Sagrado avesso
No deserto, o povo do Antigo Testamento e, neles, cada um de nós, que atualiza a vida como travessia, está diante de um “rosto”

No Antigo Testamento, particularmente, no Pentateuco, o judaísmo faz a experiência da "face". Em primeiro, atravessando o deserto e por meio de Moisés, Israel descobre a Deus como rosto.
Esse achado se converte, inclusive, bênção legada ao Povo: "que o Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti" (Nm 6). Em segundo, visitando as próprias dores, os israelitas, precisam encontrar os rostos uns dos outros. São desafiados a amar quem está diante de si, como um "a si" (Lv 19,18).
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Eis o primeiro desafio na relação com Deus. Ele não tem nome "próprio". Não é como João, Maria, Antônio. Na medida em que se revela, dá a conhecer seus nomes "apropriados": o eterno, Senhor dos Exércitos, todo-poderoso, amor, fidelidade. Essas são as suas feições. Não admite imagens. Mostra-se na relação.
Estar diante do rosto de YHWH (Adonai), três vezes santo, significa, por reflexo, santificar-se (Lv 20,7). Donde decorre que a misericórdia recebida d'Ele se torna, em nós, um imperativo. Israel deve alcançar o órfão, a viúva, o migrante com o olhar com que foi alcançado (Dt 10).
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Atualizemos o "hoje”
Atualizemos o “hoje” tão presente no Pentateuco, particularmente, no livro do Deuteronômio. Será oportuno fazê-los nestes tempos de crise. E aqui, não pensamos nas crises morais, financeiras, políticas. Sempre as teremos. Falo da crise do "rosto". As telas estão nos sequestrando à face.
É pelo excesso de tela que a gente se autoriza a postar antes de ver. É por causa delas que tudo vira filtro. Estamos todos filtrados, sem modéstia, sem rugas, perdendo o senso da realidade. É graças às telas que a gente se autoriza a desprezar o rosto, sagrado avesso, por detrás do celular. A polarização política nos roubou o rosto.
Sim, sagrado avesso. Pois o rosto, seja de Deus ou dos outros, nem sempre nos é agradável ou confirma. Às vezes, a face ou a imagem que deles fazemos revela o pior de nós.
Mas não nos enganem: toda face é sagrada. O encontro com o rosto não se profana. Todos merecem nossos olhos, o benefício da dúvida, outro ponto de vista.
Se há fé, há encontro. Não há encontro sem rosto. Por isso, o contrário da fé, não é a simples descrença, é a perversão do rosto do outro e do Totalmente Outro. Isso seja como julgamento, descrença, ou idolatria.
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



