Rejeição e jogos online: PC revela motivação de crimes em padaria na Grande BH e temia novos ataques

Investigação da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) aponta histórico de perseguição a mulher que rejeitou relacionamento e rotina intensa em jogos de tiro

Da esquerda para a direita, Ione, Nathielly, Yone e Emanuely.

Magno Ribeiro da Silva, de 30 anos, suspeito de matar três mulheres em uma padaria e de atacar uma oficina em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi indiciado pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), que descartou totalmente a participação de um adolescente de 17 anos que havia sido apreendido após o crime. As informações foram divulgadas em coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira (9).

As três mulheres foram baleadas em 4 de fevereiro em uma padaria da Rua Josué Martins de Souza, no bairro Lagoa. Os tiros atingiram Nathielly Kamilly Fernandes Faria, de 16 anos, e Ione Ferreira Costa, de 56, que morreram no local, e Emanuely Geovanna Rodrigues Seabra, de 14 anos.

A adolescente foi socorrida com vida, mas morreu no hospital. No dia seguinte, Magno teria ido à uma oficina e atirado contra funcionários. Com isso, segundo a PC, ele deve responder por três feminicídios e uma tentativa de homicídio.

A PC afirmou que o homem não relatou a motivação do crime, mas as investigações apontaram ''baixa tolerância à rejeição’’ e excesso de jogos.

“Não temos isso [a motivação] verbalizado pelo autor. Nas oitivas, ele não quis falar sobre os atos. Sobre os fatos, ele permaneceu em silêncio. Mas, ao analisarmos o perfil, a PC identificou um indivíduo muito fechado, muito sistemático, com baixa tolerância à rejeição e que, de certa maneira, conforme ele mesmo disse, ‘o excesso de tecnologia estaria afetando a cabeça dele’”, disse o delegado Marcus Rios.

Segundo o delegado, há relatos de que o suspeito passava grande parte do dia jogando jogos de tiro. “Não estamos dizendo que o jogo de tiro foi a causa disso. Ele traz isso como um fator. Percebemos na execução dos crimes uma certa performance que mimetizava essas performances em jogos pelo celular, como a forma de progressão no local e a estilização da arma de fogo. Não é comum ver arma de fogo estilizada com adesivo de camuflagem”, afirmou.

Jogava o dia todo e motivação fútil

Para a seleção dos alvos, as motivações seriam muito superficiais, segundo as autoridades. “Por exemplo, no caso da oficina, ele foi ao local cerca de 10 dias antes pedindo um curso de pintura de veículos. Foi informado de que não havia estrutura, e o autor foi embora. Essa foi a única interação dele com esse local: a rejeição de um curso de pintura.”

Ele também teria tentado uma aproximação com uma das funcionárias e não teria sido bem-sucedido. “Isso também vai ao encontro do histórico dele. Há diversos registros envolvendo ele e uma mulher anos antes, quando ele tentou iniciar um namoro. Ela não aceitou. Para ele, isso não foi superado. Ele ficou anos perseguindo essa mulher, com ameaças, tentativas de agressão contra ela e familiares, invasão à casa e ida ao local de trabalho.”

Homem tentou matar 4ª vítima, diz polícia

Tudo indica que ele poupou a quarta vítima e chegou a fazer uma careta antes de ir embora. A arma de fogo não disparou, possivelmente por falta de munição ou por falha mecânica.

De acordo com a sobrevivente, de 19 anos, após ele atirar nas três mulheres, ela implorou para que não fosse baleada. “Eu implorei para que ele não atirasse em mim. Ele saiu e fez uma careta. Foi uma cena que nunca vou esquecer, foi muito rápido”, relatou à Itatiaia na semana passada, quando completou um mês do crime.

Polícia temia novo ataque

Indícios levaram a polícia a concluir que os dois crimes foram cometidos pela mesma pessoa. “Cerca de 15 horas após a execução, tivemos um atentado na região, a três minutos da padaria. Diante da possibilidade de se tratar do mesmo autor, fomos até o local da oficina e conversamos com as vítimas da tentativa. Elas relataram que o indivíduo chegou ao local com uma motocicleta parecida com a utilizada na padaria, usando um capacete semelhante e com comportamento parecido no momento da ação: chegou sem falar nada, com progressão tática, arma de fogo empunhada com as duas mãos, e efetuou disparos aleatoriamente. Ele não chegou a atingir nenhuma das duas vítimas.”

O suspeito Magno Ribeiro da Silva, de 30 anos. Ele foi localizado e preso em casa no bairro Céu Azul, na Região de Venda Nova de Belo Horizonte.

A Polícia Civil também se preocupou com a possibilidade de o suspeito tentar novos atentados e, por isso, divulgou frames das imagens registradas na oficina.Na padaria, o homem usou uma mochila de lanche, que também foi encontrada na casa dele. Já na oficina, utilizou uma touca ninja — item que igualmente foi localizado na residência do suspeito.

''A arma utilizada é a do crime, o que desconfigura o indício de participação do menor que havia sido apontado como suspeito naquela ocasião’’, disse, complementando que a arma era de fabricação artesanal.

Ainda de acordo com as investigações, Magno havia adquirido recentemente kits táticos, colete balístico e placa balística, além de ter escrito uma carta de despedida para a mãe, mencionando medo de uma eventual execução, possivelmente em confronto com a polícia.

''E, na carta, ele não afirma que praticou o extermínio; apenas diz que morreu. O que nos leva a acreditar ser possível que ele estivesse até se preparando para um eventual confronto com a polícia’’, disse.

Adolescente apreendido é inocente

Um adolescente, de 17 anos, foi apreendido e autuado em flagrante sob a suspeita de ato infracional análogo ao crime de homicídio qualificado. Ele é ex-namorado de Nathielly Kamilly.

Em entrevista à Itatiaia, a mãe do adolescente garantiu que o filho não tem envolvimento com o triplo homicídio e disse ter provas de que ele estava em casa no momento do ataque.

Após a prisão e confissão de Magno, o advogado do adolescente classificou a apreensão como o “maior erro judiciário de Minas Gerais”.

Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.
Jornalista formado em Comunicação Social pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH). Na Itatiaia desde 2008, é “cria” da rádio, onde começou como estagiário. É especialista na cobertura de jornalismo policial e também assuntos factuais. Também participou de coberturas especiais em BH, Minas Gerais e outros estados. Além de repórter, é também apresentador do programa Itatiaia Patrulha na ausência do titular e amigo, Renato Rios Neto.

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