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Dia das mães: amor une mulheres com deficiência que vivem a maternidade e ultrapassam desafios

Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, sendo 8,3 milhões mulheres; dia das mães é comemorado neste domingo (10)

Por e , Belo Horizonte
Amor une mulheres com deficiência que vivem a maternidade e ultrapassam desafios • Reprodução / Redes sociais

Para muitas mulheres, a maternidade representa a realização de um sonho, mas também um percurso marcado por desafios. No caso de mães com deficiência física, essas dificuldades costumam vir acompanhadas de preconceito, infantilização e dúvidas sobre sua capacidade de exercer a maternidade — formas de violência conhecidas como capacitismo obstétrico.

Apesar das barreiras, o amor e a dedicação unem diferentes experiências maternas na busca por uma maternidade vivida com mais autonomia, leveza e aprendizado diário. Celebrado neste domingo (10), o Dia das Mães homenageia mulheres que se reinventam todos os dias em prol de outra vida.

Dani Amaral, de 32 anos, perdeu os dois braços em um acidente com uma máquina agrícola em Paudário do Sul, no interior do Paraná, quando tinha apenas quatro anos. Ao longo da infância e adolescência, teve que aprender novas formas de viver, se adaptando à nova realidade. Quando se tornou mãe no final de 2025 enfrentou mais um desafio: enquanto se desdobrava para cuidar do filho ainda lidava com comentários maldosos e capacitistas.

"Quando eu estava no finalzinho da gestação gravei um vídeo mostrando a minha barriga, daí esse vídeo viralizou [...] e começaram a vir comentários falando que era um absurdo eu ter filho nessas condições, que eu era egoísta, que estava tendo filho para os outros cuidarem", relembrou a influenciadora à Itatiaia.

Mesmo sabendo que é uma figura pública e se dizendo estar sempre "blindada" aos comentários negativos nas redes sociais, Dani contou que ficou abalada com a reação negativa do vídeo, pois a maternidade ainda é um tópico sensível para ela.

"Conversar com mães que também não tem os dois braços foi muito importante, mas também conversei muito com mães que não têm deficiência. Elas me falavam que toda mãe precisa de ajuda, da família, do marido, ou uma babá, essa troca foi muito importante para mim", explicou.

O Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, sendo 8,3 milhões mulheres. Para a ginecologista Cláudia Navarro, apesar dos desafios, a maternidade vale a pena. À Itatiaia, a médica explicou que antes de ter um filho, a futura mãe deve conversar com o médico que já faz o acompanhamento da deficiência para avaliar os riscos.

“A medicina está muito avançada. A área tanto da gravidez de alto risco como da medicina fetal estão muito avançadas. É claro que cada mulher deve ser avaliada individualmente. A gente não pode generalizar em medicina e cada mulher é uma, cada pessoa é uma. Mas que a maternidade vale a pena, sem dúvidas”, explicou Cláudia Navarro.

Apoio dos profissionais de saúde que, por muitas vezes, esteve ausente no período em que Tayane Fullin, de 35 anos, esteve grávida. Segundo a empreendedora, ela precisou lidar com preconceito durante as consultas gestacionais. Mãe da Manuela, de 10 anos, Tayene é uma mulher surda, com perda auditiva neurossensorial profunda bilateral, ou seja, não escuta sem o implante em nenhum dos dois ouvidos.

“Faltava preparo e acessibilidade. Poucos profissionais sabiam lidar com uma paciente surda, e isso gerava situações desconfortáveis… eu precisava me virar, ler lábios, tentar entender tudo sozinha, ficava um pouco perdida. Mas a maioria das vezes, a minha mãe ia comigo”, contou a mãe.

A deficiência na lida com os filhos

A empreendedora foi mãe aos 24 anos de idade, e contou que ao descobrir a gravidez, ficou muito surpresa. “Foi um misto de surpresa com emoção. Aquele momento que você para e pensa: ‘e agora?’. Porque eu ainda era muito nova, ainda não tinha me formado na faculdade”, relembrou. Apesar da preocupação, ela recebeu bastante apoio da família, que ficou muito feliz com a gravidez.

