População em situação de rua em Minas Gerais cresce 41% em cinco anos

Levantamento foi feito pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG com dados do CadÚnico

População em situação de rua de Belo Horizonte participa de censo em parceria com UFMG

O número de pessoas em situação de rua em Minas Gerais teve um crescimento relevante desde 2020, no início da pandemia de Covid-19, até 2025. Dados de um levantamento de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, com base no Cadastro Único do governo federal (CadÚnico), mostra que a população em situação de extrema vulnerabilidade saiu de 23.433 para 33.139 em meia década, um crescimento de 41%.

As estatísticas compiladas pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua e pelo programa Polos de Cidadania mostram que, em número gerais, o estado está atrás apenas de São Paulo (150.958) e Rio de Janeiro (33.656). No Brasil como um todo também houve um salto no período pesquisado, de 194.824 para 365.882, um avanço de 87%.

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Segundo o pesquisador Cristiano Silva, do Polos/UFMG, a história da população em situação de rua é de uma herança de vulnerabilização social e falta de políticas públicas estruturais, que ocorre desde o fim da escravidão, quando os recém libertos foram despejados nos morros sem nenhum tipo de auxilio.

“Pensando em uma perspectiva mais recente, esse quadro de pessoas já vulnerabilizadas historicamente e com vidas já precárias, foram prejudicadas mais ainda durante a pandemia. A partir desse “boom” da precarização das pessoas nesse período, com a precarização das políticas públicas para pessoas vulneráveis, elas começam a se projetar nas ruas”, explicou.

Belo Horizonte é a terceira cidade do país com o maior número de pessoas em situação de rua, com 15.474 registros no CadÚnico, atrás apenas de São Paulo, com 101.461, e Rio de Janeiro, com 23.431. Ainda de acordo com Silva, a concentração nas capitais e grandes centros urbanos ocorre em um contexto de infraestrutura, conflitos fundiários e emergência climática.

“As pessoas que moram no interior são forçadas a se deslocar dos seus lugares. (...) Temos outra questão: o Brasil é o país com uma das maiores forças da América Latina, então há uma migração de outros países. Essa migração força a chegada de outras pessoas nas capitais, que são os principais centros urbanos e com abrigos”, disse o pesquisador.

Porém, segundo ele, é possível observar o aumento de pessoas em situação de rua no interior. Em relação a Minas Gerais, Silva destaca que as políticas públicas estão sendo fechadas com um discursos violentos de autoridades contra essa população, ao invés de uma política de acolhimento. “Quando a gente tem um poder público que não se preocupa, a tendência é que esse número aumente”, emendou.

Em nota, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) de Minas Gerais, destacou o compromisso com a promoção e a garantia dos direitos da população em situação de rua. Segundo a pasta, desde 2019 o estado fortalece as políticas públicas voltadas à população em situação de rua, com foco na “articulação intersetorial” e no apoio aos municípios.

“É importante destacar que, conforme a estrutura do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), cabe ao Estado organizar, coordenar, monitorar e cofinanciar a política Estadual de Assistência Social, além de prestar apoio técnico e financeiro aos municípios. Já a execução direta dos serviços socioassistenciais, incluindo aqueles voltados à população em situação de rua, é de responsabilidade primária dos municípios”, disse.

A pasta também afirma que atua reforçando a orientação aos municípios quanto à proteção dos direitos da população em situação de rua, “incluindo o respeito à dignidade, à integridade e à vedação de práticas que violem direitos fundamentais, como o recolhimento indevido de pertences”. A Sedese cita como exemplo da atuação investimentos feitos com o Piso Mineiro de Assistência Social, que em 2025 teve um valor de R$ 130,7 milhões, e a integração com instituições não governamentais.

“A Sedese também mantém investimentos estruturantes voltados diretamente à moradia. Um exemplo é o Projeto Piloto Moradia Primeiro, desenvolvido em parceria com a Pastoral do Povo da Rua, em BH. A iniciativa prevê, em sua primeira etapa, a reforma e melhoria de unidades habitacionais, com investimento de R$ 500 mil, já em execução. A segunda etapa, com investimento previsto de R$ 5 milhões, contempla a construção de novas moradias e de um Centro de Atenção Intersetorial para pessoas em situação de rua”, afirmou o governo.

Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

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