“Projeto Querino” conduz olhar negro para contar a história do Brasil
Tiago Rogero transforma podcast premiado em livro que evidencia a contribuição da população negra para a riqueza econômica e simbólica do Brasil; confira entrevista

Por quase 400 anos, toda riqueza no Brasil foi produzida por mãos escravizadas: açúcar, café, ouro, o produto que você escolher. Quando o Brasil se torna o último país a abolir a escravidão, em 1888, o tráfico já estava proibido havia quase 60 anos: isso não impediu que 800 mil africanos fossem trazidos à força quando a prática já era ilegal até para a lei brasileira, que considerava o corpo negro como propriedade. Não por acaso, por quase 400 anos os traficantes foram alguns dos homens mais ricos destas terras. A defesa da escravidão uniu o país: não existe Brasil sem a história do negro escravizado.
A pesquisa dedicada que sustenta estas afirmações e dezenas de outras histórias está em "Projeto Querino", do jornalista mineiro Tiago Rogero, lançado nesta segunda (21) pela Editora Fósforo. O trabalho nasceu como podcast em 2022 e venceu o prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos. Uma versão foi publicada na revista piauí. Agora, sai em livro com material inédito.
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Confira abaixo trechos da entrevista:
Itatiaia: "Projeto Querino", um podcast premiado, é publicado agora em livro. O novo suporte mostra a força do trabalho? Como foi essa transição?
Tiago Rogero: Para quem não conhece, inicialmente foi um podcast lançado em 2022, fruto de dois anos e sete meses de trabalho. É raro a gente como jornalista ter tempo para lançar um produto assim. O que quer dizer lançar um olhar afrocentrado sobre a história do Brasil? É mostrar qual foi a participação das pessoas negras na formação do Brasil e entender como um país com tanto potencial e riqueza se tornou um país tão injusto, com gente ainda passando fome e trabalhando em empregos com condições muito ruins, ou até em condições que se assemelham à escravidão moderna. O 'Projeto Querino' felizmente teve um impacto muito positivo em audiência e ganhou o prêmio Vladimir Herzog. Comecei a receber contatos para fazer uma adaptação. No livro, a gente parte do mesmo lugar do podcast, mas é uma possibilidade de contar essa história com profundidade em outra linguagem. Passei mais um ano pesquisando para o livro, que sai agora pela Fósforo, e quem ouviu o podcast vai encontrar muita coisa nova. Quem quiser começar pelo livro, não perderá nada da experiência.
Por que o nome 'Projeto Querino'? Sobre o conteúdo ensinado nas escolas, você vê relatos da própria população negra ganhando espaço nos currículos?
Tiago Rogero: Esse nome é uma homenagem a Manoel Raimundo Quirino, um intelectual que nasceu na Bahia em 1851. Um homem negro, que nasceu livre e teve a chance de estudar, algo raro pois havia leis que proibiam pessoas negras de frequentar escolas. Ele se tornou jornalista, professor de desenho e serviu na guerra do Paraguai. Foi o primeiro intelectual brasileiro a incluir pessoas negras no processo de formação do Brasil. As pessoas negras e indígenas eram tratadas como meros adereços da história, e o Manuel Quirino é o primeiro a falar que elas não só participaram da história, mas foram protagonistas. Em termos das escolas, o que eu fico pensando é que as pessoas negras se resumiam ao escravizado no tronco sendo torturado. Isso existiu. Mas mesmo aquele escravizado que estava sendo torturado poderia resistir de outras formas, por exemplo, aprendendo a ler ou professando a sua fé, o que também era proibido. Fora isso, havia pessoas negras fazendo muitas outras coisas. A trajetória mais incrível que conheço é a do Luiz Gama, jornalista e advogado que nasce livre na Bahia no começo do século XIX, é tirado da mãe e vendido pelo próprio pai, tem contato com advogados, aprende por conta própria o direito e descobre que não poderia ser escravizado. Ele consegue a própria libertação e começa a advogar pela libertação de outras pessoas negras que também eram escravizadas ilegalmente. Ele consegue a libertação de centenas de pessoas. Eu não aprendi isso na escola. Veja como seria importante aprender esses exemplos. Assim como este, há outros exemplos que a gente traz no 'Projeto Querino'.
No livro, você destaca como durante quase 400 anos toda a riqueza do Brasil foi construída por escravizados; havia mais negros aqui do que toda a população de Portugal; 800 mil pessoas foram traficadas ilegalmente. E ainda hoje a gente vê as pessoas negando o impacto da escravidão no Brasil. Como o Projeto Querino pode explicar o tamanho da influência da escravidão ainda hoje?