À Itatiaia, ela disse que a comunicação com a filha foi um dos primeiros desafios que superou na maternidade. De acordo com Tayane, quando a menina era um bebê, era difícil entender o que ela queria, e a filha entender a mãe, mas com o tempo, elas foram se adaptando e hoje elas se comunicam bem.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Manuela, filha de Tayane, contou como foi “descobrir” que a mãe era surda. Segundo a menina, ela tinha entre dois e três anos de idade quando o pai dela falou que a mãe era surda. “Eu fiquei sem entender, eu era muito pequenininha, não entendi nada, mas hoje é tudo normal, eu entendo ela, ela me entende”, contou a garota.

Desafios também fizeram parte da rotina da influencer Dani Amaral. A youtuber contou que planejou ter um parto normal, pois a recuperação seria mais tranquila, e era algo que ela almejava. Além disso, já que teria que fazer tudo com os pés, não queria ficar debilitada após uma cesárea. No entanto, com 36 semanas de gestação, a placenta se descolou. Dani e o marido tiveram que ir ao hospital às pressas para fazer uma cesárea de emergência.

"Eu falo que a maternidade, o Fernando (filho de Dani), ele veio para me mostrar que nós realmente não temos controle de nada… as coisas a gente planeja… a gente se organiza, mas quando chega a hora, é da maneira que tem que acontecer", refletiu.

Mesmo com esse problema na placenta, a mãe disse que o maior desafio da maternidade, até então, foi a amamentação. Apesar de produzir uma quantidade suficiente de leite, Dani Amaral contou que não conseguia alimentar o filho, pois ele não ficava calmo no colo, chorava muito e não conseguia sugar o leite.

“Quando ele nasceu, ele refutava, brigava e não pegava o peito de jeito nenhum, eu tinha que acabar, tirando o leite que tinha e oferecia para ele no copinho, para ele se acalmar. Toda vez que ele ia mamar, era muito estressante. Quando ia dando a hora que eu sabia que ele ia mamar de novo, eu começava a ficar muito tensa e ele ficava nervoso”, detalhou a mãe.

Essa situação passou a entristecer a mulher: “Eu pensava : poxa vida, a hora da amamentação que é o momento que é para ser nosso, tranquilo, de conexão, tem sido o momento mais estressante para mim e para ele”, desabafou.

Motivada a ter um momento de amamentação tranquilo, Dani pediu ao marido e à mãe - que sempre a acompanhavam e a ajudavam - que a deixassem lidar com o bebê sozinha, ou seja, nenhum dos dois deveriam intervir, mesmo que ele chorasse.

"Eu falei, ele vai aprender a se acalmar comigo. Daí ele começou a chorar, chorar e chorar. Nossa, foi um choro desesperador, até hoje eu me arrepio quando eu lembro", detalhou.

Diante dessa situação, a mãe rezou e conversou com o bebê até acalmar o pequeno. Quando Fernando parou de chorar, após alguns minutos, Dani colocou no seio um bico de silicone auxiliar e o menino finalmente conseguiu mamar. A cena emocionou o marido, a mãe e a cunhada dela, que estavam por perto caso ela precisasse de ajuda. "Meu marido perguntou se eu queria ficar sozinha, disse que sim. Quando todos saíram do quarto eu me derramei em prantos enquanto ele mamava", contou a mulher.

Para a ginecologista, ser mãe é, acima de tudo, amar. "Aquela mulher que quer ser mãe tem que lutar sim por seu sonho, mas tem que considerar os riscos para ela e para o bebê. O gerar e o parir não são a única maneira de se realizar como mãe", concluiu a médica.

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Formada pela PUC Minas, Gabriela é apaixonada por redes sociais e novidades do meio. Ela faz parte do time de Redes da Itatiaia, mas também contribui nas editorias de Gastronomia e Entretenimento.

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Jornalista formada pelo UniBH, é apaixonada pelo dinamismo do factual e pelo poder das histórias bem narradas. Com trajetória que inclui passagens pelo Sistema Faemg Senar, jornal Estado de Minas e g1 Minas, possui experiência em múltiplas plataformas e linguagens. Atualmente, integra a redação da Rádio Itatiaia, onde acompanha os principais acontecimentos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo