Polícia investiga mortes de três pacientes em UTI de hospital de Taguatinga

Ex-técnicos de enfermagem são suspeitos de aplicar medicamentos e desinfetante, de forma irregular, na veia dos pacientes

Hospital Anchieta em Taguatinga - Distrito Federal

A Polícia Civil do Distrito Federal investiga a morte de três pacientes que estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga. Os óbitos, inicialmente registrados como mortes naturais, agora são apurados como homicídios.

Três ex-técnicos de enfermagem são suspeitos de envolvimento no caso. Dois deles, um homem e uma mulher, foram presos no dia 11 de janeiro durante a deflagração da Operação Anúbis. Uma terceira investigada foi detida na última quinta-feira (15). A investigação corre sob sigilo, e os nomes dos suspeitos não foram divulgados. Segundo a Polícia Civil, um dos investigados, um técnico de enfermagem de 24 anos, teria se passado por médico para prescrever medicamentos sem autorização e aplicá-los diretamente na veia de pacientes internados na UTI, sem o conhecimento da equipe médica.

De acordo com o delegado Wisllei Salomão, coordenador da Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), o técnico acessou indevidamente o sistema do hospital, utilizou a senha de um médico e realizou todo o procedimento de forma clandestina: “Ele se passou pelo médico, entrou no sistema que faz a prescrição dos medicamentos no hospital, por duas vezes, e se passando pelos médicos, ele prescreveu esse medicamento. Ele também foi até a farmácia, buscou os medicamentos, preparou, escondeu no jaleco e aplicou esses medicamentos na veia dos pacientes”, afirmou o delegado.

As investigações apontam que, logo após as aplicações, os pacientes apresentavam agravamento súbito do quadro clínico e paradas cardíacas. Ainda segundo a Polícia Civil, o técnico chegava a simular tentativas de socorro para despistar a equipe: “Eles aguardavam a reação desses pacientes. Porque esse medicamento, uma vez injetado diretamente na veia, provoca parada cardíaca em poucos segundos. E esse técnico ainda realizava massagem cardíaca tentando salvar o paciente que ele tinha aplicado a medicação”, explicou Wisllei Salomão.

Em um dos casos, segundo a polícia, quando o investigado não teve mais acesso ao medicamento, ele teria utilizado desinfetante aplicado diretamente na veia da paciente, por diversas vezes, o que também levou à morte: “Quando esse medicamento acabou, ele pegou o desinfetante que estava no leito e, por mais de dez vezes, através de uma injeção na veia, aplicou sobre esse paciente, o que causou também a morte”, completou o delegado.

Os crimes teriam ocorrido nos dias 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025. Entre as vítimas estão uma professora aposentada de 75 anos, um servidor público de 63 anos e um servidor público de 33 anos. Dois deles estavam internados em quartos vizinhos, e o terceiro ocupou posteriormente um dos mesmos leitos.

O Instituto Médico Legal do Distrito Federal confirmou que os três pacientes apresentaram piora repentina antes das mortes, apesar de terem quadros clínicos distintos. Para a diretora do IML, Márcia Reis, os profissionais envolvidos tinham pleno conhecimento dos riscos: “Os profissionais de saúde sabem a respeito dessas medicações, existem protocolos bem estabelecidos, principalmente em ambiente de UTI. Eles aplicaram de uma forma irregular, inadequada e, com certeza, sabiam dos efeitos potenciais dessa medicação”, afirmou.

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Após identificar circunstâncias consideradas atípicas, o Hospital Anchieta instaurou um comitê interno de investigação, demitiu os suspeitos e comunicou a Polícia Civil em dezembro. Em nota, o hospital afirma que colaborou com as autoridades e que também se considera vítima da ação dos ex-funcionários.

O Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal informou que abriu apuração para verificar eventual responsabilidade médica. As famílias das vítimas já foram notificadas e acompanham o caso.

A Polícia Civil apura agora se há outros óbitos semelhantes no Hospital Anchieta ou em outras unidades onde o técnico investigado tenha atuado. A reportagem da Itatiaia tenta contato com a defesa dos investigados.

Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.

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