Familiares de vítimas protestam um mês após acidente com ônibus que matou 10 no RJ
Parentes cobram justiça, fiscalização e assistência; quatro das dez vítimas eram moradoras da Vila Acaba Mundo, em Belo Horizonte

Um mês depois do acidente com um ônibus de turismo que deixou dez mortos na BR-040, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, familiares e amigos das vítimas voltaram às ruas para cobrar respostas. O protesto foi realizado na Vila Acaba Mundo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, onde quatro das vítimas moravam.
Entre as principais reivindicações estão a responsabilização dos envolvidos na tragédia, mais fiscalização sobre os ônibus de turismo que deixam a comunidade e assistência às famílias e aos sobreviventes. Os parentes também questionam a continuidade das viagens promovidas pela empresa responsável pelo coletivo.
Durante o ato, familiares relataram que passaram o último mês sem receber, segundo eles, o acompanhamento que esperavam da empresa Estrela Guia, responsável pelo ônibus. Para Maria Luísa Pereira de Souza, que perdeu a filha Lavínia, de 7 anos, e a irmã Priscilla de Souza Braz, de 33, a principal cobrança é por justiça.
“Eu perdi minha filha de sete anos, nunca mais vou ver ela. Nós queremos justiça. Não tem dinheiro, não tem nada que vai curar minha dor, que vai trazer minha filha e minha irmã de novo”, desabafou. "Minha filha tinha um futuro todo pela frente. Acabou. Minha filha era muito amada, muito querida. Acabou com a minha vida, acabou com o sonho da minha filha”, disse a mulher.
Maria Luísa também estava no ônibus no momento do acidente. Segundo ela, a filha de quatro anos também ficou ferida e precisou de atendimento. A família contou ainda com ajuda de moradores da comunidade para comprar medicamentos e enfrentar as despesas após a tragédia.
A mãe afirma que esperava algum contato da empresa ao longo do último mês. “Até hoje eles não mandaram uma mensagem para nós, perguntando como é que nós estamos", disse a mulher. Ela também acusa a empresa de ter continuado a divulgar viagens depois da tragédia e afirma que teria havido apenas mudanças na identificação do negócio.
'A gente quer justiça'
Outro familiar ouvido durante o protesto foi Helto Matheus. Ele perdeu a mãe, Luciana Ferreira Carvalho, de 53 anos, e a irmã, Jhennifer Ferreira Carvalho, de 33, no acidente. Ele questiona a fiscalização das viagens de turismo que saem de Belo Horizonte e também cobra investigação sobre a conduta do motorista envolvido na tragédia.
Segundo Helto, passageiros teriam reclamado da velocidade durante o trajeto. Ele afirma que uma das familiares chegou a pedir ao motorista que diminuísse a velocidade. “Todo mundo que estava no ônibus falou que ele estava acelerando. Minha irmã até foi nele, pediu ele para ir mais devagar e, na hora, ele tirou ela e tudo mais. E hoje ele tá lá com a família dele e eu tô sem minha mãe, sem minha irmã", disse o jovem.
“A única coisa que a gente quer é ver o culpado, o real culpado, preso. O motorista também tem que botar a cara e falar, assumir que ele estava em alta velocidade.”, disse. “A gente perdeu familiares. Eu perdi minha mãe, que era o meu maior amor, minha irmã. [...] E a Justiça não fez nada, a polícia não fez nada, ninguém fez nada. [...] Foram 10 vidas perdidas que não estão importando para ninguém e passaram batido", completou Helto.
Ônibus era irregular
O familiar também questiona como o ônibus conseguiu percorrer o trajeto entre Belo Horizonte e Petrópolis sem ser impedido, diante da situação irregular apontada pelas autoridades. “Como é que esse ônibus saiu daqui, foi até Petrópolis, passou por [...] Polícia Rodoviária e ninguém parou esse ônibus?”, apontou.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informou após a tragédia que o veículo não estava habilitado para realizar transporte interestadual de passageiros. Segundo a agência, a operação era caracterizada como transporte clandestino de passageiros. A fiscalização aparece como uma das principais reivindicações do protesto. Os familiares questionam a atuação dos órgãos responsáveis pelo controle do transporte e pedem que novas viagens irregulares sejam impedidas.
As declarações sobre eventual responsabilidade criminal, velocidade do veículo e conduta do motorista ainda dependem das investigações e das conclusões das autoridades, que estão sob responsabilidade da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Para os familiares, a preocupação também está relacionada à possibilidade de outras pessoas serem colocadas em situação semelhante. “Todo final de semana você vai ver [...] viajando no Instagram, trocaram só o CNPJ, trocou o nome, mas o dono é o mesmo. Continua fazendo viagens", denunciaram os manifestantes.
O que diz a empresa?
Estrela Guia afirmou que não fará mais manifestações sobre o caso e que eventuais esclarecimentos serão apresentados nos autos dos processos.
Relembre o acidente
O acidente aconteceu na madrugada do dia 16 de agosto, na BR-040, na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. O ônibus da Estrela Guia Turismo havia saído de Belo Horizonte com destino a Copacabana, no Rio de Janeiro. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o veículo transportava passageiros e dois motoristas quando tombou na rodovia. Ao todo, dez pessoas morreram.
Entre as vítimas estavam quatro moradoras da Vila Acaba Mundo: Jhennifer Ferreira Carvalho, de 33 anos; Lavínia Eduarda Souza Dias, de 7; Priscilla de Souza Braz, de 33; e Luciana Ferreira Carvalho, de 53. A Polícia Civil do Rio de Janeiro, por meio da 105ª DP, em Petrópolis, investiga as circunstâncias do acidente. A perícia também foi acionada após a ocorrência.
Além da investigação sobre a dinâmica do acidente, a situação do transporte utilizado também passou a ser alvo de questionamentos. Conforme a ANTT, o ônibus não possuía autorização para realizar transporte interestadual de passageiros.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Formado em jornalismo pela PUC Minas, foi produtor do Itatiaia Patrulha e hoje é repórter policial e de cidades na Itatiaia. Também passou pelo caderno de política e economia do Jornal Estado de Minas.




