Caso Alice: 'gostaria que o MP interviesse', diz pai de vítima após decisão da Justiça
Magistrado desconsiderou qualificadoras do homicídio e impronunciou um dos acusados; mulher trans morreu após ser espancada por garçons na capital mineira

Após a Justiça desconsiderar as qualificadoras de feminicídio/transfobia e meio cruel no caso de Alice Martins, mulher trans, de 33 anos, que morreu após ser espancada por garçons na capital mineira, o pai da vítima, Edson Alves, pede ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para intervir na decisão da juíza sumariante do 1º Tribunal do Júri de Belo Horizonte, Ana Carolina Rauen Lopes de Souza.
“Estou extremamente decepcionado com a decisão e gostaria que o Ministério Público interviesse sobre o assunto, porque uma vida foi perdida. Eu me sinto extremamente perdido também, desamparado pelo Estado. Essa decisão deve ser repensada, o Ministério Público tem que 'cair para cima'”, disse Edson, em entrevista à Itatiaia.
Na decisão, divulgada nessa quinta-feira (7), a juíza pontuou que não encontrou elementos suficientes para concluir que Alice foi agredida por ser uma mulher trans. A magistrada também revogou a prisão preventiva de Arthur Caique Benjamin de Souza, que vai responder em liberdade com tornozeleira eletrônica.
A juíza, para justificar a decisão de retirar as qualificadoras de feminicídio/transfobia, afirmou que Arthur foi criado “por seu tio, que é homoafetivo”, conforme apontaram testemunhas do processo.
Em entrevista à reportagem, o pai de Alice reiterou que, para ele, a filha sofreu “um crime de ódio e transfóbico”. Edson relatou que a filha já havia dito ter sofrido preconceito no Rei do Pastel, local onde os agressores trabalhavam.
“Alice já queixava um sentimento de preconceito nesse Rei do pastel. Ela relatou que eles [funcionários] zombavam dela, chavam ela de 'traveco'. Ela queixou isso comigo”, disse.
Edson ainda acredita que Arthur deveria continuar preso, afirmando que ele “é um perigo para a sociedade”. “É uma pessoa desequilibrada, que trouxe essa dor imensa para milhares de pessoas. Ele tem que estar preso, a Justiça tem que repensar essa atitude", contou.
Enquanto isso, o garçom Willian Gustavo de Jesus do Carmo foi impronunciado, ou seja, a juíza concluiu não haver provas suficientes para submetê-lo ao Tribunal do Júri atualmente. A magistrada ressaltou que uma nova ação penal poderá ser proposta em caso de novas provas.
Em busca de Justiça
Edson Alves diz estar em busca de Justiça, que, para ele, é sinônimo de amor. “Justiça é amor, o amor nos protege. O Estado tem que nos amar, mas não está nos amando. A Justiça é aceitar, conviver em harmonia e não permitir abusos que a gente vê todos os dias”, disse.
Está muito difícil viver sem ela, tenho que me superar todos os dias. O meu trabalho foi prejudicado, perdi a produtividade, porque o coração, quando está dilacerado, é difícil firmar a mente. AInda mais diante de um fato tão grosseiro, uma agressão, uma violência tão grande. Eu ainda não consegui ficar bem, estou lutando sozinho
O pai de Alice ainda agradeceu a todos que estão apoiando e lutando pela Justiça no caso da filha. “Gostaria que quem participou de momentos na vida de Alice naquela região, inclusive meninas que deram proteção para ela em uma das noites, se manifestasse, entrasse em contato pelo telefone 181 ou com o próprio advogado, e que pudesse dar algum tipo de testemunho a favor”, finalizou.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.



