Vídeo: 'Bairros BH', conheça o belo-horizontino que descobre a cidade correndo e se inspire pelos trajetos
Unindo esporte à história da capital mineira, ele já correu 70 dos 487 bairros da cidade

Jonas Veiga, Esplanada, Lagoinha, Milionários, Funcionários. O turismólogo e atleta Lucas Davis já correu 70 bairros de Belo Horizonte. A meta é correr 487, ou seja, a cidade inteira — que tem 332 km², redescobrindo (ou descobrindo) ruas e praças e contando as suas histórias.
“Belo Horizonte, surpreendente: uma hora você está em uma rua plana e, quando vira à esquerda, já se depara com uma ‘pirambeira’ que sobe até o infinito. De repente, você está na Serra do Curral com a paisagem da cidade inteira. Não tem outra cidade que te proporcione isso”, contou Lucas. Para registrar cada nova corrida e compartilhar as descobertas, ele criou uma página nas redes sociais chamada “Bairros BH”.
Tem muito trabalho prévio pra cada corrida. Antes de dar a largada, Lucas faz uma extensa pesquisa sobre o bairro escolhido: quando ele surgiu, as origens do nome, os marcos importantes para a cidade e seus moradores. Depois, planeja o trajeto. No dia seguinte, coloca o tênis, liga o cronômetro, coloca os óculos de sol e dá um ‘start’ no cronômetro do relógio - bora correr!
Confira:
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Como começou
“Desde pequeno, faço tudo correndo”, brincou Lucas, incentivado pelos pais a praticar o esporte ainda quando criança. E a ligação entre corrida e história já o levou a outros lugares. Lucas já correu a maratona chamada ‘’Caminhos de Rosa’’ em Cordisburgo, na Grande BH, que refaz os caminhos do Guimarães Rosa percorridos no Sertão Mineiro. Também já participou de uma maratona no deserto do Atacama, no Chile, e perdeu as contas das participações na Volta da Pampulha.
Apaixonado por história, geografia e, claro, Minas Gerais, fundou uma agência especializada em turismo receptivo que propõe roteiros personalizados para vivenciar o estado. ‘’A Sete Turismo tem sete anos. Trabalho com turismo desde quando eu me conheço por gente. Guiava grupos na Serra do Cipó’’, lembrou. E a partir daí, foi um pulo pra tomar gosto por conhecer lugares diferentes da capital.
Há três anos, teve a ideia de unir corrida e história e criou o projeto “Bairros BH”. Nas redes sociais, começou postando os mapas com o trajeto percorrido e um texto com as curiosidades sobre o bairro. “Eu quero conhecer lugares novos, bonitos e interessantes, que tenham história e me motivem a continuar correndo”, disse. O primeiro deles foi o Prado, na região Oeste da capital.
“Sinceramente, no início, não tinha ideia de correr com alguém. Isso porque era uma ideia bem doida mesmo. Ninguém acreditava muito que eu ia fazer”, riu. Mas, sim, os amigos se interessaram e se uniram aos desafios.
Um deles é o argentino Nícolas Bollini que mora na capital mineira há 20 anos. O esporte passou a fazer parte da rotina depois da pandemia da covid-19. “O bichinho da corrida me mordeu”, brincou. “Correr em Belo Horizonte é legal demais e ouvindo as histórias se torna mais ainda. A cidade é muito perto de trilhas, muito perto de áreas verdes. Vale muito a pena”, acrescentou.
Evolução
Neste ano, o formato de contar essas histórias mudou e Lucas experimentou gravar o percurso em vídeos no próprio celular. “A ideia é que, a cada semana, a gente publique dois vídeos — sendo um deles contando a história de um bairro inédito, nunca percorrido por nós, e outro de um bairro já percorrido, agora, em vídeo”, explicou.
Na última quarta-feira (20), Lucas publicou o trajeto do 7º bairro: Santa Tereza, na região Leste da capital — berço de ícones da música brasileira como Milton Nascimento, Fernando Brant, Márcio Borges e das bancas Skank e Sepultura.
“O objetivo é conhecer a cidade toda e tudo que tem de legal. Principalmente, as partes antigas que, às vezes, são desvalorizadas. Vivemos uma cultura que não olha para a história do lugar. Temos a vantagem de vivermos em uma cidade recente que tem, praticamente, toda a história catalogada”, complementou. O 70º bairro foi o Cinquentenário, na Zona Oeste — a maior regional da capital mineira com 53,6 km².
Os trajetos
A escolha do bairro acontece “para onde o vento sopra”, brincou, Lucas. Mas, traçar o roteiro pode ser uma missão complexa. “É complicado porque tem bairro onde fico com medo de correr porque quando faço rota, vejo que teremos que passar por lugares que ‘não são lugares’: debaixo de tubulão, sanatório abandonado, estrada de terra ou até atravessando um rio”, disse. Lucas gosta mesmo é de um bom desafio e de descobrir novos cantos pela cidade.
Às vezes, a corrida dá lugar a uma (leve) escada. Ele contou que uma das mais marcantes ocorreu no Milionários, no Barreiro. “Para chegar até o final da rua, ajoelhado para chegar no boteco. Para ir embora, desce rolando”, brincou.
Bairro dos mirantes
E qual é a história do bairro Estoril, onde fica a sede da Itatiaia? Lucas topou o desafio e fez a pesquisa e o trajeto pra correr com a equipe da rádio. O ponto de partida foi o prédio da Rádio de Minas, na avenida Barão Homem de Melo, 2222. Para essa missão, Lucas foi acompanhado do amigo Nícolas e da videomaker da Itatiaia, Naice Dias. O ano é 2023, mas a corrida começou lá nos anos 70, no início da história da região Oeste da capital mineira.
Lucas conta que a primeira fase da região Oeste se deu a partir do surgimento de uma importante via de acesso: a avenida Barão Homem de Melo. “Com isso, a região começou a atrair lojas de revenda de automóveis, academias de ginástica e quadras poliesportivas”, disse.
De acordo com o turismólogo, a segunda etapa, que marca o nascimento do bairro, se consolidou com a construção de prédios residenciais. “A fundação oficial do Estoril tal como conhecemos hoje é ainda mais recente e aconteceu em 27 de novembro de 1991”, contou.
O nome Estoril foi escolhido para homenagear uma cidade portuguesa. No caminho, a surpresa: três mirantes com uma vista deslumbrante que pouca gente conhece: mirante do Estoril (rua Jamil Farah), dos Alpes (rua José Maria Figueiró) e da Antena (rua Mario Coutinho, s/n). “Vale sair um pouquinho da pista de cooper para conhecer”, acrescentou.
A expansão do bairro ocorreu a partir da união entre parte da antiga Fazenda do Cercadinho e do antigo bairro das Mansões. O Estoril faz divisa com os bairros Buritis, Alto Barroca, Estela Dalva e Jardim América, bem como bairros da região Centro-sul, como Santa Lúcia e São Bento.
E, depois de 6,96 quilômetros, 56 minutos e muito suor, a corrida do bairro 55 se encerra. “Agora, bora para o próximo”, se despediram Lucas e Nícolas.
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.
