'Nunca houve racismo', diz advogado sobre bombeiro que matou policial em bar de BH
Defesa afirma que vítima chegou bêbada a bar no bairro Santa Tereza e disse que 'todos os bombeiros são uns bostas'; Naire Assis Ribeiro vai a júri popular

O advogado do bombeiro militar Naire Assis Ribeiro, acusado de matar o policial penal Wallysson Alves dos Santos Guedes em um bar no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, em fevereiro de 2024, negou que seu cliente tenha assassinado a vítima por conta da cor de pele dele. Naire é reu pelos crimes de homicídio triplamente qualificado e racismo, e vai a júri popular (relembre o caso no fim da matéria).
Em nota enviada à Itatiaia, Audrey Silveira alegou que não houve motivo racial e afirmou que Wallyson proferiu xingamentos: 'A vítima já chegou no bar muito embriagada, falando de forma tão desconexa que “enrolava a língua”. Quem via achava que era um estrangeiro. Portava uma arma na cintura, para fora da camisa. Naire e outras pessoas ao conversar com a vítima foram agredidos por palavras. A vítima dizia que “bombeiro não é polícia” e que não tinha que “dar satisfação a um bombeiro de merda”, que “todos os bombeiros são uns bostas que gostam de pagar de polícia”.'
'Naire achou que um policial não se portaria assim. Ligou três vezes para a polícia (2h02m, 2h19m e 2h28m), dizendo que uma pessoa estava bêbada e armada em público. Naire foi treinado nos bombeiros a descrever um elemento por gênero, característica, idade e vestimentas. Por isso disse à atendente do 190 que se tratava de um homem, negro de 40 anos. A atendente da PM, no lugar de enviar uma viatura que teria resolvido a questão e evitado o crime, ficou debatendo com Naire sobre a cor da pele da vítima, ficou perguntando “qual o problema de a pessoa ser negra?” “você só consegue dizer que ele é negro”, continuou o advogado.
'Nunca houve racismo, a briga ocorreu entre um homem bêbado, agressivo, não identificado, com arma ostensiva na cintura e um morador do bairro, bombeiro aposentado e preocupado com a segurança dos presentes', concluiu Audrey Silveira em nota.
Denúncia fala em racismo
A denúncia apresentada pelo Ministério Público de Minas traz detalhes da conversa entre Naire e a Polícia Militar. Na ligação feita por Naire para o 190, o bombeiro tenta denunciar o fato de que Wallysson, um homem negro, estava armado no bar na região Leste da capital mineira e se identificando como policial penal. No diálogo, ele demonstra não conseguir acreditar que a vítima, um homem negro, poderia ser agente de segurança.
- Naire: ‘eu sou subtenente, eu tô com uma pessoa aqui falando que é militar aqui, eu acho que ele é haitiano, se identificando como militar, eu queria é…’
- 190: ‘Mas o que ele está fazendo?’
Naire: ‘se identificando como militar e ele não é militar’
- 190: ‘Entendi, mas e aí senhor? Ele está mostrando distintivo? Ele está cometendo algum crime? Ele está fazendo algum mal para as pessoas?’
- Naire: ‘Oh minha querida, ele tá identificando como militar e ele não é militar, entendeu?’
Pouco depois, a atendente pediu para o bombeiro passar as características do policial. Naire voltou a fazer comentários racistas:
- 190: ‘Qual característica do indivíduo, senhor?’
- Naire: ‘É negro’
- 190: ‘A única característica que o senhor está me dizendo é que ele é negro?’
- Naire: ‘Lógico, ele é haitiano’
- 190: ‘Mas e aí senhor? Qual é o problema dele ser negro, haitiano? Eu não estou conseguindo entender’
Relembre o caso
A Polícia Militar (PM) foi acionada na rua Tenente Freitas, 258, e encontrou a vítima sangrando muito e ainda respirando. O policial penal foi socorrido para o Hospital João XXIII, passou por cirurgia, mas não resistiu e acabou morrendo.
Testemunhas contaram à corporação que o policial e o bombeiro estavam bebendo juntos e que, em determinado momento, o bombeiro questionou o policial penal sobre o porquê dele estar armado. Assim, teria se iniciado uma discussão entre os dois.
Ainda conforme o relato de quem estava lá, o bombeiro saiu, foi em casa, buscou o revólver e atirou diversas vezes no policial penal, fugindo de moto logo em seguida. Contudo, os militares encontraram o suspeito. Ele foi preso e o revólver calibre 38. apreendido.
Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.



