entre eles

O ex-padrasto de Alice Nitz, de 14 anos, foi indiciado por feminicídio pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul. A adolescente foi morta a facadas na cidade de Encantado, no Vale do Taquari, há pouco mais de duas semanas, em 17 de agosto desse ano. O homem, identificado como Wagno Arezi Henika, de 40 anos, está preso preventivamente e confessou à polícia ter cometido o crime. O inquérito foi concluído e encaminhado ao Judiciário.
A delegada Dieli Caumo, responsável pela investigação, informou à Itatiaia que a polícia manteve a classificação como feminicídio após analisar os elementos reunidos durante o inquérito e ouvir familiares e outras testemunhas. Segundo ela, a investigação descartou a possibilidade de vicaricídio após constatar que o assassinato não foi cometido com a intenção de atingir a mãe de Alice, ex-companheira do suspeito.
A possibilidade de vicaricídio chegou a ser considerada no início da investigação porque Alice era enteada de Wagno e o crime ocorreu após o fim do relacionamento dele com a mãe da adolescente. O vicaricídio foi um crime incluído no Código Penal em abril de 2026 e ocorre quando alguém mata uma pessoa ligada a uma mulher com a finalidade específica de causar sofrimento, punição ou controle sobre ela. Para esse crime, a legislação prevê uma pena de 20 a 40 anos de prisão.
Ainda segundo a delegada Dieli Caumo, o relacionamento entre Wagno e a mãe da adolescente terminou de forma pacífica. Mesmo depois da separação, os dois continuaram amigos e não havia, segundo os relatos colhidos pela polícia, um histórico de conflitos entre eles. “Ele tinha uma boa relação com a ex-companheira, foi um término totalmente pacífico, sem nenhum conflito, inclusive eles mantinham uma amizade depois que se separaram”, explicou a delegada.
Para a Polícia Civil, a motivação do crime estava diretamente relacionada à relação entre Wagno e Alice, e não a uma tentativa de atingir a mãe da adolescente. “A motivação foi estritamente entre ele e a vítima. Ele não tinha a intenção de atingir a ex-companheira”, afirmou Dieli.
Relação de pai e filha
Um dos elementos considerados pela investigação foi a relação construída entre Alice e o ex-padrasto ao longo dos anos. Wagno começou a se relacionar com a mãe da adolescente quando Alice tinha apenas um ano de idade. Os dois permaneceram juntos por cerca de 13 anos, período em que ele assumiu uma posição de figura paterna na vida da menina.
Mesmo após o término do relacionamento com a mãe de Alice, a proximidade entre os dois permaneceu. Segundo a polícia, eles moravam no mesmo bairro, a poucas quadras de distância, e era habitual que a adolescente frequentasse a casa do ex-padrasto. “Ela tinha ele como pai, ele tinha ela como uma filha, criou desde que ela tinha um ano de idade”, disse a delegada.
A investigação, no entanto, identificou uma característica considerada relevante na relação entre os dois: o comportamento controlador de Wagno em relação à adolescente. Segundo Dieli, familiares relataram que o homem era rígido e exercia um controle considerado excessivo sobre Alice.
“Ele tinha uma relação de muito controle em relação à vítima, era uma relação de pai, mas muito controlador, muito possessivo em relação à menina”, explicou. Ainda conforme a delegada, esse comportamento nunca havia chegado a um nível que, antes do assassinato, fosse identificado pelos familiares como uma situação de violência ou ameaça. “O único indício que tinha era esse controle que ele tinha mais exacerbado em relação a ela, mas nunca de forma violenta ou ameaçadora”, completou a autoridade policial.
Não havia, inclusive, registros policiais anteriores de violência física, ameaças ou ocorrências de violência doméstica envolvendo o suspeito. “Ele não tinha antecedentes policiais, não tinha nenhuma ocorrência envolvendo violência doméstica, muito pelo contrário”, afirmou.
A delegada também relatou que familiares de Alice, incluindo a mãe e as irmãs da adolescente, disseram que não consideravam Wagno uma pessoa violenta. “Os familiares, a ex-companheira, as irmãs da vítima relataram que ele não era violento, que não tinha ameaça, não tinha esse indício”, contou. Por isso, segundo ela, o assassinato provocou surpresa entre pessoas próximas à família. “Realmente foi uma situação que gerou uma surpresa muito grande para todo mundo”, disse a delegada.
Suspeito 'perdeu a cabeça'
Também de acordo com a investigação, houve um conflito entre Wagno e Alice pouco antes do crime. O suspeito declarou à polícia que matou a adolescente durante uma discussão e confessou, em depoimento, a autoria. A delegada afirmou que, segundo a versão apresentada pelo próprio investigado, a discussão fez com que ele “perdesse a cabeça”.
Ainda durante as investigações, a perícia da Polícia Civil também descartou uma das hipóteses levantadas durante as primeiras etapas da investigação: não foram encontrados indícios de violência sexual.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



