Itatiaia

‘Não é justo um pai de família ganhar R$ 3 para ir buscar seu lanche’, denunciam motoboys

Em entrevista à Itatiaia, entregadores denunciam cobranças para trabalhar, corridas a preços abusivos e falta de insfraestrutura de apoio na capital mineira

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Diego Luiz, de 22 anos. • Reprodução | Itatiaia

Centenas de motoboys e entregadores de aplicativo tomaram as ruas de Belo Horizonte nesta sexta-feira (31) em adesão ao chamado “Breke Nacional”, mobilização realizada simultaneamente em capitais de todo o país. O protesto teve concentração na Praça do Papa, passou pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e terminou na Praça Sete, no Centro da capital.

Em entrevista ao programa Itatiaia Agora, da Itatiaia, os trabalhadores denunciaram uma série de desafios. De acordo com os relatos dos motoboys, eles enfrentam  jornadas de até 14 horas de trabalho, recebem valores considerados insuficientes pelas corridas e não contam sequer com estrutura básica para trabalhar. “Há sete anos eu mijo no matinho”, disse o entregador Ronan, de 33 anos, ao descrever a rotina de quem passa o dia nas ruas sem acesso a banheiro. “As mulheres que trabalham na entrega também não têm nenhum tipo de suporte. Isso é o básico.”

A principal reivindicação da categoria é o aumento do valor pago por quilômetro rodado. Os manifestantes defendem um piso de R$ 1,50 por km e corrida mínima de R$ 7,50. “A gasolina está R$ 6,50, tem lugar que está R$ 7,50, e tem gente correndo por R$ 3,50”, afirmou o motoboy Carlos Magno. “Um pneu fura e são R$ 20 para colar. A embreagem estraga e são R$100. Fora óleo, manutenção e documento da moto.”

Para muitos entregadores, o valor recebido não cobre os custos do próprio veículo. “A moto é minha, o risco é meu e a necessidade é minha. Corrida abaixo de R$ 1 por quilômetro é humilhação”, completou Ronan.

"O nosso serviço é luxo. O passageiro quer ir ali, se ele pede a gente, é luxo. Eu vejo assim, você quer pedir um iFood, é luxo. O iFood está rodando a R$ 3,00. Isso é justo? Um pai de família ganhar R$ 3,00 para ir lá buscar seu lanche. Ainda temos que esperar muitas vezes 40 minutos para o restaurante entregar a encomenda do cliente. Depois, chega lá e ainda espera o cliente. Já aconteceu de o cara estar lá esperando o cliente descer e ser assaltado, perder a sua moto. Tudo isso por R$3,00", desabafou o entregador. 

Veja imagens da manifestação:

Cobrança para começar a trabalhar

Outro ponto que gerou revolta foi o chamado “passe”, taxa que, segundo os entregadores, passou a ser cobrada por algumas plataformas antes do início das atividades. “Antes você ligava o aplicativo e começava a trabalhar. Agora tem que pagar primeiro”, afirmou Ronan. “E o pior: dizem que é taxa zero para o cliente, mas descontam do trabalhador do mesmo jeito.”, completou.

Ainda em entrevista à Itatiaia, o entregador Diego Luiz, de apenas 22 anos, reforçou a crítica. “O aplicativo está cobrando da gente para poder trabalhar. A gente sai de casa no sol ou na chuva e ainda tem que pagar para rodar.”

Falta de pontos de apoio

A ausência de locais de descanso, água potável e banheiros foi uma das queixas mais recorrentes. Segundo os manifestantes, apenas um ponto de apoio mantido pelo iFood funciona em Belo Horizonte, o que consideram insuficiente para atender trabalhadores da capital e da região metropolitana. “Se a gente não entrar em um bar e consumir alguma coisa, não consegue usar o banheiro”, contou Diego. “As empresas não disponibilizam nenhum apoio.” A categoria também cobra acesso gratuito a banheiros em shoppings e grandes redes de restaurantes, além de espaços cobertos para descanso e carregamento de celular.

Os entregadores lembraram o papel desempenhado durante a pandemia de Covid-19, quando mantiveram serviços de entrega funcionando mesmo em períodos de isolamento social. “Durante a pandemia fomos nós que movíamos a cidade, levando comida, remédio e ajudando quem não podia sair de casa”, disse Diego. “Depois disso, parece que fomos esquecidos.”

Confira a entrevista completa:

Mobilização nacional

O “Breke Nacional” prevê novas paralisações neste sábado (1º) e domingo (2). Em Belo Horizonte, os organizadores afirmam que o ato reuniu centenas de motociclistas sem registro de tumultos. Além do reajuste das corridas e dos pontos de apoio, a pauta inclui remuneração por tempo de espera em restaurantes, transparência nas rotas antes da aceitação do pedido, revisão de bloqueios automáticos de contas e ampliação do seguro contra acidentes e assaltos.

O que dizem as plataformas

A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas como 99, iFood, Uber, Amazon, Alibaba, Lalamove e Zé Delivery, informou em nota que “respeita o direito à realização de manifestações pacíficas” e mantém “canais de diálogo contínuo com os profissionais parceiros”.

Segundo a entidade, as plataformas buscam equilibrar as demandas de entregadores, lojistas, consumidores, motoristas e passageiros, levando em conta a necessidade de renda dos trabalhadores e o custo do serviço para os clientes.

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Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

 

 

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