Araujo faz 120 anos: você conhece essa história e imagina como era BH?
Modesto lembrou que um dos marcos da Araujo é o atendimento 24 horas, iniciado em 1933, quando o fundador dormia ao lado da farmácia para atender a vizinhança
De medicamentos a leite, de lasanha a ração para cachorro, de pilha a isqueiro, de chinelo a whey. Em Belo Horizonte, existe um lugar - ou melhor, vários - onde muita gente entra para comprar um produto e acaba levando vários. E, dependendo da unidade, ainda pode estar aberto 24 horas. O nome provavelmente já veio à cabeça: a Drogaria Araujo.
No dia 20 de março de 1906, apenas oito anos após a transferência da capital mineira de Ouro Preto para a nova cidade de Belo Horizonte, uma pequena farmácia abriu as portas no novo Centro. De lá para cá, a rede cresceu, atravessou gerações e passou a fazer parte do cotidiano de muita gente. Presente em vários cantos da cidade, a Araujo também vira atração para quem visita BH pela primeira vez e descobre, meio incrédulo, que ali vende quase de tudo.
Nesta sexta-feira (20), quando a Drogaria Araujo completa 120 anos, a Itatiaia conversou com o presidente da Araujo, Modesto Araujo, neto de Modesto Carvalho de Araujo.
Como tudo começou
Para entender como a história chegou até aqui, é preciso voltar no tempo. Modesto conta que Modesto Carvalho de Araujo, nascido em São José da Lagoa, no Norte de Minas, chegou à capital nos primeiros anos da cidade, sem imaginar que ali começaria a trajetória de um império do varejo.
Modesto era um jovem balconista, que chegou à farmácia aos 17 anos para aprender o ofício e acabou enxergando ali seu projeto de vida. Trabalhando diretamente na manipulação de medicamentos e no atendimento ao público, ele percebeu o potencial de uma cidade em expansão e transformou essa experiência inicial no embrião de um negócio que atravessaria gerações
A primeira loja foi aberta na Praça Rio Branco, no hipercentro da cidade, de forma estratégica, porque o fundador já apostava que aquela região seria uma das mais movimentadas da cidade.
"Era uma farmácia pequena, com balcão tradicional, atendimento muito próximo e forte atuação farmacêutica. Naquele tempo, a farmácia era também um espaço de orientação em saúde", contou. No primeiro anúncio feito no jornal Minas Geraes mostra: ''Consultas médicas grátis de 8 as 11 horas da manha''.
A farmácia e a cidade em crescimento
Em 1906, a capital mineira era uma cidade ainda jovem, mas já inserida na experiência urbana. "BH foi inaugurada poucos anos antes em 1897, sendo uma cidade planejada com ruas e avenidas com traçado moderno e bem definido. Já existia ferrovia, os bondes já circulavam e a população era formada por funcionários públicos, trabalhadores e também imigrantes", explicou Michele Torre, historiadora do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, da Fundação Municipal de Cultura.
Sob a administração do prefeito Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, a vida da cidade se concentrava no caminho entre a Praça da Estação, no Centro, e a Praça da Liberdade, na região Centro-Sul.
Era esse circuito que estruturava a cidade e reunia ali as funções essenciais, com a estação como porta de entrada e saída de pessoas e mercadorias, e a Praça da Liberdade como centro do poder e da administração
Em 1915, a abertura de uma unidade na Rua da Bahia também não foi por acaso. No início do século XX, a via já se destacava como um dos principais eixos do comércio. “Os primeiros estabelecimentos comerciais da capital se concentravam justamente na Rua da Bahia e no seu entorno”, explicou Michele.
Segundo ela, o local já reunia marcos importantes da cidade, como o Grande Hotel, inaugurado em 1897 onde hoje está o Edifício Maletta, além do Bar do Ponto, na esquina com a Avenida Afonso Pena, conhecido como ponto de encontro de intelectuais, escritores e homens públicos da época.
Rua da Bahia-Álbum Cidade Jardim-1929-Doação Flávio Caldeira dos Santos - APCBH • Reprodução/ APCBH
A campainha ao lado da cama
Na medida que a cidade crescia, as demandas relacionadas á saúde também aumentavam. Modesto lembrou que um dos marcos da Araujo é o atendimento 24 horas, iniciado em 1933, quando o fundador dormia ao lado da farmácia para atender a vizinhança.
"Durante a madrugada, uma campainha instalada ao lado da cama do Modesto anunciava a chegada de quem precisava de atendimento urgente. Modesto se levantava, atravessava a loja silenciosa e abria a porta. O gesto, repetido inúmeras vezes, transformou para sempre a relação entre farmácia e cidade", contou.
O fusca que marcou gerações
A história da Araujo é marcada por uma série de “primeiras vezes”. Em 1963, a empresa criou o Drogatel, um serviço de atendimento por telefone que mudou a forma de vender e entregar produtos.
À direita, anúncio publicado no jornal Minas Gerais em 7 de setembro de 1927. À esquerda, fuscas usados nas entregas • Arquivo pessoal
Mais tarde, Modesto contou que passou a investir em lojas com autosserviço, em que o cliente podia circular e escolher itens nas prateleiras. Em 1998, abriu o primeiro drive-thru farmacêutico do país, na avenida Cristiano Machado. Dessa fase também ficou conhecido o Fusca usado nas entregas, que acabou virando uma imagem marcante da empresa.
"A possibilidade de ligar para a drogaria e receber medicamentos em casa era inovadora para a época e respondia a uma necessidade concreta de conveniência e acesso à saúde. (...) O Fusca ainda existe e permanece como símbolo afetivo", contou, que primeira farmácia brasileira a realizar vendas pelo WhatsApp.
O "não" às franquias, e faturamento de R$ 5,96 bilhões
Mesmo presente em 65 cidades e com mais de 360 lojas, a Araujo segue sem apostar em franquias. A rede prefere manter o controle direto da operação e continua sob gestão da própria família, que já está na quarta geração no comando da empresa.
A estrutura é gigante: são cerca de 12 mil funcionários, mais do que a população de cidades mineiras como Raposos, na Grande BH, que tem 11.235 habitantes, segundo o IBGE (2022). Para 2026, a projeção é de faturamento de R$ 5,96 bilhões, um crescimento de 15% em relação ao ano anterior.
"A força da Araujo sempre esteve muito ligada ao vínculo com o cliente. Por isso, historicamente a empresa optou por expansão própria, preservando padrão operacional, cultura e qualidade de atendimento. Em saúde, padrão importa muito. Por isso, crescemos mantendo operação própria, porque acreditamos que isso protege qualidade, cultura e confiança", disse.
Presidente da Araujo, Modesto Araujo • Play P
O futuro
Modesto Araujo disse que imagina a empresa, daqui a 120 anos, ainda mais presente na vida das pessoas e cercada por tecnologias que hoje ainda nem dá para imaginar.
“Daqui a 120 anos, imagino uma empresa ainda mais integrada à vida das pessoas, provavelmente com tecnologias que hoje nem conseguimos prever, mas mantendo algo que não muda: ser lembrada como um lugar de confiança, onde o cliente encontra o que procura, com cuidado e acolhimento. Porque a tecnologia muda, os formatos mudam, mas a confiança continua sendo o maior patrimônio de uma marca”, finalizou.
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.