Entenda ligação entre brasileiros sancionados pelos EUA, PCC e Corinthians
Ação do Departamento do Tesouro dos EUA sancionou Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira por suposto vínculo com a facção criminosa

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos realizou, nessa quarta-feira (1º), uma sanção contra Victor Henrique de Oliveira Shimada por suposto vínculo ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O brasileiro já havia sido investigado por ser operador financeiro em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o Corinthians e a VaideBet.
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, também sancionada nesta manhã, é citada pelos Estados Unidos como uma associada próxima e parente de Victor, tendo trabalhado como sua secretária e intermediária para a coleta de grandes quantias em dinheiro.
Segundo o departamento americano, ela fornecia serviços logísticos essenciais que apoiaram Shimada e sua rede em suas operações de lavagem de dinheiro.
Shimada é sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia, incluída na lista de sanções do OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros), dos Estados Unidos, nesta manhã. A empresa é suspeita de participar de uma estrutura de lavagem de dinheiro para o PCC e chegou a ser citada em uma delação premiada de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach.
Ao Ministério Público, Gritzbach cita a agência de jogadores UJ Football Talent, que participaria, segundo ele, da lavagem de dinheiro para a facção. A investigação revelou que a Victory transferiu R$ 200 mil para a conta bancária da agência em março de 2024.
Esse valor seria originário de transferências milionárias que a Victory havia recebido da empresa Wave, que, supostamente, também teria sido aberta por Victor. A Wave realizou mais três transferências para a UJ Football Talent Intermediação, totalizando cerca de R$ 870 mil desviados.
Para a Polícia Civil de São Paulo, a UJ Football Talent recebeu esses valores como "retribuição a compromissos financeiros pendentes assumidos” por Augusto Pereira de Melo, então presidente do Corinthians.
Victor foi denunciado pelo Ministério Público por associação criminosa e furto qualificado. A acusação aponta que o empresário, em conjunto aos demais denunciados, "agiu em concurso de agentes, dissimulando, reiteradamente e mediante sucessivas transferências financeiras entre empresas de fachada, a origem e propriedade de valores provenientes dos crimes de associação criminosa e furto qualificado".
Ligação com o Buzeira
De acordo com a Polícia Civil, extratos bancários extraídos da Victory mostraram operações milionárias realizadas com o influenciador digital Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira, preso desde 14 de outubro de 2025 por lavagem de dinheiro envolvendo casas de apostas (bets) e o tráfico internacional de drogas.
Os relatórios mostram que as transações entre a Victory e a Buzeira Digital, empresa do influenciador, ocorreram logo após o envio de recursos à UJ Football. Os valores são apontados entre R$ 490 mil e R$ 510 mil em 1° de abril de 2024, somando mais de R$ 1 milhão.
Atuação nos EUA
Segundo o departamento americano, Shimada é um elo fundamental entre o PCC na Flórida e traficantes de drogas estrangeiros. Ele teria lavado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos gerados em cidades dos Estados Unidos e arredores, usando criptomoedas para transferir fundos de volta ao Brasil em nome da facção.
As autoridades americanas acusam Stella Stefanie de atuar como "secretária" de Shimada, operando na coleta de grandes quantias de dinheiro.
Conforme divulgado pelos Estados Unidos, Victor foi preso em janeiro de 2025, no Brasil, porque a Victory foi usada para lavar dinheiro desviado do Corinthians em um esquema de fraude publicitária.
Como resultado da sanção, todos os bens e interesses em bens de Shimada que estejam nos Estados Unidos, ou em posse ou sob o controle de pessoas do país, estão bloqueados e devem ser comunicados ao OFAC.
O comunicado aponta que quaisquer entidades que sejam detidas, direta ou indiretamente, individualmente ou em conjunto, em 50% ou mais por uma ou mais pessoas bloqueadas, também estão bloqueadas.
O que dizem as defesas
A defesa de Shimada informou que apresentou renúncia ao mandato outorgado pelos Estados Unidos. Leia na íntegra:
“Apresentamos renúncia, por motivo de foro íntimo, aos mandatos que nos foram outorgados, em todos os processos que atuávamos em nome do Sr. Victor Shimada e as empresas que ele representa ou representava. Citada renúncia engloba todos os advogados e associados de nosso escritório.”
Governo brasileiro reage
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, reagiu nesta quarta-feira (1º) às medidas anunciadas pelos Estados Unidos envolvendo organizações criminosas. “A soberania precisa ser respeitada”, afirmou o ministro durante coletiva de imprensa após a inauguração do ENA (Escritório Nacional Antifacção), em São Paulo.
Segundo o ministro, eventuais decisões tomadas pelo governo norte-americano produzem efeitos apenas em território americano e não alteram a estratégia brasileira.
Wellington acrescentou que o Brasil continuará aperfeiçoando seus próprios mecanismos de enfrentamento ao crime organizado, ressaltando que as ações desenvolvidas pelo país são coordenadas entre as diferentes forças de segurança.
*Com informações de Bruna Lopes e Rafael Saldanha, da CNN Brasil
Yuri Cavalieri é jornalista e pós-graduado em política e relações internacionais. Tem mais de 13 anos de experiência em rádio e televisão. É correspondente da Itatiaia em São Paulo. Formado pela Universidade São Judas Tadeu, na capital paulista, começou a carreira na Rádio Bandeirantes, empresa na qual ficou por mais de 8 anos como editor, repórter e apresentador. Ainda no rádio, trabalhou durante 2 anos na CBN, como apurador e repórter. Na TV, passou pela Band duas vezes. Primeiro, como coordenador de Rede para os principais telejornais da emissora, como Jornal da Band, Brasil Urgente e Bora Brasil, e repórter para o Primeiro Jornal. Em sua segunda passagem trabalhou no núcleo de séries e reportagens especiais do Jornal da Band.
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