O Ministério Público do Paraná (MP-PR) oficializou, nesta quinta-feira (15), a denúncia contra Thayane Smith pelo crime de omissão de socorro. A jovem é acusada de
De acordo com o documento assinado pelo MP, Thayane percebeu que Roberto estava em situação de extrema vulnerabilidade, mas optou por seguir o trajeto sozinha. O órgão destaca que a mulher tinha plena consciência dos perigos geográficos da região e do estado físico do companheiro de trilha.
“A denunciada permaneceu sem a intenção de auxiliar nas buscas, demonstrando interesse apenas em seu próprio bem-estar físico, mesmo após ser alertada dos riscos da situação por outros montanhistas”, afirmou um trecho da denúncia.
A investigação aponta que Roberto apresentou sinais de debilidade física ainda durante a subida, passando mal sucessivas vezes e manifestando dificuldade para caminhar. Mesmo diante desse quadro e da periculosidade do terreno, ele foi deixado para trás.
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Com a apresentação da denúncia, o Judiciário deverá decidir se torna Thayane Smith ré no processo. O crime de omissão de socorro, previsto no Código Penal, pode gerar pena de detenção ou multa, sendo aumentada se a omissão resulta em lesão corporal de natureza grave ou morte.
O que diz a lei e as consequências propostas
O Código Penal estabelece uma pena máxima de até seis meses de detenção. O MP propôs um acordo jurídico para Thayane Smith, que prevê que a jovem indenize a vítima e pague ressarcimento ao Corpo de Bombeiros. Além disso, a mulher ainda deve prestar serviços comunitários.
Na proposta apresentada, o Ministério Público requer:
- R$ 4.863,00 (equivalente a três salários-mínimos) como indenização por danos materiais e morais ao jovem de 19 anos;
- R$ 8.105,00 de ressarcimento pelos custos das operações de busca e salvamento realizadas pelo Corpo de Bombeiros;
- Prestação de serviços comunitários por parte da investigada, pelo período de três meses, com cinco horas semanais junto ao Corpo de Bombeiros de Campina Grande do Sul.
Segundo a Promotoria, as medidas refletem a mobilização de recursos públicos e voluntários na operação de salvamento, que envolveu esforços oficiais e civis para localizar o rapaz desaparecido, e visam também ressarcir os prejuízos materiais e simbólicos decorrentes da omissão de socorro por parte de Thayane. O processo segue agora para análise do Juizado Especial Criminal, onde a transação penal deverá ser discutida e, se aceita, implementada conforme os termos sugeridos.
Relembre o desaparecimento do jovem
Roberto estava desaparecido desde a na noite do dia 31 de dezembro, quando ele e uma amiga decidiram fazer uma trilha pelo Pico Paraná, que com 1.877 metros é considerado o ponto mais alto da região Sul do Brasil.
Os dois subiram até o acampamento 1, onde descansaram por algumas horas antes de seguir em direção ao cume, por volta das 3h da madrugada. Durante a subida, outros trilheiros relataram que Roberto passou mal, apresentando sinais de fraqueza e vômitos.
Mesmo debilitado, ele conseguiu chegar ao topo por volta das 4h, após receber auxílio de outros integrantes do grupo, que lhe deram água e alimento. Ao amanhecer, os trilheiros iniciaram o percurso de descida. Neste momento, em um ponto antes do retorno ao acampamento 1, Roberto ficou para trás e não foi mais visto.
Após o desaparecimento do jovem, Thayane Smith, a amiga que havia subido a trilha com Roberto, começou a ser questionada e alguns de seus depoimentos polêmicos à imprensa viralizaram nas redes sociais. Internautas apontaram a falta de responsabilidade de Thayane sobre Roberto.
Como Roberto foi encontrado
Roberto relatou que se perdeu quando, ao chegar a uma bifurcação sem sinalização clara ou contato visual com os companheiros, ele acabou tomando uma direção equivocada que o levou a uma queda em um barranco, parando no topo de uma cachoeira.
A rotina de privações nos dias seguintes foi severa, marcada pela ausência total de alimentos. Roberto sobreviveu consumindo apenas pequenas quantidades de água filtrada da própria cachoeira, mantendo a cautela por não conhecer a potabilidade do recurso. Em um dos episódios mais críticos, o jovem foi arrastado pela correnteza por cerca de 1,5 quilômetro, resultando na perda de seus óculos e de uma de suas botas. Além da fome, o jovem enfrentou condições climáticas adversas, com chuvas constantes, e o contato direto com a fauna local.
No segundo dia, ao deixar de avistar o helicóptero de buscas que notara na data do desaparecimento, Roberto chegou a acreditar que as operações de resgate haviam sido encerradas, percepção agravada pelo barulho intenso da mata e da água, que abafava qualquer som externo.
Roberto caminhou mais de 20 km até a Usina Hidrelétrica CGH de Cacatu. Imagens de uma câmera de segurança mostram o momento em que o jovem chega a uma fazenda. No local, ele pediu ajuda e ligou para a irmã, comunicando que estava vivo. Em outro vídeo é possível ver Roberto carregando no local uma mochila e uma garrafa. Ele aparenta estar com dificuldades para andar.
Roberto foi encaminhado e ficou internado no Hospital Municipal da cidade de Antonina, a cerca de 84 km de Curitiba, e recebeu alta nesta terça-feira (6).