Tiago Rogero: A gente vive em tempos muito confusos, é difícil diferenciar opinião de invenção e deturpação. Todas essas informações que você citou foram checadas em fontes oficiais. Não há no projeto nenhuma invenção ou exagero. Muita gente no Brasil não sabe que a gente foi o país que mais recebeu africanos escravizados. Das 12,5 milhões de pessoas tiradas do continente africano, mais de 5 milhões tinham o Brasil como destino. Destas, umas 700 mil morreram durante a viagem, e chegaram ao Brasil 4,9 milhões de escravizados. Isso é 12 vezes mais do que nos Estados Unidos, três vezes mais do que todos os nossos vizinhos na América do Sul somados. A lei de 1831 é central ao proibir o tráfico de escravizados. Mas aí veio o boom do café. Como essa riqueza seria perdida por não poderem mais trazer africanos, as classes políticas e parte considerável da população decidem desrespeitar a lei. A partir deste momento, entram 800 mil pessoas que nem poderiam ter sido escravizadas. Em 1850, uma nova lei proíbe o tráfico por pressão da Inglaterra, que ameaçou o Brasil com sua poderosa Marinha. Eles olham e falam: o que a gente faz com essas pessoas? A gente liberta? Seria complicado demais, então simplesmente se calam. A gente não aprende na escola que em 1888, quando finalmente a escravidão é abolida, as pessoas que ainda eram escravizadas são descendentes de pessoas que entraram (ilegalmente) depois de 1831. O Brasil não queria abolir a escravidão. A classe política e a família real não queriam abolir a escravidão. Só tomam essa decisão porque não tinha outra forma, o Brasil estava em ebulição. Quando finalmente estas pessoas são libertadas, repare a crueldade, não há nenhuma política de reparação para essas pessoas. Elas eram totalmente excluídas. Por esses e outros motivos a gente chega a um racismo latente ainda hoje. Basta ver que as pessoas negras estão na base de todos os indicadores socioeconômicos.
Itatiaia: Como o medo do fim da escravidão uniu o Brasil?
Tiago Rogero: É preciso lembrar que no fim do século XVIII o Haiti era uma colônia francesa muito rica que produzia açúcar. Os escravizados fazem uma revolução, tomam o controle da ilha e declaram a independência. É o primeiro país a declarar a abolição. As pessoas devolvem ao senhores brancos franceses toda a violência que vinham sofrendo, eles matam todos os brancos da ilha. Aqui no Brasil, com esse contingente muito maior de escravizados, havia um medo generalizado que pudesse haver aqui uma revolta como a do Haiti. O trabalho escravo era a principal fonte de renda no Brasil e não só de pessoas ricas. A gente pensa no grande senhor com 1000 escravos, mas a realidade do país é que um terço das famílias tinha entre um e três escravizados. Então a escravidão era a fonte de toda produção de renda no Brasil, e não só pessoas negras. No livro a gente entra em detalhes também sobre a escravização indígena, existe um senso comum de que indígenas foram escravizados só no começo, ali com (a exploração) de Pau-Brasil.
Itatiaia: A sociedade brasileira tem dificuldade de lidar com o passado e quando trata desses crimes é sempre com um olhar de anistia. Foi assim no fim da escravidão, quando não houve nenhuma medida de reparação. E os maiores beneficiados ainda hoje pela riqueza produzida pelos escravizados costumam ser contra medidas de reparação. Como você vê isso?
Tiago Rogero: Em vários momentos da história o Brasil podia ter se entendido com o passado. Em 1850 o Brasil finalmente decide que agora vai fazer cumprir a lei (que proíbe o tráfico de escravos). O que se faz com aquelas pessoas? O país poderia ter se entendido com o passado naquele momento. Da mesma forma em 1888, quando finalmente abole a escravidão. Havia em disputa naquele momento, inclusive de pessoas próximas à princesa Isabel, propostas de democracia no campo. Era uma ideia de reforma agrária. Olha o tamanho do Brasil, com as terras na época ainda menos ocupadas, poderia ter havido um planejamento para entregar terras para pessoas negras que acabaram de ser libertadas produzirem. Mas não, a lei da abolição não diz nada, e na mesma época eram dadas condições especiais de compra de terras para imigrantes europeus que foram trazidos para cá pelo governo com o interesse de tonrar a população mais branca. O italiano, espanhol ou português que foram trazidos (no fim do século XIX e no início do século XX) não porque eram melhores trabalhadores. Trabalho é o que as pessoas negras mais executaram no Brasil, e muitos africanos tinham conhecimentos complexos de sistemas agrícolas, de mineração. Mas aos imigrantes europeus foram concedidas condições especiais, políticas afirmativas foram cedidas para que pudessem prosperar aqui. Por quê? Porque era interesse do Estado brasileiro que o país se tornasse uma sociedade branca, o que a gente sabe que não aconteceu. Ao mesmo tempo, enquanto nada foi feito para as pessoas negras e seus descendentes, é por isso que a gente chega a um país hoje com tanta dificuldade em relação às políticas de ação afirmativa, como as cotas. A gente mostra no podcast e no livro a quantidade de leis que houve no Brasil para impedir que as pessoas negras tivessem acesso à educação. A desigualdade ainda reina, as pessoas não têm ainda condição para viver como cidadãos em níveis básicos. São descendentes dos que não tiveram acesso ao ensino e que por isso não conseguiram formar riqueza e deixar um patrimônio. Um país que dá oportunidades iguais a todos vai ser melhor para todo mundo, só que as elites brasileiras não pensam assim. Em diversos momentos o Brasil poderia ter trocado o trabalho escravo por uma industrialização, havia exemplos disso, mas as elites precisavam manter o sistema escravista.
Projeto Querino
Autor: Tiago Rogero
Editora: Fósforo
400 páginas
Preço: R$ 94
Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia desde 2022. Mestrando em Comunicação Social na UFMG, fez pós-graduação na Escola do Legislativo da ALMG e jornalismo na Fumec. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo



