Na volta do trabalho, na ida à igreja, no transporte público ou por aplicativo, na hora do almoço ou à noite, na rua e até dentro de casa. Em diferentes situações do cotidiano, o medo ainda acompanha muitas mulheres. Em 2025, um estupro foi registrado a cada seis minutos no Brasil, segundo dados do governo federal. Em meio a esse cenário de insegurança, muitas mulheres buscam formas próprias de proteção no dia a dia.
Em Belo Horizonte, o atleta e professor de MMA Pablo Felipe oferece aulas gratuitas de defesa pessoal para mulheres. Ele explica que as técnicas ensinadas podem ajudar em situações de agressão.
“Eu costumo passar para elas técnicas em pé. Elas aprendem a dar soco, ajoelhada, cotovelada e também a derrubar o agressor. Aprendem ainda a se defender de uma queda e, se caírem no chão, conseguem aplicar uma chave de braço ou até estrangular o agressor com a própria camisa dele. O MMA é ideal para isso, porque mesmo no chão a pessoa consegue continuar se defendendo”, afirma.
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Segundo o professor, algumas alunas já precisaram usar o que aprenderam nas aulas. “Tenho apenas dois meses de projeto e já tive duas alunas agredidas nesse período. Elas disseram que as técnicas que ensinei ajudaram para que não acontecesse algo pior”, relata.
Medidas protetivas e desafios
Quando o assunto é violência doméstica, muitas vezes nem a lei é suficiente para garantir proteção. No ano passado, mais de 100 mil medidas protetivas de urgência foram descumpridas no país. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em Minas Gerais cerca de 16% das mulheres mortas por feminicídio tinham medida protetiva.
No Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, mulheres também se unem para enfrentar a violência por meio da coletiva Mulheres de Quebrada, que acolhe moradoras da comunidade que muitas vezes precisam deixar tudo para sobreviver.
A fundadora do grupo, Simone Cigali, explica as dificuldades enfrentadas nas periferias.
“A medida protetiva é uma ferramenta de proteção legal, mas ainda é falha, principalmente porque dentro das favelas muitas vezes ela não consegue chegar de fato. Já tivemos casos em que as mulheres não conseguiram a viatura Maria da Penha. O agressor é preso, mas depois volta para casa. São inúmeras situações que mostram que, mesmo com a medida, as mulheres ainda precisam de mais proteção”, afirma.
Dor que não termina
A violência de gênero não atinge apenas mulheres das comunidades, mas atravessa todas as classes sociais.
A publicitária Lorenza de Pinho, de 41 anos, está entre as vítimas que não conseguiram se salvar. Ela foi morta em 2021 por intoxicação e asfixia. O marido, o promotor André Pinho, foi condenado a 22 anos de prisão por feminicídio.
O pai de Lorenza, Marco Aurélio Silva, afirma que, apesar da condenação, a dor permanece. “Dia 2 de abril faz cinco anos que minha filha se foi. Para mim parece que foram cinco dias. Cada um tem seu tempo de luta, e o meu está muito longe de terminar. Eu continuo muito deprimido e sinto uma dor que não sei explicar em palavras”, diz.
Ele também se diz assustado com o aumento dos casos no país. “Já imaginaram como um promotor de Justiça tem coragem de matar a esposa, mãe de cinco filhos? Cinco anos depois eu continuo me assustando com o número de feminicídios no Brasil. Só aumenta”, lamenta.
Onde buscar ajuda
Mulheres que estejam passando por situações de violência ou que conheçam alguém nessa condição podem buscar ajuda pelo telefone 180, canal nacional de atendimento e orientação.